SAÚDE

Proteção contra o HPV também é coisa de menino! E é de graça

SUS disponibiliza imunizante para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, mas meninas se vacinam bem mais do que garotos. Saiba onde encontrar vacina na rede privada

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  • Carolina Cerqueira

Publicado em 6 de agosto de 2023 às 05:00

Théo Lima, 11 anos
Théo Lima, 11 anos, recebe a primeira de duas doses do imunizante que está disponível no SUS Crédito: Marina Silva/CORREIO

Pais, não tirem as crianças da sala. Crianças, não se escondam dos pais. Vamos ler juntos? A conversa agora é coletiva! E o assunto é: vacina contra HPV. Eu sei que só de ler a palavra “vacina” pode ter dado aquela agonia. Quando a gente cresce, o Zé Gotinha não dá mais bola pra gente porque chega a fase de encarar a agulha. É chato, dói na hora, mas ela é importante para proteger contra doenças. A vacina contra o HPV precisa ser tomada por meninas e meninos. Mas parece que nem todo mundo sabe disso porque vivem dizendo por aí que só as meninas precisam se vacinar. Nada disso, viu?! Vacina contra HPV também é coisa de menino!

Esse imunizante é distribuído de graça nos postos de saúde para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos para evitar que eles, quando crescerem, desenvolvam verrugas e até alguns tipos de câncer. (Alerta spoiler: pra quem passou dessa idade, a vacina só é dada na rede privada, ou seja, vai ser preciso pagar pra tomar. E já aviso que ela não é nada barata). Tanto as mulheres quanto os homens correm o risco de pegar HPV e passar ele pra outras pessoas através do sexo. Opa! Pera aí…E por que essa vacina precisa ser tomada tão cedo, já que só as pessoas que fazem sexo podem pegar HPV? Calma que eu explico o que é que as crianças e adolescentes têm a ver com isso.

A gente sabe que falar sobre qualquer coisa relacionada a sexo pode dar vergonha, ser meio problemático, chato e até proibido em muitas famílias, mas é muito importante porque também tem a ver com saúde. Como a educadora sexual Magali Tourinho fala, o assunto gera curiosidade e é melhor que os filhos conversem com os pais do que com amigos que também estão meio perdidos ou ainda que busquem respostas na internet, que não é muito confiável. Mas sempre promovendo uma troca, tá bom, pais? Nada de querer dar aula para os filhos. Segundo Magali, filmes, séries e novelas que falem sobre sexo podem ser ótimas oportunidades para fazer surgir uma conversa entre pais e filhos sobre o tema. E por que não uma reportagem? Então vamos lá!

Lembram do coronavírus? O HPV também é um tipo de vírus e o mais comum de se ver por aí. Então qualquer pessoa tem grandes chances de se encontrar com ele alguma vez na vida. Só que, ao invés de ser transmitido pela tosse ou pelo espirro, o HPV é transmitido pelo contato que acontece na hora do sexo (quando as partes íntimas se encostam ou quando a mãos ou a boca encostam em uma parte íntima), seja ele entre um homem e uma mulher, duas mulheres ou dois homens. A boa notícia é que quem tomar duas doses da vacina quando criança ou adolescente vai estar protegido. A má notícia é que muita gente não está se vacinando, principalmente os meninos.

Vacina contra HPV é disponível no SUS
Vacina contra HPV é disponível no SUS Crédito: Bruno Concha/Secom

O ideal é que 80% das pessoas entre os 9 e os 14 anos estejam vacinadas. Essa é a meta do Ministério da Saúde, órgão que cuida da saúde no Brasil. O país não alcançou nem essa meta ainda e já tem outra: chegar aos 90% até 2030. Em todo o país, os meninos alcançam hoje só 52,2%. As meninas estão na frente nesse placar, com 75,95, mas ainda podem melhorar. Agora reparem que esses números são só da primeira dose e essa vacina precisa de duas, lembram?

Pois bem. Só 57,4% das meninas tomaram a segunda dose e 36,6% dos meninos. Estão achando ruim? Quando falamos só da Bahia, fica pior. Por aqui, 68,1% das meninas receberam a primeira dose, contra 44,4% dos meninos. Na segunda dose, as meninas ficam com 50,1% e os meninos com 30,2%.

Os números são muito baixos e deixam a Bahia passando vergonha quando comparada aos outros estados brasileiros. A gente fica em 21º lugar no ranking de vacinação contra o HPV em meninas e em 20º lugar em meninos. Agora já chega de enrolação e vamos logo entender por que muita gente não sabe que os meninos também precisam se vacinar.

Por que os meninos também devem se vacinar?

