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Carol Neves
Publicado em 2 de maio de 2026 às 17:01
Quando foi detido no Paraguai ao entrar no país com documentos falsos, em 2020, Ronaldinho Gaúcho chegou a passar por um cenário que lembrava uma prisão comum. Foram 32 dias no presídio Agrupación Especializada, em Assunção. Mas a maior parte do período de custódia acabou tendo outro endereço e uma realidade bem diferente para a maioria dos presos: o ex-atleta acabou ficando em um hotel de luxo. >
Após a fase inicial na cadeia, o ex-jogador e o irmão Assis passaram a cumprir prisão domiciliar no Hotel Palmaroga, no centro histórico da capital paraguaia. A medida foi autorizada pela Justiça durante a pandemia de covid-19, sob o argumento de evitar risco de contágio no sistema prisional. O resultado foi um período de mais de quatro meses em uma suíte presidencial praticamente exclusiva.>
Ronaldinho ficou preso em hotel de luxo
A suíte 104, no primeiro pavimento do prédio, virou o “lar” dos irmãos. O hotel, com cerca de 107 quartos e diárias que podem chegar a aproximadamente R$ 3 mil, chegou a ser fechado quase totalmente para atendê-los. No total, o prédio histórico de 1901 se transformou em cenário de uma rotina incomum envolvendo o ex-jogador.>
No espaço, havia sala com TV de 55 polegadas, copa com geladeira, mesa de jantar, lavabo e um quarto com cama king size. O banheiro tinha jacuzzi e chuveiro, e as janelas davam vista para a Rua Palma, uma das áreas mais privilegiadas do centro de Assunção.>
A rotina incluía churrascos no terraço do hotel, idas à cafeteria e constante movimentação de funcionários e visitantes. “Ele às vezes descia na cafeteria, que abria só para fazer o café da manhã, almoço e jantar dele, e todo mundo ficava na janela de vidro tentando tirar fotos, então ele tinha que subir de novo”, contou o gerente Emílio Yegros ao GloboEsporte, em 2024.>
O contato com funcionários também marcou o período. Segundo relatos, Ronaldinho costumava interagir com a equipe e chegou a se despedir de forma emotiva. “Ele falava de no último dia tirar uma foto com todo mundo e foi bastante emotivo, porque ele foi abraçar cada uma das meninas, faxineiras, cozinheiras, recepcionistas. Tinha uma fila enorme”, lembrou o gerente.>
O hotel também passou a receber visitas de jogadores e autoridades, além de fãs que se concentravam na entrada deixando camisas, bolas e pedidos de autógrafo. “Ele nunca disse não. Sempre dizia: traga para cá”, afirmou Emílio.>
Prisão>
Ronaldinho e Assis haviam chegado ao Paraguai a convite de empresários ligados a eventos e projetos sociais, além do lançamento de uma autobiografia. Pouco depois, foram presos após o uso de passaportes adulterados. O documento havia sido entregue por intermediários, que mais tarde passaram a ser investigados e estão foragidos.>
Após cerca de cinco meses de investigação, o Ministério Público paraguaio decidiu não apresentar novas acusações contra os irmãos. Isso abriu caminho para um acordo judicial. Ronaldinho pagou multa de 90 mil dólares e Assis, 110 mil dólares. Os valores foram abatidos da fiança de 1,6 milhão de dólares paga anteriormente.>
Ao todo, foram 171 dias sob custódia em Assunção, somando prisão e prisão domiciliar. A defesa sustentou que não houve má-fé do ex-jogador no uso do documento adulterado. “Ele nem sabia que o documento tinha sido adulterado. Como não identificaram má fé, pagou uma multa e foi encerrado sem qualquer tipo de mácula”, afirmou o advogado Sergio Queiroz.>
A saída ocorreu dois dias após o pagamento do acordo. Na despedida, Ronaldinho deixou o hotel cercado por fãs e fez uma última foto com funcionários do Palmaroga. A imagem ainda hoje permanece exposta no local como lembrança de um dos períodos mais inusitados da trajetória do ex-jogador.>