Livro reúne cartas inéditas escritas por Santa Dulce

Lançamento será em 5 de setembro

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  • Maysa Polcri

Publicado em 29 de agosto de 2023 às 05:15

59 correspondências foram selecionadas para o livro
59 correspondências foram selecionadas para o livro Crédito: Marina Silva/CORREIO

Senso de humor apurado e quase sempre convertido em brilho nos olhos, em vez de gargalhadas, saudade da sobrinha que morava distante, apreensão diante da falta de recursos e o cansaço de quem dedicava a vida para ser vetor de mudanças sociais. Todos sentimentos muito humanos, mas que foram sentidos também por um espírito iluminado. Com a escrita, Santa Dulce dos Pobres revelou facetas já conhecidas e muitas inesperadas de sua personalidade. Reunidas em um livro que será lançado agora em setembro, 59 cartas da religiosa baiana, escritas entre 1930 e 1980, aproximam os fãs da personagem histórica e os devotos católicos, da intimidade do ‘Anjo Bom da Bahia’.

Quem empunha papel e caneta, dá pistas de si em cada frase. No caso de Irmã Dulce, a aura de benfeitora divide espaço com a tia que era fã de Roberto Carlos e que dava bronca em funcionárias que relaxavam nas obrigações do trabalho. As 192 páginas de ‘Cartas de Santa Dulce - A face humana em todos nós’ reúnem manuscritos inéditos da primeira santa brasileira, que se considerava um instrumento da vontade de Deus na mesma medida em que se comportava e sentia como uma pessoa comum. Aproximar religiosos, mas e não somente eles, da heroína nacional, é o objetivo do livro.

Em uma das cartas, Dulce anuncia um
Em uma das cartas, Dulce anuncia um "assalto" quando, na verdade, pegava emprestada a furadeira de um amigo Crédito: Marina Silva/CORREIO

“Apanharam em meu quarto a fita de Roberto Carlos que você me deu. Será que arranja outra?”, perguntou a santa em correspondência endereçada à sobrinha, Maria Rita Pontes, em 1979. Hoje superintendente das Obras Sociais Irmã Dulce (Osid), Maria Rita morou boa parte da vida no Rio de Janeiro. A distância entre tia e sobrinha motivou incontáveis cartas que Santa Dulce escreveu e enviou à cidade maravilhosa. Os manuscritos driblavam a saudade e serviam de espaço para desabafos da religiosa. “Tenho tido alguns aborrecimentos com pessoas que foram fazer campanha à revelia, usando meu nome”, destaca na mesma mensagem.

‘Joia’ e ‘filha’ eram algumas das formas carinhosas que a Santa Dulce usava para se referir à sobrinha. “Ela dizia para minha mãe que eu era filha dela, o que às vezes era motivo de ciúmes. Eu ficava dividida porque gostava um tanto das duas”, revela Maria Rita, filha de Dulcinha, irmã mais nova da santa. O ‘tesouro’, como ela se refere às cartas, evidencia sentimentos comuns a todos. “As pessoas conhecem o lado da caridade e da religião, mas o lado de uma pessoa que sofre, sente medo e tem bom humor ainda é pouco conhecido”, diz.

Bom humor

O comerciante Abelardo Barbosa, 89, é um dos que tiveram o privilégio de conviver com Irmã Dulce e conhecer seu lado bem humorado. “Seu Abelardo, Paz e bem! Isto é um assalto. Vou levar uma furadeira”, escreveu a santa em 1989, três anos antes de sua morte, em 1992. O amigo é até hoje dono de uma loja nas proximidades das Obras Sociais e tinha o costume de emprestar utensílios, o que motivou a correspondência inusitada.

“Ela não fazia brincadeiras de sorrir, ela sorria com o olhar e tudo era no diminutivo. Pedia uma furadeirinha”, relembra Abelardo Barbosa. Ele e a esposa acompanharam de perto os últimos anos de Santa Dulce. Apesar de gigante nas ações e na disposição em ajudar o próximo, a religiosa não escondia o cansaço da vida de luta. “Estou sentindo necessidade de parar uns dois dias para rezar mais e descansar um pouco. Sinto-me num princípio de estafa”, confidenciou, em 1986, às amigas que ajudavam nas obras de caridade.