A vacina contra o HPV começou a ser aplicada aqui no Brasil em 2014, pelo Sistema Único de Saúde, chamado de SUS, que oferece serviços de saúde de graça. Mas lá no início só as meninas poderiam se vacinar, primeiro as de 11 a 14 anos e depois também as de 9 e 10 anos. Os meninos foram liberados em 2017, de 11 a 14 anos. E só em agosto de 2022, ou seja, há um ano, também foram liberados os meninos de 9 e 10 anos.

Para dizer por que aconteceu desse jeito, entram agora na conversa as especialistas. Taís Calomeny e Cecília Roteli são médicas ginecologistas, ou seja, cuidam da saúde das mulheres. Elas explicam que mesmo que tanto as mulheres quanto os homens possam ser infectados pelo HPV e desenvolverem doenças, as mulheres correm mais risco. As doenças nelas podem ser mais graves e as chances delas desenvolverem câncer é maior. Por isso, elas acabaram passando na frente na fila da vacina.

E Cecília e Taís reforçam: os homens também podem desenvolver doenças ao serem infectados pelo HPV, como verrugas nos órgãos genitais (pênis, por exemplo) e no ânus, além de cânceres, como câncer de pênis, ânus e garganta, que são os mais comuns. Já nas mulheres, além do câncer de ânus e garganta, também existem outros como o câncer de vagina e o de colo de útero, que é o mais conhecido e o mais grave deles.

Vacina protege contra diversos tipos de câncer que atinge homens e mulheres
Vacina protege contra diversos tipos de câncer que atinge homens e mulheres Crédito: Bruno Concha/Divulgação

“O SUS não tem recursos financeiros para vacinar todo mundo, então é preciso fazer uma fila, com quem corre mais risco indo na frente. Primeiro, foram as meninas mais velhas, depois as meninas mais novas, aí os meninos mais velhos e, em seguida, os meninos mais novos. A principal explicação para as meninas terem passado na frente nessa fila é que os números de câncer de colo de útero são maiores do que os números de câncer de pênis”, explica Taís.

Mas agora que eles também podem se vacinar, o que está faltando? Não é por que os homens correm menos riscos que não precisam ser protegidos. Pelo contrário! Quanto mais gente se vacinando, melhor. Até porque mesmo quem não desenvolve doenças pode passar o vírus para outras pessoas, a não ser que esteja vacinado.

Por isso, o que o Brasil quer conseguir é a chamada imunidade de rebanho, que talvez você já tenha ouvido falar durante a pandemia. Se muita gente fica protegida contra o vírus, ele não consegue causar muitas doenças, que é o que permite a sua sobrevivência. Aí ele morre e não consegue infectar nem mesmo aquela pequena parte das pessoas que não se vacinaram. Mas pra isso é preciso que muita gente se vacine: pelo menos 80% da população, lembra? Então a gente ainda precisa correr pra chegar lá.

Os pais de Théo Lima, de 11 anos, não pensaram duas vezes para irem vacinar o filho. Mas ele já poderia ter se vacinado desde os 9, só que, adivinhe…achavam que vacina contra HPV era coisa de menina. Foi só numa conversa em família na semana passada que eles descobriram que os meninos também podem (e devem!) se vacinar. Aí eles correram para o posto e Théo se vacinou com a primeira dose. Agora vai esperar seis meses para tomar a segunda e ficar totalmente protegido para quando crescer.

Théo Lima, 11 anos
Théo Lima vai esperar mais seis meses para tomar a segunda dose e ficar totalmente imunizado Crédito: Marina Silva/CORREIO

“Mesmo sendo tão jovem e não tendo entrado ainda na fase de atividade sexual, eu acho importante ele se vacinar para se prevenir futuramente; quando chegar na adolescência ou na vida adulta, vai estar protegido. Se tem a vacina disponível e ainda gratuitamente, acho muito importante que as meninas e meninos se imunizem. Com todo mundo vacinado, a chance das doenças se espalharem é bem menor”, diz Emile Rodrigues, de 33 anos, mãe de Théo.

O pai, Téssio Lima, de 38 anos, também pensa assim e contou que ele e Emile explicaram para Théo sobre a vacina sem problema nenhum. “Por aqui sempre fomos abertos em relação a qualquer assunto, inclusive sexo, mesmo ele sendo criança, e já conversamos com ele sobre essa vacina. Quanto mais você informa, conscientiza, mostra a importância do cuidado com o outro, melhor”, diz Téssio.

Por que é preciso se vacinar tão cedo contra HPV?

Quem entra na conversa agora é mais um especialista: o imunologista Estevam José Baldon (doutor em imunologia pela Universidade de São Paulo e gerente médico da MSD, empresa fabricante de medicamentos e vacinas), que sabe tudo sobre vírus. Ele explica que quanto mais cedo o organismo recebe a vacina, melhor.

