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Carmen Vasconcelos
Publicado em 5 de março de 2026 às 06:30
Natural de Catu e radicada em Salvador, a arquiteta Inaha Paz desenvolveu o conceito de Afroneuroarquitetura ao perceber que os estudos tradicionais da Neuroarquitetura — área que investiga como o ambiente impacta o sistema nervoso — partem, em grande parte, de referências do Norte Global e de uma ideia universal de bem-estar. >
Em processo de registro no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), a proposta articula dados científicos, consultados em bases como a PubMed, com saberes africanos e afrodiaspóricos sobre território, natureza e coletividade, defendendo que espaço e corpo não são neutros, mas atravessados por história, memória e raça. A partir dessa perspectiva, ela criou a metodologia Casa Curativa, estruturada no tripé corpo, mente e memória.>
O projeto começa com um inventário afetivo para compreender identidade, rotina e desejos de quem vai habitar o espaço, transformando iluminação, materiais e organização em instrumentos de regulação e cuidado. >
Para a arquiteta, embora o ambiente não resolva o racismo estrutural, pode deixar de reproduzi-lo, reduzindo camadas de estresse e promovendo pertencimento, especialmente em casas e ambientes de trabalho.>
Inaha, você é natural de Catu e hoje está radicada em Salvador. Como foi sua jornada desde a formação até decidir se especializar em um nicho tão específico e inovador como a Neuroarquitetura?>
Minha trajetória profissional tem 16 anos e atravessa diferentes formações: comunicação, design de interiores, arquitetura e especialização em projetos para espaços de trabalho. Foi em 2017, durante essa especialização em projetos corporativos pela Smart Workplaces, que tive meu primeiro contato com a Neuroarquitetura. >
A arquiteta Priscilla Bencke, que coordenava a formação, havia acabado de se especializar na área nos Estados Unidos e, mais tarde, junto com Gabriela Sartori, fundaria a Neuroarq Academy, hoje a principal academia brasileira dedicada ao tema, da qual faço parte. Ali compreendi que o espaço não impacta apenas estética ou produtividade, mas o sistema nervoso. Desde então, iniciei formações livres e aprofundamentos na área. Com a consolidação do MBA da Neuroarq Academy, reconhecido pelo MEC, ingressei na primeira turma, que será concluída em abril de 2026. >
Minha trajetória com a Neuroarquitetura começou quando identifiquei nela a possibilidade de exercer minha profissão de maneira mais embasada, sem achismos e com mais responsabilidade técnica sobre os impactos que os espaços produzem nos corpos.>
Em que momento da sua carreira você percebeu que a arquitetura convencional não estava dando conta de responder às necessidades dos corpos negros e racializados?>
Estudar Neuroarquitetura me deu embasamento científico para compreender a relação pessoa-ambiente: como luz, forma, materiais e organização influenciam o sistema nervoso, o comportamento e a saúde. A premissa central da Neuroarquitetura é justamente essa: entender essas variáveis e traduzi-las em decisões de projeto mais conscientes.Mas, ao aprofundar meus estudos, comecei a perceber um incômodo: a maior parte dos parâmetros utilizados como referência eram produzidos no Norte Global. A literatura, os congressos internacionais e as principais associações da área estavam concentrados em contextos majoritariamente brancos. Isso não invalida a ciência, mas evidencia que um recorte localizado foi universalizado. Passei a me perguntar: como essa mesma ciência dialoga com a experiência de corpos negros nos espaços que habitam? Onde estão os cruzamentos entre dados científicos e os saberes ancestrais e arquitetônicos produzidos em África e na diáspora, que historicamente organizam formas de habitar centradas em território, natureza e comunidade?>
Percebi que esses universos existiam, mas não estavam sendo articulados de forma sistemática. Foi nesse tensionamento que comecei a investigar essa intersecção. E dali nasceu o que hoje chamo de Afroneuroarquitetura.>
Você está finalizando um MBA em Neuroarquitetura. Como o ambiente acadêmico tem recebido as suas provocações sobre a falta de um recorte racial nesses estudos?>
Tenho provocado o campo a pensar: bem-estar para quem? Quem está pensando, pesquisando e escrevendo sobre isso? A ciência e a academia ainda operam, muitas vezes, com uma ideia neutra de usuário. Mas não existe neutralidade quando falamos da experiência nos espaços que habitamos. Raça é um fenômeno social, assim como a arquitetura é uma ciência social que responde a problemáticas humanas (abrigo físico e simbólico).>
