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Uma rodoviária nasce, outra silencia: desavisados, falta de tomada e camelô vazio marcam início da mudança de terminais

Nova rodoviária começa a funcionar em Águas Claras enquanto a antiga amanhece vazia, sem passageiros e com lojas fechando as portas

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 21 de janeiro de 2026 às 05:00

Novo terminal começa a operar e velha rodoviária fecha as portas no mesmo dia em Salvador
Novo terminal começa a operar e velha rodoviária fecha as portas no mesmo dia em Salvador Crédito: Arison Marinho

A roupagem é nova, mas já tem a carinha da rotina de uma rodoviária tradicional nas suas primeiras horas do dia em funcionamento, que começou ontem. Pessoas correndo atrasadas, outras chegando muito cedo e tentando matar o tempo, gente querendo informação, procurando o que comer, como um terminal tem que ser. Com uma diferença: algumas foram apenas para conhecer, tietar. “É a nova rodoviária, moro aqui do lado, só vim conhecer mesmo e ver meu irmão, que é rodoviário”, disse Liana Conceição, enquanto tirava selfies como se estivesse num ponto turístico. Outros personagens também foram únicos neste dia de estreia: os que bateram fofo na rodoviária velha e tiveram que se picar correndo para a nova na tentativa de não perder o voo rasteiro.

Andresa Souza, coitada, foi uma dessas. A cara fechada denunciava sua ira. Ou, no bom baianês, ela estava certamente injuriada. “Essa rodoviária está top, mas já xinguei ela toda hoje, essa cabrunca”, proliferou Liana, em alto e bom som, na área de embarque, enquanto uma passageira ao seu lado carregava sua gatinha no colo e olhava desconfiada. Também pudera. Ela estava a passeio em Salvador e precisava voltar hoje para Santo Antônio de Jesus. “Estava numa pousada em Itapuã, saí daqui e fui direto para a rodoviária velha. Meu Deus, tudo deserto, fiquei até com medo. O bom é que me falaram que o metrô estava de graça para quem errou como eu (a nova, em Águas Claras), e vim pra cá. Nem comprei a passagem ainda”, disse Conceição, com um detalhe: estava ela e os três filhos. Alef, de seis, que corria pela rodoviária, mais Alice, de 2, além de Ariel, de um ano. Sem contar as sete bagagens, além de um velotrol.

Andresa elogiou quase tudo na nova rodoviária, mas denunciou um erro primário para um equipamento tão moderno. “Rapaz, cadê as tomadas daqui? Não tem uma, esqueceram de colocar, foi? Vou carregar meu celular como?”, disse Souza, enquanto as duas filhas mais novas disputavam o leite materno dela. Ela precisava falar com o marido, que dormiu na casa do pai, que mora em Salvador e estava chegando no local.

Na frente de Andresa, Claudina Maria enfrentava o mesmo problema. Ela não se confundiu entre a nova ou velha, mas chegou muito cedo. Seu ônibus para Cabo Sul só saíria 15h, mas ainda eram 8h30. “Não estou pegando no celular, pois estou com receio de acabar a bateria. Rodei na rodoviária e não encontrei uma tomada. Como esquecer algo tão simples e necessário?”, disse.

Outra dificuldade apontada por dona Claudina era a falta de opção para lanchar. Lembrando que ela ficaria cerca de sete horas na rodoviária, o primeiro dia de funcionamento contou apenas com três opções abertas: Mc Donalds, Subway e um quiosque chamado Zeca, neste último com o combo suco + salgado saindo por R$ 15. Somente o pastel, R$ 10. “Dá não, meu filho, vou ficar com os biscoitos que trouxe na bolsa”, revela Claudina.

Já Eloisio Silva resolveu comprar um ‘menorzinho’ no quiosque, indispensável antes de pegar o ônibus para Iaçu. O cafezinho com leite saiu por R$ 4,50 (100 ml). “Eu só soube que mudou ontem à noite, então vim certo. Parece um aeroporto, né? Mas os preços são salgados igual lá. Na antiga eu pagaria muito menos pelo cafezinho, ali no camelô”, lembra.

Novo terminal começa a operar e velha rodoviária fecha as portas no mesmo dia em Salvador por Arison Marinho

A Velha

Ao longo da manhã, alguns desavisados ainda chegavam na velha rodoviária achando que embarcariam. Seu José até sabia que tinha a nova, mas achou que a velha ainda estava operando. Acabou precisando correr para Águas Claras, pelo metrô, que estava oferecendo transporte de graça para os desavisados. Mas o que mais chamou atenção de José, que segurava seu copinho de café comprado na passarela, era o vazio da antiga rodoviária.

Ao contrário dos rotineiros dias, quase ninguém transitava mais. Um deserto de gente. Na rua em que os carros entravam para embarque e desembarque, deu até para alguns ambulantes baterem uma bolinha. Ao contrário do dia anterior, que foi o último em funcionamento, os vendedores informais não quiseram conversar. A cara de desilusão era nítida. “Acabou, irmão, teve gente que nem veio mais hoje”, disse um dos camelôs, apontando para algumas barracas fechadas.

O peruano Miguel Pacheco, que há 30 anos vende produtos na passarela da rodoviária e conversamos ontem, estava lá, mas também resolveu não expor suas mercadorias. “para quem ver?”, resumiu, enquanto usava o madeirite que exibia carregadores e produtos eletrônicos como suporte para comer sua quentinha, às 10h30. “Ontem eu disse que levaria meses para isso aqui virar uma Barroquinha, né? Acho que é questão de dias”, disse. Durante o tempo que ficamos no local, duas pessoas que não eram comerciantes locais passaram pelo local. Na lanchonete de Ceará, apenas alguns cafezinhos foram vendidos para os vendedores locais. No mesmo horário, mais de 50 salgados já tinham sido vendidos.

Na parte de dentro da saudosa rodô, apenas permissionários retiravam suas mercadorias nas lojas fechadas. Seu Vilas, da loja Dalas, disse que iria para a nova. “Vamos para lá, com fé em Deus. Só não sei ainda precisar quando”, disse. No entorno, ainda sem policiamento, algumas pessoas em situação de rua já circulavam no local.

Enquanto isso, na nova rodoviária de Salvador, Andresa Souza finalmente havia encontrado seu marido. Ele chegou com um arranhão enorme na cara e sangrando. Perguntamos o que foi, ele não respondeu, fingiu que não era com ele. Nossa personagem olhou torto, mandou ele ir limpar aquilo no banheiro, enquanto iria comprar as passagens. Os meninos estavam agitados, dona Claudina ofereceu ajuda, enquanto Alef cutucava a gata da senhora ao lado. Andresa pegou a filha do meio, deixou os outros dois com Claudina, sem cerimônia. A mais nova fez menção de mamar na outra passageira, que se esquivou. A gateira resolveu guardar sua gatinha na caixinha. Alef corria por todo lado. Andresa voltou com um saquinho de pipoca que a empresa Águia Branca estava dando de graça e entregou a Claudina. Se tornaram ‘best friends’. O pai sumiu.

De fato, a rodoviária parece ter herdado as mesmas histórias maravilhosas que uma rodoviária precisa ter. É a Bahia…

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Nova Rodoviária