Estevam Baldon
Estevam Baldon Crédito: Divulgação/MSD

É que a vacina vai fazer a gente produzir anticorpos, que são como pequenos heróis que vão avisar o corpo que tem um invasor ali querendo deixar ele doente. Aí os chamados mecanismos de defesa se juntam para expulsar esse invasor. E quanto mais novo a gente é, mais esperto é o nosso corpo e mais força ele tem para produzir esses anticorpos. Quando a gente fica mais velho, também dá para produzir, mas o processo fica mais difícil.

“Todas as vacinas aplicadas em crianças têm um potencial muito maior de produzir anticorpos do que as aplicadas em adultos. O organismo jovem é mais responsivo e quanto mais cedo você aplica, mais tempo vão durar os anticorpos. Essa faixa etária é padrão em diversos outros países; é algo que vem dos estudos, das pesquisas”, reforça a ginecologista Cecília Roteli (presidente da Comissão Nacional Especializada em Vacinas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia).

Cecília Roteli
Cecília Roteli Crédito: Arquivo Pessoal

Ah, e também é importante dizer que o ideal é que a pessoa seja vacinada antes de encontrar o HPV por aí, para que esteja preparada para lutar contra ele. Então, se o vírus é transmitido através do sexo, é importante que as pessoas se vacinem antes de entrarem na fase da vida em que praticar sexo é comum, ou seja, antes de crescer e virar adulto.

Foi assim com Eduardo Faria, de 17 anos. Ele foi vacinado quando tinha 14 anos, já tomou as duas doses e está seguro. Ele lembra que, quando tomou a vacina, já sabia bem do que ela protegia. “Eu tive aulas na escola que falaram sobre o HPV e eu e minha mãe vimos várias notícias no jornal sobre a vacinação. Chegamos a enrolar um pouco, mas quando eu fiz 14, que era a idade limite para poder se vacinar de graça pelo SUS, ela me levou, porque sabíamos que era importante”, conta Eduardo.

E atenção pais! Olha o recado da ginecologista Cecília: “A vacina não é para liberar a criança para a atividade sexual, é para protegê-la contra cânceres. Escutamos tanto as pessoas falarem que queriam uma vacina contra o câncer. Ela existe e está aí para ser tomada!”. Cecília conta que ainda muitos pais não sabem direito o que é o HPV e como a vacina contra ele funciona e, por isso, acabam não levando os filhos para serem vacinados. Além disso, ela diz que é mito que as meninas precisam já terem menstruado para poderem tomar a vacina. Nada a ver! Basta chegar aos 9 anos de idade.

Por que crianças e adolescentes precisam ficar nos postos de saúde depois de terem se vacinado?

Uma informação que costuma preocupar os pais é que as crianças e adolescentes que tomam a vacina contra HPV precisam ficar no posto de saúde sendo observadas por enfermeiros e médicos por cerca de 30 minutos. E muita gente não sabe por que. A gente explica também. Vamos lá!

Segundo os especialistas, essa regra vale para todas as vacinas aplicadas em crianças e adolescentes. Só que no caso da vacina contra HPV, a regra está até escrita na bula. Isso acontece porque muita gente entre 9 e 14 anos tem medo de agulha. Lembram do início da reportagem? Pois é. Esse medo pode provocar o que chamam de reações psicogênicas.

Essas reações causadas pelo medo podem ser a famosa tremedeira, o coração acelerado e até um desmaio. E por isso é bom que a pessoa fique rodeada de profissionais de saúde para cuidarem dela caso seja necessário. Além disso, é importante para não confundir o que é só reação do medo de agulha com o que é reação da vacina. Olha aí o risco de fake news!

O imunologista Estavam José Baldon manda o recado: “A vacina é super segura. Foram milhões de doses administradas no mundo inteiro, em diversos países. O que temos de relatos mais comuns são reações padrões de qualquer vacina, como inchaço e dor no local, possível febre e sensação de cansaço”. Podem ficar tranquilos, tá bom?

Agora vocês devem estar se perguntando por que todas as vacinas não podem ser de gotinha. Mas é que as gotinhas só funcionam para vacinas que protegem contra doenças que são transmitidas por via oral, ou seja, com o contato da boca com água ou alimentos contaminados, por exemplo. Sinto muito…

Como a vacina contra o HPV funciona?

Chegou a hora de entender exatamente que vacina é essa que precisamos tomar. O HPV é uma família de vírus, ou seja, existem cerca de 200 tipos dele. Por causa disso, a vacina que existe hoje no SUS protege contra os tipos mais comuns e mais graves, que geram mais riscos à nossa saúde.

