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Moyses Suzart
Publicado em 1 de janeiro de 2026 às 18:22
Quem reparava em Deisy Anunciação, que chamava atenção com seu belo vestido branco rendado, mas equipada com câmera profissional, celular e outros apetrechos tecnológicos para registrar tudinho da Procissão do Bom Jesus dos Navegantes na chegada triunfante na Ponta de Humaitá, nem conseguiria imaginar que ela estava ali de virote da festa da virada, mas toda plena, não apenas para acompanhar umas das mais importantes manifestações culturais da capital, mas também para mostrar aos paulistas sobre a manifestação religiosa. Baiana, a jornalista estava fazendo um trabalho audiovisual para um canal de gastronomia de São Paulo, onde ela mora. >
“Isso aqui é sensacional, porque infelizmente as pessoas ainda têm uma visão pejorativa sobre o baiano e sobre as tradições de matriz afro-brasileira e também a católica. Então, como jornalista, é uma oportunidade de mostrar que a nossa cultura é viva, é secular, e que a gente precisa preservar e ter orgulho da tradição que tem. Porque, se a gente não salvaguardar a cultura que a gente construiu durante todo esse tempo, quem somos nós? Ninguém. Se você não sabe quem você é, você não sabe onde quer chegar”, conta Deisy. O segredo para curtir o ano novo e ainda acompanhar o momento da fé, de virote? Ela tem o segredo.>
“O baiano tem o molho! Eu quero mostrar nosso molho, que a gente tem um potencial incrível. Nós, baianos, já sabemos disso, mas nem sempre conseguimos correr atrás e dizer: somos um povo potente, fruto de uma miscigenação extraordinária. A gente precisa parar com esse complexo de vira-lata e enxergar a importância do nosso povo e da nossa cultura. Cada lugar do Brasil é extraordinário, mas a Bahia é a Bahia. A Bahia é a Bahia, meu Deus do céu”.>
A fala de Deisy é forte e necessária, principalmente quando o assunto é conservar as culturas populares. A Procissão do Bom Jesus dos Navegantes continua com sua beleza ímpar, mas é possível perceber um esvaziamento da população. Nesta quinta-feira (01), a imagem do Bom Jesus saíria da Conceição da Praia em direção da Boa Viagem, onde teve um encontro emocionante com a Nossa Senhora da Boa Viagem. Na saída, poucos devotos acompanharam a missa na igreja e a ida do santo até a histórica galeota “Gratidão do Povo”, onde o leva, pelo mar, até Boa Viagem. >
A devota Denise Almeida, de 71 anos, é uma das que não deixa a tradição esmorecer. Ela mora em Boa Viagem, mas no dia primeiro pega seu ônibus até a Conceição da Praia. Acompanha a missa, vai até a galeota e ainda retorna à Ponta de Humaitá para acompanhar a chegada. “Faço isso desde menina, realmente já foi uma festa bem mais frequentada, mas a fé continua a mesma. Agora vou pegar meu ônibus para pegar a chegada da imagem. Não dá para eu ir pelo mar, né?”, brinca Denise.>
A tradição ainda é mantida no lado da Boa Viagem, felizmente. A imagem de Jesus passa pelo Porto da Barra e faz o retorno, cruzando a Baía de Todos-os-Santos até sua chegada final. Por volta de 11h, o cais da Ponta de Humaitá já está repleto de fiéis, curiosos, banhistas e turistas. A chegada é apoteótica e o encontro do filho e da mãe é celebrado com palmas e cânticos religiosos. Depois, as duas imagens foram conduzidas, em procissão, até o Largo da Boa Viagem, com missa campal. >
Para muitos, a procissão é o verdadeiro rito de passagem de um ano para o outro. “Acho que tem uma importância espiritual mesmo. Eu acompanhei a missa [na Conceição] e agora as rezas, e sinto que existe uma conexão com o que vem pela frente. Achei muito bonito quando o padre disse que é preciso não ser apressado, principalmente na entrada do ano e, na verdade, na vida como um todo. Isso é muito simbólico: parar, respirar e ter mais calma. A procissão me trouxe isso, é lindo”, disse a turista carioca Eloisa Brantes, que já morou em Salvador no início dos anos 2000 e estava levando outros dois amigos. >
Para o Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Salvador, Dom Gilvan Pereira, a procissão marítima tem um significado especial. “Nós temos necessidade de encontros, de afetos. São muitas tempestades e muitas ondas que a vida nos apresenta. E esse momento aqui é um unir forças, um momento de fraternidade e de encontros. A gente se aproxima de Jesus e vê o encontro do Filho com a Mãe, e isso representa essa necessidade de eliminar muros e pontes entre nós para crescer fraternidade e relacionamento. Não é uma festa que faz uma memória abstrata. As pessoas vivem esse amor e essa proximidade de forma muito concreta, e isso é muito bonito”, disse. >
Dom também reafirma que Navegantes é o começo de um ciclo. “É também o início de um ciclo, principalmente por ser 1º de janeiro, o primeiro dia do ano. É importante ver essas pessoas aqui unidas, esperançosas e querendo traçar um amanhã melhor, um futuro melhor, a partir da nossa humanidade e da nossa proximidade”, completa. >
E o ciclo não para. Depois da emoção da procissão, Deisy Anunciação ainda teve tempo de descansar um pouco para depois se deslocar até o Farol da Barra, acompanhar a festa do Pôr do Som, de Daniela Mercury. De fato, a Bahia tem o molho. E muita cultura também…>
A Festa do Senhor Bom Jesus dos Navegantes é uma das mais antigas e simbólicas celebrações religiosas e populares de Salvador. Ela nasceu no século XVIII, com registros que remontam à década de 1740, ligada às irmandades marítimas e à fé dos pescadores e marinheiros que pediam proteção divina para enfrentar o mar. O ponto alto é a procissão marítima: a imagem segue em embarcação enfeitada, acompanhada por uma frota de barcos, em um cortejo de fé que mistura religiosidade e cultura popular, sempre à beira da Baía de Todos-os-Santos.>
O rito tradicional envolve a ida da imagem até a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, onde recebe homenagens, e o seu retorno solene no dia 1º de janeiro, quando volta ao santuário de origem, marcando o início do ano com pedidos de bênçãos e agradecimentos. Ao longo do tempo, a festa se consolidou como um marco do calendário baiano, unindo devoção católica e identidade marítima.>
Bom Jesus dos Navegantes em Salvador