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Maysa Polcri
Publicado em 24 de março de 2026 às 05:30
O preço da gasolina voltou a pesar no bolso dos baianos e o litro já é vendido a R$ 7,99 em alguns postos no interior do estado. A alta é resultado de uma combinação de fatores internacionais, nacionais e locais. Eles vão desde conflitos geopolíticos até a forma como o combustível é precificado no estado. Entenda abaixo como é formado o valor do combustível pago na Bahia. >
Um dos principais pontos que explica a alta do preço, em todo o país, é o cenário externo. Segundo Juliana Guedes, doutora em Economia, professora da Unijorge, a instabilidade em regiões produtoras de petróleo impacta diretamente o valor final. Os Estados Unidos e Israel iniciaram ataques contra o Irã em 28 de fevereiro. O país, que é um dos principais produtores de petróleo do mundo, reagiu e o conflito ganhou proporções ainda maiores. >
“A região do Oriente Médio é a maior produtora de petróleo no mundo. Então, qualquer conflito que aconteça naquela região impacta diretamente o preço do barril do petróleo. A economia capitalista mundial ainda é dependente do petróleo, especialmente em países como o Brasil, que dependem muito das rodovias”, afirma a especialista. >
O aumento do barril de petróleo, portanto, não afeta só os combustíveis, mas toda a cadeia produtiva. “Se o preço do diesel sobe, o preço do frete também sobe e isso acaba sendo repassado para o consumidor final”, acrescenta Juliana Guedes. >
Postos com gasolina barata em Salvador
Na Bahia, há ainda um fator específico: a política de preços da refinaria de Mataripe, operada pela Acelen. Diferente do padrão nacional, os reajustes acompanham mais de perto o mercado internacional.>
“O estado não segue o padrão da Petrobras. A Acelen reajusta o preço com mais frequência, de acordo com o mercado internacional, enquanto a Petrobras, em alguns momentos, segura os preços para reduzir impactos”, detalha o economista e consultor financeiro Raphael Carneiro. É a chamada Paridade de Preço de Importação (PPI), que ajusta os preços internos dos combustíveis baseando-se no mercado internacional. >
Além disso, os impostos têm peso importante na composição do preço. De acordo com o economista Edval Landulfo, o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), principal tributo estadual, corresponde a cerca de 20% do valor final da gasolina na Bahia. >
“Hoje o ICMS é um valor fixo por litro, de R$ 1,57, desde janeiro deste ano. Considerando a gasolina a R$ 7,80, o ICMS, sozinho, representa cerca de 20% do preço total. É bem significativo”, explica (veja os cálculos ao final da reportagem). Os tributos federais (como Cide, PIS e Cofins) também entram na conta, junto com o custo da refinaria, distribuição e revenda. >
"Se a gente soma os impostos do Estado e da Federação, o consumidor paga cerca de R$ 2,26 de imposto em cada litro de gasolina na Bahia, nesse do litro sendo vendido entre R$ 7,78, R$ 7,80", exemplifica Edval Landulfo, que é vice-presidente do Conselho Regional de Economia da Bahia (Corecon).>
Na última quarta-feira (18), o Governo Federal propôs aos estados zerar o ICMS sobre importação do diesel até o fim de maio, sendo que metade de suas perdas seria compensada pela União. Os governadores resistem à proposta, diante do risco de perda de arrecadação. >
Na Bahia, em 2025, a arrecadação total dos tributos estaduais atingiu R$ 47,33 bilhões, crescimento de 6,69% em relação ao ano anterior. O ICMS representou 89,98% da arrecadação, segundo informações publicadas nas Demonstrações Contábeis Consolidadas do Estado da Bahia. >
A economista Juliana Guedes avalia que uma eventual redução ou isenção do ICMS teria impacto direto no preço final, mas com efeitos. “Se eles isentassem, ficaria menor o preço do combustível. É em cadeia, reduz o preço. Mas, do ponto de vista do Estado, é uma perda grande de arrecadação porque o ICMS é a principal fonte de receita”, afirma. >
A Acelen diz, em nota, que os preços seguem critérios de mercado e levam em consideração fatores como cotação internacional do petróleo, variação cambial e custos de frete, podendo variar para cima ou para baixo. "[A empresa] adota uma política de preços transparente, baseada em critérios técnicos e alinhada às práticas internacionais", afirma.
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Refinaria (Acelen): 40% a 43%
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ICMS: cerca de 20%>
Etanol anidro: 13% a 17%>
Impostos federais (PIS/Pasep e Cofins): 9%>
Distribuição e revenda: 12% a 15%>
Refinaria Acelen: R$ 3,25>
ICMS Imposto: R$ 1,57 >
Etanol Anidro: R$ 1,30>
Impostos Federais: R$ 0,69 >
Margem para a distribuição: R$ 0,97 >
Preço final médio: R$ 7,78 >
*Fonte: cálculos feitos pelo economista Edval Landulfo. >