A vacina contra o HPV começou a ser aplicada em 2006 em mais de 130 países, como Austrália, que é um grande exemplo a ser seguido pelo Brasil porque por lá todo mundo se vacina direitinho. Essa primeira vacina era chamada de bivalente porque protegia contra dois tipos de vírus HPV: o 16 e o 18.

Depois, foi produzida a vacina chamada de quadrivalente, que protege não só contra os tipos 16 e 18, mas também contra os 6 e 11. Essa é a vacina que é aplicada de graça nos postos de saúde hoje para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, além de pessoas de 9 a 45 anos chamadas de imunossuprimidas, que são mais fracas na hora de lutar contra os invasores que ameaçam causar doenças. Essas pessoas precisam mais, então também têm prioridade lá na fila da vacina.

A rede privada, ou seja, os laboratórios e clínicas onde é preciso pagar para fazer exames ou se vacinar, também aplicam a vacina contra HPV. Mas lá a vacina é outra, chamada de nonavalente, que chegou em março de 2023. Como o nome diz, ela protege contra nove tipos do vírus HPV: 6,11, 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58. Qualquer pessoa de 9 a 45 anos pode ir lá, pagar e tomar, basta que um médico tenha recomendado. Para quem tem de 15 a 45 anos, assim como os imunossuprimidos, a orientação é que sejam aplicadas três doses, para que a proteção seja mesmo garantida. Porque quanto mais velha a pessoa, menos força ela tem para combater os invasores, lembram? Quanto mais cedo tomar a vacina, mais efeito ela vai ter. Por isso, para quem tem de 9 a 14 anos, bastam duas doses.

O imunologista Estevam Baldon explica que a proteção dessas duas vacinas dura bastante tempo, até pelo menos 20 anos. E as pesquisas continuam sendo feitas e podem acabar descobrindo que na verdade a proteção dura a vida toda. Tomara! O fato é que os cientistas dizem que, se você toma as duas doses certinhas quando ainda for criança ou adolescente, não precisa mais tomar essa mesma vacina quando for mais velho. Ufa! E a ginecologista Cecília Roteli diz que tanto a quadrivalente quanto a nonavalente são ótimas vacinas, que cada uma delas é capaz de nos proteger. Ou seja, as crianças e adolescentes podem tomar a quadrivalente que é aplicada de graça pelo SUS e não precisam procurar a rede privada e pagar para tomar a nonavalente.

A gente perguntou para o Ministério da Saúde se a nonavalente vai também passar a ser aplicada pelo SUS, mas ele respondeu por enquanto não, já que a quadrivalente é uma ótima vacina. Agora que vocês já entenderam o que é o HPV, o que ele pode causar e a importância de tanto meninas quanto meninos se vacinarem, temos um pacto? Vamos se vacinar pra todo mundo ficar protegido? Espero que a resposta por aí tenha sido sim. Ah! E já aproveitem pra checar na carteirinha de vacinação se tem mais alguma vacina faltando, ok?

Onde encontrar vacina contra HPV em Salvador?

As vacinas quadrivalentes contra HPV são aplicadas em todas as salas de vacinação, nos postos e centros de saúde. Em Salvador, são 160 deles espalhados pela cidade. A lista de todos pode ser lida no site da Secretaria Municipal de Saúde da cidade, que é o órgão responsável pela saúde em Salvador.

Na rede privada, as vacinas nonavalentes são encontradas em laboratórios e clínicas. Seguem algumas opções:

Sabin

  • Valor da dose: R$918
  • Combo três doses: R$2.700
  • Unidades: Alphaville, Graça e Itaigara
  • Contato: 71 3261-1314 ou https://www.sabin.com.br/?cidade=salvador-ba

Leme

  • Valor da dose: R$840
  • Unidades: Canela, Garibaldi, Itaigara, Imbuí e atendimento móvel
  • Contato: (71) 3338-8555 ou https://lableme.com.br/

LPC

  • Valor da dose: R$950
  • Combo duas doses: R$1.710
  • Combo três doses: R$2.565
  • Unidades: Barra, Pituba, Imbuí, Lucaia, Vilas e atendimento domiciliar
  • Contato: 71 2203-9955 ou https://loja.laboratoriolpc.com.br/

CSI

  • Valor da dose: R$650
  • Unidades: Rua Teixeira de Barros (Brotas) e Rua Alto do Saldanha (Brotas)
  • Contato: 71 3181-7666 ou https://www.csisaude.com.br/vacinas/

Delfin

  • Valor da dose: R$905
  • Unidades: Itaigara
  • Contato: (71) 3270-8500 ou https://www.delfindiagnosticos.com.br/