Território e memória moldam como percebemos tudo ao nosso redor. Luz, sombra, cor, segurança, aberturas, fluxos e sons são condicionantes do ambiente que acionam respostas distintas nos corpos. E esses corpos não são abstratos, são históricos.>
Ao falar sobre esse tema, encontro reações diversas: interesse, curiosidade e resistência. Parte dessas reações está relacionada ao fato de tensionar um campo estabelecido; outra parte revela o quanto ainda precisamos amadurecer a discussão racial dentro da própria ciência. Acredito que a ciência só avança quando aceita revisar seus pressupostos e ampliar suas lentes.>
Sua metodologia se baseia no tripé "corpo, mente e memória". Como esses pilares se traduzem na prática de um projeto de interiores ou de uma consultoria?>
A Casa Curativa não começa na disposição dos móveis ou na estética. Começa na compreensão profunda de quem vai habitar aquele espaço. O primeiro documento que envio ao cliente após a contratação é o Inventário Afetivo. Trata-se de uma investigação estruturada sobre memória, rotina, corpo, identidade e, principalmente, sobre como essa pessoa deseja se sentir e que ambiente deseja experimentar. Pergunto qual fase ela está vivendo, que ritmo deseja ter, que tipo de descanso precisa, que encontros quer favorecer, que histórias quer honrar. O projeto nasce dessa escuta. A partir dessas respostas, iluminação, cores, fluxos de circulação, materiais e organização dos ambientes deixam de seguir soluções padronizadas para atender a expectativas externas e passam a sustentar a vida que aquela pessoa deseja construir.>
Corpo, mente e memória deixam de ser conceito e passam a ser parâmetros técnicos de projeto.>
No mundo do empreendedorismo, encontrar um "oceano azul" é raro. Você se considera uma pioneira ao cunhar o termo Afroneuroarquitetura? Como isso posiciona sua marca no mercado baiano e nacional?>
Eu não enxergo a Afroneuroarquitetura apenas como um diferencial de mercado, mas como a consolidação de um campo interdisciplinar. O termo surgiu a partir da constatação de que a Neuroarquitetura ainda não dialoga de forma sistemática com as questões raciais e territoriais no Brasil.>
Ao pesquisar, não encontrei estudos estruturados com essa nomenclatura específica nem registro do termo nos órgãos oficiais. Por isso, iniciei o processo de registro no INPI como forma de organizar metodologicamente essa contribuição.>
Meu desejo não é concentrar essa discussão em uma prática individual, mas abrir um espaço de investigação coletiva, onde arquitetos e urbanistas, profissionais da saúde mental, pesquisadores das ciências sociais, especialistas em território e geografia, neurocientistas e estudiosos das relações étnico-raciais possam dialogar a partir dessa lente. Se isso posiciona minha marca no mercado, é como consequência de um projeto maior: ampliar o campo, estruturar pesquisa e formar profissionais com uma compreensão mais complexa do que significa bem-estar.>
Você afirma que a experiência espacial não é neutra. Para um profissional de RH ou um gestor que lê o Correio, qual o impacto de um ambiente de trabalho que ignora a identidade e o território do colaborador?>
Partindo do princípio de que um corpo nunca é neutro por carregar história, traumas geracionais, memória coletiva e atravessamentos raciais, então o ambiente também não pode ser pensado como neutro. Corpos regulam e desregulam diante de estímulos do ambiente. Sensação constante de vigilância, ausência de áreas de pausa, iluminação agressiva, padronização estética que apaga referências culturais ou sensação de não pertencimento não são detalhes, podem ser gatilhos. Um gestor pode errar ao tratar o espaço apenas como infraestrutura. Quando ignora que diferentes corpos respondem de maneira distinta aos mesmos estímulos, pode sem saber, reforçar tensões invisíveis que impactam produtividade, saúde mental e permanência dos profissionais. A experiência nos ambientes não é universal. Ela é situada. E reconhecer isso não é ideologia. Mais do que isso: buscar conhecer os seus colaboradores em sua história prévia ambiental é estratégia de gestão e cuidado.>
Como você faz a ponte entre dados científicos de bases como PubMed e os saberes ancestrais africanos e afrodiaspóricos? >
A ponte começa quando entendemos que ciência não é o oposto de ancestralidade, mas uma forma específica de sistematizar conhecimento. Ao recorrer a bases como PubMed, busco evidências sobre regulação do sistema nervoso, impacto da luz na produção hormonal, influência do som na frequência cardíaca e efeitos da natureza nos níveis de estresse. Esses dados mostram, de forma mensurável, que o corpo responde ao ambiente. Meu trabalho concentra esforços na interlocução com saberes africanos e afrodiaspóricos, especialmente porque a experiência negra pós-escravização exige uma leitura situada do espaço. No entanto, falar de território no Brasil também implica reconhecer que povos originários já operavam, antes das categorias científicas modernas, uma compreensão profunda da relação entre corpo, ambiente e coletividade.>
