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Bruno Wendel
Publicado em 5 de maio de 2026 às 05:00
Apontado como principal base de atuação do Comando Vermelho (CV) em Salvador, o Complexo do Nordeste não se sustenta apenas pela localização estratégica, próxima a bairros de classe média e alta. O domínio da facção na região também é resultado de uma rede de lideranças distribuídas em diferentes localidades, responsáveis por manter o controle territorial, a disciplina interna e o funcionamento das atividades criminosas. >
De acordo com informações obtidas junto a fontes das forças de segurança que atuam no complexo, a estrutura do grupo na área é fragmentada, com integrantes exercendo funções específicas — desde a gerência de pontos de venda até a condução de decisões internas, como os chamados “tribunais do crime”. Mesmo sem a presença constante de chefes históricos, o modelo permite que a facção mantenha atuação contínua e organizada.>
Rede de chefes mantém domínio do CV no Complexo do Nordeste
No nível operacional, a atuação é pulverizada. Integrantes seriam responsáveis por localidades específicas dentro do complexo, formado pelos bairros de Nordeste de Amaralina, Santa Cruz, Vale das Pedrinhas e Chapada do Rio Vermelho. Nesse conglomerado, há nomes de destaque — lideranças em pontos que funcionam como células, garantindo a presença do grupo em diferentes áreas e facilitando tanto a distribuição de drogas quanto o monitoramento de movimentações policiais.>
É o caso de Tiago Roberto Cunha, o “Falcão”, que possui mandado de prisão por tráfico de drogas expedido desde 21 de dezembro de 2021 pela Vara de Execuções Penais de Lauro de Freitas. Ele comanda o tráfico no Alto do Vale das Pedrinhas, área que abrange a Rua do Japão, Rua da Coreia e a localidade conhecida como Banco dos Cornos, e é apontado como líder do “bonde” responsável pelo ataque a uma viatura da Polícia Militar que resultou na morte do cabo Glauber Rosa Santos, em fevereiro deste ano.>
José Carlos Ferreira dos Santos, o “Zóio de Gato”, é descrito como gerente da área dos Alagados e, atualmente, estaria no Rio de Janeiro, base histórica da facção. A ligação com o estado fluminense reforça o intercâmbio entre núcleos da organização. O criminoso é o “Nove de Copas” do Baralho do Crime e é procurado por tráfico de drogas, homicídio, organização criminosa e associação para o tráfico.>
“Chokito”, nome de guerra de William Santos Santana, é apontado como liderança do CV em parte da localidade Sucupira, no Beco da Juju, na Rua São Jerônimo e na Rua da Olaria. Ele teve participação na morte do cabo Gustavo Gonzaga da Silva, esquartejado no Nordeste de Amaralina, em 2018. Em janeiro do ano passado, foi preso com cinco comparsas após invadirem uma casa e ameaçarem matar uma família no bairro de Santa Cruz e, mesmo assim, continuaria dando ordens de fora do sistema prisional.>
A divisão territorial inclui ainda outros nomes associados a localidades específicas, como Hélder, na Rua Caio Pedreira Filho; “Feijão”, na Rua Sete de Agosto, também conhecida como “Globo”; “Trovão”, na Serra Verde, que divide com “Boba” o final de linha de Santa Cruz; “Arraia”, que chefia as localidades de Mangueira e Colômbia; e “Batoré”, na Rua Sucupira. A presença desses integrantes reforça o controle capilarizado da facção.>
Segundo o professor de Direito da Estácio-Fib, coronel Antônio Jorge, o crime organizado funciona como um Sistema Adaptativo Complexo (SAC). “Isso demonstra por que devemos tirar o crime organizado do campo do ‘caos’ e tratá-lo como um agente racional. Enxergar a facção como SAC ajuda a entender por que ‘prender o chefe’ ou ‘fazer uma operação’ isoladamente não resolve. No Nordeste, cada ação previsível do Estado vira dado para o sistema se recalibrar”, afirma. Em termos simples, não se trata de uma estrutura rígida e centralizada, mas de um conjunto de partes que interagem, aprendem e se ajustam constantemente ao ambiente — como um organismo vivo.>
Há ainda integrantes com funções ligadas à disciplina interna, como Fábio Souza Costa, o “Xande”, que, mesmo preso, segue atuante. Embora não ocupe posição de destaque na hierarquia geral, estaria ligado à condução de julgamentos internos, conhecidos como “tribunal do crime”, mecanismo utilizado por facções para punir rivais ou moradores que violam suas regras. Em abril deste ano, ele deu entrada baleado no Centro de Ortopedia e Traumatologia (COT), onde foi localizado pelo Departamento de Repressão e Combate ao Narcotráfico (Denarc).>