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'Trajetória interrompida': Ilê Aiyê se manifesta após feminicídio de candidata à Deusa do Ébano

Karielle Souza e o filho de 6 anos foram mortos por vizinho

  • Foto do(a) author(a) Maysa Polcri
  • Maysa Polcri

Publicado em 6 de abril de 2026 às 16:55

auto-upload
Karielle ganhou destaque ao representar a cidade de Ibirapitanga na edição do concurso de 2025 Crédito: auto-upload

O bloco afro Ilê Aiyê se manifestou após a morte de Karielle Lima Marques Souza, de 23 anos. A candidata ao posto de Deusa do Ébano e o filho dela, de 6 anos, foram mortos a facadas em Ibirapitanga, no sul da Bahia, no domingo (5). O principal suspeito do crime foi encontrado morto no distrito de Piabanha, na zona rural de Maraú.

"Karielle não foi apenas uma candidata ao posto de Deusa do Ébano, ela era símbolo de beleza negra, potência, futuro e representatividade. Sua trajetória agora é interrompida de forma irreparável", escreveu o Ilê Aiyê. O bloco ainda se manifestou contra os feminicídios e ressaltou que a morte da baiana não foi um caso isolado. 

Karielle Souza recusou investidas de suspeito e foi vítima de feminicídio por Reprodução

"Este não é um caso isolado. É reflexo de uma estrutura que insiste em violentar, silenciar e interromper vidas negras. É urgente que a sociedade, o poder público e todas as instituições assumam seu papel no enfrentamento dessa realidade, com políticas efetivas, proteção às mulheres e responsabilização rigorosa dos agressores", acrescentou em nota publicada nas redes sociais. 

Karielle ganhou destaque ao representar a cidade de Ibirapitanga na edição do concurso de 2025, realizado na Senzala do Barro Preto, no bairro do Curuzu, em Salvador. Nas redes sociais, ela foi celebrada pela gestão e por moradores do município ao viajar para a capital. Na ocasião, ela destacou o orgulho de levar o nome do município ao evento.

Além da participação no concurso, Karielle tinha uma trajetória marcada pela resistência. Mãe solo, ela também atuava como capoeirista e trancista. A Prefeitura Municipal de Ibirapitanga publicou uma nota de pesar nas redes sociais após a morte de Karielle e Nicolas, destacando o caráter e o protagonismo da mulher.

"Karielle foi uma jovem alegre e talentosa, que por diversas vezes representou com orgulho o nosso município em apresentações culturais, deixando sua marca e contribuindo com a valorização da nossa cultura. Neste momento de dor, nos solidarizamos com seus familiares e amigos, rogando a Deus que conceda força e conforto a todos", escreveu a gestão.

O crime

Segundo informações apuradas por policiais, o principal suspeito do crime, Rolemberg Santos de Pina, de 32 anos, teria interesse em manter um relacionamento com a vítima, mas não era correspondido. Karielle já se relacionava com outra pessoa e evitava contato com o homem, que morava nas proximidades. A suspeita é de que ele tenha esperado a saída do companheiro dela para invadir o imóvel e cometer o ataque, o que reforça a hipótese de premeditação.

O homem fugiu após o ataque e teve o corpo encontrado por policiais em uma fazenda no distrito de Piabanha, na zona rural de Maraú. Próximo ao corpo, foram encontrados uma faca e uma motocicleta. A principal linha de investigação aponta que ele tenha tirado a própria vida após o duplo homicídio.

O que disse o Ilê Aiyê

"O Ilê Aiyê vem a público manifestar seu mais profundo pesar e indignação diante do assassinato de Karielle Lima Marques Souza, de 23 anos, e de seu filho, uma criança de seis anos, vítimas de uma violência que escancara, mais uma vez, a face do feminicídio em nosso país.

Karielle não foi apenas uma candidata ao posto de Deusa do Ébano, ela era símbolo de beleza negra, potência, futuro e representatividade. Sua trajetória agora é interrompida de forma irreparável.

O Ilê Aiyê, enquanto instituição que há décadas exalta a vida, a cultura e a dignidade do povo negro, reafirma seu compromisso inegociável com a luta contra todas as formas de violência, em especial o feminicídio, que atinge de maneira desproporcional mulheres negras em todo o Brasil.

Este não é um caso isolado. É reflexo de uma estrutura que insiste em violentar, silenciar e interromper vidas negras. É urgente que a sociedade, o poder público e todas as instituições assumam seu papel no enfrentamento dessa realidade, com políticas efetivas, proteção às mulheres e responsabilização rigorosa dos agressores.

Hoje, nos unimos em luto, mas também em resistência. Que a memória de Karielle siga viva como força, denúncia e chamado à ação. Nos solidarizamos com familiares, amigos e toda a comunidade impactada por essa perda. Seguiremos em pé pela vida das mulheres negras e pela justiça".