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Millena Marques
Publicado em 6 de março de 2026 às 10:09
O novo trabalho do cineasta baiano Thiago Sampaio, “O Chamado do Mar”, vem conquistando reconhecimento internacional. O curta recebeu três prêmios no Rome Prisma Film Awards — Melhor Curta Documentário, Melhor Desenho de Som e Melhor Montagem —, reforçando sua presença no circuito global do cinema independente. Realizado em fevereiro, o festival é considerado um dos mais bem avaliados da Europa na plataforma FilmFreeway e reúne produções autorais de diversos países em mostras competitivas e exibições na capital italiana. >
Conduzido pela voz da liderança indígena, ativista e comunicadora Alice Pataxó, reconhecida pela BBC como uma das 100 mulheres mais influentes do mundo, o filme assume a forma de um manifesto sensorial ao abordar a relação entre território, memória e oceano.>
Para o povo Pataxó, o mar nunca foi apenas um horizonte, mas uma memória viva marcada pela história. Foi por essas águas que chegaram as embarcações portuguesas, dando início a um processo de invasão e ruptura que atravessa gerações. Ao retornar à beira-mar, Alice transforma essa herança de medo e silêncio em um gesto de escuta e reconexão, revelando o oceano como um espaço de pertencimento.>
A estreia de “O Chamado do Mar” ocorreu durante a COP30, em Belém, ampliando o alcance simbólico da obra. Na véspera da exibição, o território do povo Pataxó foi oficialmente demarcado após mais de três décadas de mobilização. O momento histórico ultrapassou o campo artístico e dialogou diretamente com um contexto de resistência e reparação.>
Em seguida, a produção integrou uma mostra cultural em Lisboa e foi selecionada como semifinalista do Sunday Shorts Film Festival. Após a premiação no Rome Prisma Film Awards, o filme segue ampliando sua circulação internacional e alcançando novos públicos. A obra também será exibida no TEDx Porto Seguro, no dia 19 de março, em Trancoso, no Teatro L'Occitane, e deve chegar em breve a outros espaços de exibição pelo Brasil.>
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“O Chamado do Mar” é um curta-metragem documental que acompanha a jornada íntima de Alice Pataxó, jovem comunicadora indígena do povo Pataxó, em seu processo de reconexão com o oceano — um território que reúne, ao mesmo tempo, pertencimento ancestral e memória de violência histórica.>
Para seu povo, o mar nunca foi apenas paisagem. Trata-se de um arquivo vivo. Foi por essas águas que chegaram as primeiras embarcações portuguesas, iniciando um ciclo de invasão, deslocamento e ruptura que atravessa gerações. Por isso, o oceano também se tornou um espaço marcado por medo, silêncio e distância.>
Ao retornar à beira d’água, Alice confronta essa herança invisível e inicia um movimento de escuta e reaproximação. Entre o som das ondas, os gestos do corpo e o ritmo das marés, o filme revela o mar como território de cura, sustento e equilíbrio — um espaço onde passado e presente se encontram.>
Construída a partir de uma linguagem sensorial e contemplativa, a obra valoriza o silêncio, os sons naturais e a presença, criando uma experiência imersiva que convida o espectador não apenas a compreender, mas também a sentir esse processo de reconciliação.>
Mais do que um filme sobre o oceano, “O Chamado do Mar” propõe uma mudança de perspectiva: apresenta o mar como território cultural e espiritual, inseparável dos povos que com ele se relacionam, e aponta que não existe conservação ambiental sem justiça histórica, território garantido e escuta dos saberes ancestrais.>