LIMPEZA URBANA

Dia do Gari: conheça algumas histórias dos profissionais que atuam na limpeza de Salvador

Cerca de 4 mil profissionais atuam na capital recolhendo mais de 5 toneladas de resíduos por dia

  • Foto do(a) author(a) Gilberto Barbosa
  • Gilberto Barbosa

Publicado em 16 de maio de 2024 às 06:00

Cerca de 4 mil agentes atuam na limpeza urbana em Salvador
Cerca de quatro  mil agentes atuam na limpeza urbana em Salvador Crédito: Marina Silva/CORREIO

O uniforme laranja é inconfundível para quem passa na rua. A cor caracteriza os responsáveis por cuidar da manutenção das cidades: os garis e margaridas [mulheres que atuam na limpeza urbana]. Em Salvador, eles recolhem, diariamente, uma média de 5,1 mil toneladas de resíduos domiciliares e restos da construção civil. A categoria comemora nesta quinta-feira (16) o ‘Dia do Gari’, que celebra o trabalho dos profissionais.

São mais de 4 mil garis e margaridas atuando na capital baiana, sob a gerência da Empresa de Limpeza Urbana de Salvador (Limpurb). Entre eles está a agente de varrição Naiara dos Santos, 30 anos, que trabalha há 11 anos na área. Mãe de dois filhos, um menino de cinco anos e uma menina de 12, ela conta que o trabalho proporcionou melhores condições para ela e a sua família.

“Eu consegui minha casa própria, um plano de saúde e uma vida melhor para eles.Fui criada pelos meus avós, que faleceram quando  tinha 15 anos. A partir daí,  tive que me sustentar sozinha, porque minha mãe não morava perto, então comecei a trabalhar cedo. Quando iniciei na limpeza, eu juntei um dinheiro para comprar material e, com 24 anos, já tinha minha casa. Hoje, meus filhos têm coisas que não tive e tenho muito orgulho de falar isso”, afirma.

Há cerca de três anos, a agente de limpeza Eliana Almeida, 40 anos, atua na região da Graça, em Salvador. Ela conta que enquanto fazia a manutenção das ruas, durante a pandemia de Covid-19, teve uma conversa com uma moradora que mudou a sua vida. “Um dia, uma moradora olhou para mim e disse que meu sorriso era muito bonito. Eu perguntei como ela achava isso, já que eu estava de máscara e ela disse que eu sorria com os olhos”, explica.

O momento foi o pontapé inicial para ela sair de um relacionamento de nove anos, marcado pela violência doméstica. “Nesse dia,  cheguei em casa, tirei a máscara, fui ao espelho e percebi que meu sorriso não combinava com a pessoa que eu era naquele momento. A partir disso, passei a ter a firmeza de dizer que não queria aquilo para mim e que precisava mudar . Com o tempo, eu consegui me separar, conquistei a minha independência financeira e estou aqui firme, depois de me libertar dessa relação”, explica.

A margarida Telma Almeida, 39 anos, é natural do município de Mutuípe, localizada no Vale do Jiquiriçá. Ela veio para Salvador em busca de novas oportunidades e atua na Limpurb há cerca de sete anos. Cerca de quatro meses após começar na varrição da capital, ela precisou cuidar sozinha de seus três filhos, de 19, 15 e 11 anos, após o falecimento do pai deles.

“Eles valorizam o meu trabalho porque sabem que eu sou pai e mãe e provejo o alimento de casa. Eles têm essa consciência e ficam alegres quando me vêem dando entrevista. Com o trabalho, eu consigo dar uma vida melhor para eles, com estabilidade e sem muita preocupação. Nesses sete anos, eu me tornei mais dona de mim e parei de me preocupar com o que os outros pensam ou falam”, relata.

Naiara segue a postura de Telma no que se refere a relação dos filhos com o trabalho na limpeza urbana. Após vê-la numa emissora de televisão, durante o Carnaval, as crianças decidiram aguardar a chegada da mãe até a madrugada e recebê-la com gestos de carinho.

“Meu menino disse que quer fazer o aniversário dele com a minha farda. Recentemente, a professora disse para as crianças irem trajados com elementos que identifiquem a profissão da mãe e ele pediu para ir com o meu uniforme. É muito gratificante, como mãe solteira, poder dar tudo para eles e vê-los demonstrando que têm orgulho de mim e de quem eu sou. Só tenho que agradecer e seguir em frente”, diz.

“O meu caçula tem nove anos e diz que sou a rainha dele. Ele fala com os colegas da escola para não jogar o lixo na rua porque tem pessoas que acordam muito cedo para trabalhar. Tem essa consciência ambiental graças a minha profissão”, finaliza Eliane.

O ‘Dia do Gari’ foi oficializado em 1962 para homenagear uma das profissões mais antigas do país. O termo “gari” é uma referência ao francês Pedro Aleixo Gary, fundador da primeira empresa de coleta de lixo urbano na cidade do Rio de Janeiro, em outubro de 1876.

Nesta quinta-feira (16), a Empresa de Limpeza Urbana de Salvador (Limpurb) apresenta a mostra artístico-fotográfica “Cores da Cidade: artista da limpeza urbana”, que retrata o cotidiano, a vida e arte de garis e margaridas que atuam em Salvador. A exposição ficará disponível até o dia 31 de maio no Shopping da Bahia, Paseo Itaigara e Salvador Shopping.

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro