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Trio elétrico é reconhecido como patrimônio cultural imaterial e histórico de Salvador

A invenção baiana que coloca milhões para dançar atrás de um caminhão agora entra oficialmente para a história do país

Publicado em 11 de março de 2026 às 06:00

Trio el´étric
Trio Elétrico Crédito: Reprodução TV Globo

Por meio da Lei nº 9.948, publicada no Diário Oficial do Município em 6 de março de 2026, o trio elétrico foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial e Histórico de Salvador. A iniciativa, além de representar um reconhecimento oficial, busca garantir medidas de preservação de um dos símbolos mais emblemáticos da cultura baiana.

Item indispensável nas folias carnavalescas, nas micaretas e nos mais diversos eventos massivos, a nossa “nave-mãe”, citando um de seus filhos, Durval Lélys, desfila e faz reverberar uma Bahia criativa, empreendedora, ícone da alegria e da diversidade sonora e musical, embora inúmeros desafios ainda caibam à condição humana por aqui, especialmente em sua capital.

Fruto da inventividade de dois amigos bem conhecidos, Dodô e Osmar, o trio elétrico atravessa gerações, da Fobica ao Navio Pirata, passando pelo fenômeno Tapajós e pelos lendários Tokajós, Marajós e Valnejós. Mais que um veículo sonoro, consolidou uma verdadeira escola formadora de músicos populares, com performances, repertórios e experimentações que ajudaram a moldar a música baiana.

Mais do que uma usina geradora de artistas, o trio elétrico segue nos ensinando. Talvez uma de suas lições seja esta. Embora consumamos música baiana e trios elétricos, muitas vezes desconhecemos a nossa própria história e a nossa vocação para as festas de rua, aquelas da “encruza”, que descruzam e esgarçam fronteiras estético-sonoras, derrubam territorialidades e ajudam a reconstruir outras tantas.

Sob a condução dessa nave maior do entretenimento, expressão da antropofagia tupinambá e momesca, fala-se muito de quem somos, nós, baianos.

Enquanto isso, anunciam-se reformas, arenas de eventos e espaços multiuso, quase sempre climatizados e voltados a públicos seletos. Em tantos refrões, poderíamos cantar a disposição do trio elétrico como veículo democrático da arte, da mística e da porralouquice que pulsa em suas bordas e laterais.

Uma boa “mainha” que deixou seus filhos e filhas experimentarem novas sonoridades e novas cartografias para o nosso modo de ser, viver e fazer.

Pegando carona nesses temas do pós-Carnaval, arrisco uma provocação cidadã. Por que não criar um Museu do Trio Elétrico? Um espaço onde as pessoas pudessem subir em um trio, experimentar a visão do alto e sentir a perspectiva de quem conduz a festa. Salvador já merece isso há muito tempo.

Outro museu dedicado à guitarra baiana? Um para preservar a história dos blocos afro e dos blocos de índio? A cultura baiana como componente curricular em todas as escolas?

Por que não?

O trio elétrico inaugura uma modernidade possível, a partir do corpo, da felicidade telúrica, do estrelato, das cifras musicais e também dos cifrões. Um movimento de fluxo e contrafluxo que traduz, em um instante intenso e coletivo, o que significa ser baiano e baiana.

Por que não?

Armando Castro é docente e pesquisador CECULT/UFRB