Circularidade, vínculo com a natureza, organização comunitária e centralidade do ritmo não eram apenas expressões culturais. Eram formas de sustentar equilíbrio e continuidade de vida.>
A convergência está no reconhecimento de que o ambiente produz estados internos. A neurociência mede aquilo que esses saberes já praticavam: a inseparabilidade entre espaço, percepção e pertencimento.O meu trabalho é colocar esses campos em diálogo com rigor, sem hierarquizar um sobre o outro e sem diluir suas especificidades históricas.>
Você posiciona a arquitetura como uma ferramenta de "equiparação". De que forma o design de um ambiente pode ajudar a mitigar o estresse causado pelo racismo estrutural?>
Quando falo em arquitetura como ferramenta de equiparação, não sugiro que o espaço tem o poder de resolver o racismo estrutural, pois esta afirmação seria uma inverdade. Racismo é uma estrutura social, histórica e política. O ambiente pode apenas deixar de reproduzir essa estrutura ou pelo menos contribuir para ameniza-la. O racismo estrutural produz hipervigilância (um estado constante de alerta) e desgaste acumulado. Corpos atravessados por experiências de discriminação tendem a operar sob tensão contínua. Se o ambiente reforça controle excessivo, ausência de privacidade, desrespeito, objetificação, padronização estética ou apagamento cultural, hierarquia humilhante, ele amplia essas cargas.>
Um projeto atento pode contribuir criando condições de regulação: iluminação equilibrada, materiais que transmitam segurança tátil, organização que não produza sensação de cerco, espaços de descanso reais e reconhecimento simbólico da identidade de quem ocupa aquele lugar.>
Arquitetura não substitui políticas públicas, mas pode reduzir camadas de estresse e contribuir para que o ambiente não seja mais um fator de sobrecarga. Cuidado, nesse contexto, é criar condições para que o corpo não precise se defender o tempo inteiro.>
Quais foram os maiores desafios para estabelecer sua autoridade técnica em uma área que, como você mesma aponta, ainda parte de uma "ideia universal de sujeito" (geralmente eurocêntrica)?>
A neuroarquitetura é um campo relativamente recente, com pouco mais de duas décadas de consolidação formal. Ainda está em processo de definição conceitual e expansão prática e, como acontece com muitos campos emergentes, começa a ganhar visibilidade e também apropriações superficiais.>
Propor uma leitura racial e territorial dentro de um campo que ainda está estruturando suas próprias bases significa participar da sua formação crítica.>
Quando afirmo que bem-estar não é neutro e que raça, território e memória moldam a experiência nos espaços, não estou apenas oferecendo uma metodologia diferente. Estou contribuindo para ampliar os parâmetros do próprio campo. Isso gera interesse, mas também desconforto.>
Para uma mulher negra, esse desconforto muitas vezes se traduz na necessidade permanente de comprovação. A excelência deixa de ser diferencial e passa a ser exigência.>
A resposta que encontrei foi aprofundamento. Pesquisa consistente, formação contínua e construção metodológica rigorosa. Em um campo ainda em consolidação, consistência é estratégia de permanência e também de transformação.>
Para estudantes de arquitetura ou jovens profissionais que desejam trabalhar com propósito e impacto social, qual é o primeiro passo para desenvolver um olhar mais crítico e humano sobre o morar?>
O primeiro passo é reconhecer que o morar está atravessado por relações de poder e que toda neutralidade deve ser encarada com olhos de suspeita.>
Arquitetura nunca foi apenas técnica. Ela organiza acesso, define quem permanece e quem é deslocado, quem tem direito à cidade e quem é constantemente empurrado para suas margens.>
O corpo é o primeiro território. E esse território carrega raça, memória, história e desigualdades estruturais. Ele responde ao ambiente porque o ambiente também responde às estruturas sociais que o produziram. Desenvolver um olhar crítico exige compreender que espaço não é cenário. É dispositivo.>
Perguntar para quem se projeta, quem está sendo considerado e quem está sendo invisibilizado não é um gesto ideológico. É um gesto técnico e ético.>
Se quisermos formar profissionais mais conscientes, precisamos ampliar o repertório, tensionar a ideia de neutralidade e entender que justiça espacial não é abstração e sim de prática cotidiana.>
O projeto Retadas é uma realização do jornal Correio com apoio do SEBRAE e Sistema Comércio BA - Fecomércio, Sesc, Senac>