Aos 89 anos, Abelardo guarda com carinho oito bilhetes escritos por Irmã Dulce
Aos 89 anos, Abelardo guarda com carinho oito bilhetes escritos por Irmã Dulce Crédito: Marina Silva/CORREIO

No entanto, todo o esforço valia a pena para quem acreditava ser instrumento divino. “Como tudo é para Deus e os pobres, está tudo bem”, escreveu, demonstrando resiliência. em correspondência enviada à sobrinha. O amor pelos mais necessitados era tanto que chamava os alunos do Centro Educacional Santo Antônio (Cesa) de filhos, além de montar o cardápio das crianças.

Se soubesse que algum colaborador estava mole, chamava a atenção através dos escritos, como fez em 1988, em um bilhete destinado às funcionárias da cozinha. “Em vez de ficar reclamando, vocês deviam deixar o trabalho, já que ele não serve. Por outro lado, deveriam ter mais caridade e fazer as coisas por amor”, escreveu.

A paixão por animais também é lembrada na obra, através da preocupação que a religiosa tinha com Kito - periquito que ganhou na Feira de São Joaquim e deu de presente à sobrinha. Em 1991, Maria Rita deixou Kito no Rio de Janeiro para assumir interinamente as Osid imaginando que voltaria. Ele morreu meses depois. Foi enterrado no Memorial de Santa Dulce.

Cartas que abrem caminhos

Com as mesmas mãos que atendia os mais necessitados nas ruas de Salvador, Santa Dulce endereçava manuscritos para autoridades e personalidades a quem pedia doações para as Osid. Entre os destinatários, os presidentes Tancredo Neves e José Sarney. As preocupações com os recursos escassos para atender aos doentes também motivaram cartas endereçadas ao engenheiro Norberto Odebrecht, que construiu a primeira obra idealizada por Santa Dulce, e Walter Nunes, gerente da Bayer por 32 anos, que fazia doação de medicamentos.

Os recortes de textos reunidos revelam ainda a posição de autoridade que Santa Dulce alcançou na capital baiana. Prova disso é um bilhete de duas linhas que dizia “Estes 2 rapazes pedem um transporte grátis até o Rio”, escrito em julho de 1967. A assinatura da religiosa foi suficiente para que duas passagens fossem emitidas na Rodoviária de Salvador. Um dos viajantes era o escritor Paulo Coelho, na época com 19 anos. Depois de receber uma porção de sopa nas Osid, ele se dirigiu à Mãe dos Pobres e lhe pediu dinheiro para comprar duas passagens de ônibus para o Rio de Janeiro, daí surgiu o bilhete.

‘Cartas de Santa Dulce' é resultado de dois anos de pesquisa

A ideia de selecionar manuscritos de Santa Dulce e transformá-los em livro começou a ganhar contornos nítidos em 2021, quando a jornalista carioca Luciana Savaget veio a Salvador participar de uma missa em homenagem ao comediante Paulo Gustavo. Naquele ano, o ator, que fazia doações às Osid, morreu vítima de covid-19. Em uma conversa com Maria Rita Pontes, a jornalista sugeriu a publicação.

“Eu voltei depois para Salvador e visitei o Memorial Irmã Dulce, peguei todos os manuscritos originais e passei o final de semana dentro de um quarto de hotel lendo aquelas relíquias”, relembra a jornalista. A “viagem emocional”, como caracteriza o contato com a escrita da santa, foi o pontapé para o que depois viraria um conselho editorial que, ao longo de dois anos, se dedicou à pesquisa e seleção dos documentos. Luciana explica que a obra pode ser lida em qualquer ordem, mas que a ideia é que as palavras escritas por Dulce sejam como uma espécie de “autobiografia”.

‘Cartas de Santa Dulce - A face humana em todos nós’ será lançado no dia 5 de setembro (terça-feira), às 18 horas, no Espaço Coworking, no Shopping Barra (L4 Leste). Já no dia 26, acontecerá o lançamento no Instituto Superior de Educação Pró-Saber, no Rio de Janeiro. Todo o dinheiro arrecadado com as vendas será revertido para as obras sociais fundadas por Irmã Dulce. “A ideia não foi fazer um livro religioso, mas sim uma obra que mostra que Irmã Dulce tinha todas as fraquezas e fortalezas que um ser humano tem”, resume Luciana Savaget.

Serviço:

O que: Lançamento do livro ‘Cartas de Santa Dulce - A face humana em todos nós’
Quando: 5 de setembro, às 18 horas
Onde: Espaço Coworking, no Shopping Barra (L4 Leste)
Valor: R$75

Posteriormente, a publicação estará à venda na Loja Irmã Dulce (Av. Dendezeiros do Bonfim, 161, Largo de Roma) na capital baiana, e na loja virtual (loja.irmadulce.org.br).