A corrida do caruru: ingredientes ficam mais caros, mas baianos não abrem mão da tradição

salvador
25.09.2020, 05:00:00
Atualizado: 25.09.2020, 10:00:05

A corrida do caruru: ingredientes ficam mais caros, mas baianos não abrem mão da tradição

Quiabo, que custava em média R$ 2,50/kg, foi encontrado por R$ 10/kg em bairro Tancredo Neves

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Chega o mês de setembro e vira aquele alvoroço na Bahia: onde será o caruru? Seja por promessa, religião ou puro hábito do baiano, a tradição não falta na mesa. Só que neste ano de pandemia, com o aumento dos preços dos principais alimentos da cesta básica e dos ingredientes, tem gente que não vai fazer o tradicional almoço na data que celebra os gêmeos São Cosme e Damião, no dia 27. Já outros não abrirão mão do banquete, mesmo que em quantidades menores. 

Foi o caso da historiadora Lenice Sousa, 50 anos, que até se adiantou e fez o caruru no último sábado. Normalmente, ela faz para um grupo de 50 a 100 pessoas, mas esse ano ficou só entre os mais chegados e a família - 12 ao todo. “Fiz um caruru pequeno porque estamos nesse período de pandemia. A gente precisa, nesse momento, de todas as bênçãos e proteções de guias espirituais, dos nossos santinhos e nossos anjos. E a gente busca agradar quem nos protege”, explicou Sousa, que usava uma corrente com cinco anjos da guarda. Apesar de não se lembrar exatamente os valores dos ingredientes, a historiadora estima que tudo “aumentou bastante” com a pandemia, em torno de 10 a 15%. 

A filha do auditor fiscal Sérgio Palma, 60, pediu para o pai levar os produtos na mala para garantir o caruru de setembro. Ela mora há três anos em São Paulo e adotou a tradição há cinco anos, não por motivos religiosos, mas para comemorar o aniversário. “É o presente dela, todo ano ela quer. Ela mora em São Paulo e sempre pede que a gente faça caruru, então a gente leva tudo porque lá não acha dendê de melhor qualidade, nem quiabo, amendoim ou castanha”, comenta Palma. Para não aglomerar na mesma casa, o auditor disse que vai distribuir em quentinhas para cada um comer na sua. “As amigas de minha filha já tão perguntando pelo caruru de Ana Cristina (esposa)”, narra. 

Os principais vilões são o quiabo - que já é de praxe ficar mais caro em setembro, por conta do aumento na demanda - o coco, o camarão seco, o amendoim, e o azeite de dendê, que está em falta no terreno baiano, como noticiado em agosto pelo CORREIO. Segundo dados da Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia (SDE) que monitora os preços do Ceasa, o quiabo, que custava entre R$ 40 e 50 na primeira semana de abril de 2020, aumentou para R$ 70 e 80 nesta última semana de setembro, considerando o saco de 25 quilos. 

A SDE explica que é normal esta variação e que houve uma queda na safra de quiabo no primeiro semestre em Sergipe, principal fornecedor da Bahia. “No primeiro semestre de 2020 houve queda na oferta de quiabo no Ceasa devido à quebra da safra. No mês de junho, o saco de 25 kg chegou a ser vendido a R$ 150. A subida no preço do quiabo é sazonal e foi percebida este ano, sobretudo, nos meses de abril (Semana Santa) e setembro (Caruru de Cosme e Damião)”, esclareceu a Secretaria, por meio de nota. 

Na feira de São Joaquim, a barraca de Pedro Barros, 57, salgou um pouco o preço do azeite de dendê, do amendoim torrado e do camarão defumado. O amendoim, que antes era R$ 6 o quilo, passou para R$ 10, o dendê subiu de R$ 3,50 para R$ 10 e o camarão de R$ 28 para R$ 40 o quilo. “O azeite disparou, mas a culpa não é da gente, é dos ‘grandão’, dos empresários, que faz a gente também ter que tirar dos nossos. O camarão eu até concordo, porque é muito trabalho defumar”, argumenta Barros. 

Por conta disso e pela pandemia, o pequeno agricultor Aristides dos Santos não fará caruru este mês, só quando o coronavírus for embora. Ele fez promessa há mais de 30 anos e só com caruru de mil quiabos. “Não vai fazer por causa da pandemia, que não pode juntar um bocado de gente. A gente faz todo ano, chama o povo lá mesmo da rua e vem quem quer, dá umas 50 pessoas. E tudo ficou mais caro”, relatou a esposa dele, Nilzete dos Santos, 55, cozinheira. 

No bairro de Tancredo Neves, onde moram, Nilzete disse que os mercados aumentaram o quilo do quiabo de R$ 2,60 para R$ 10, mais caro até do que o Hiper Ideal da Pituba, onde custa R$ 6,789/kg. O camarão seco, ates R$ 26, hoje está por R$ 38/kg. Já o dendê, eles não precisam se preocupar: “Tem um monte de pé de coco lá no sítio e a gente cozinha e faz o próprio azeite”, diz. 

Para não romper a tradição que carrega desde os cinco anos, a desinger e umbandista Camila Ferreira, 23, escolheu a dedo os produtos na Feira de São Joaquim para fazer o caruru deste final de semana. “No final dos meus quatro anos de idade tive um grave problema renal e minha mãe pediu com muita fé à São Cosme e Damião que eu pudesse sair do hospital e que com isso ela faria um caruru para eles no dia do meu aniversário. Desde então só tenho a agradecer e esse ano me organizei para comemorar agradecendo e oferendando à quem me ajudou”, explicou Ferreira. 

Veja no final desta matéria a lista de restaurantes que estão fazendo entregas de todas as guarnições do caruru.

Preço do quiabo (saco de 25 kg) - segundo Ceasa
2 de março 2020 - 40 a 50 reais / 1 de março 2019 - 20 a 30 reais 
1 de abril 2020 - 40 a 50 reais / 1 de abril 2019 - 20 a 25 reais
6 de maio 2020 - 60 reais / 2 de maio 2019 - 20 reais
1 junho 2020 - 70 a 80 reais / 3 de junho 2019 - 50 a 60 reais
1 julho 2020 - 130 a 140 reais / 3 de julho de 2019 - 80 a 90 reais 
3 de agosto - 100 a 120 reais / 1 de agosto de 2019 - 60 a 80 reais
2 de setembro - 60 a a 70 reais / 2 de setembro de 2019 - 75 a 80 reais 
23 de setembro - 70 a 80 reais / 23 de setembro de 2019 - 100 a 120 reais

Quiabo
Mercado Mix Bahia Pituba - 8,30/kg 
Mercado Mix Bahia Brotas - 5,48/kg
Mercado Hiper Ideal - R$ 6,98/kg
Mercado Big Bompreço Iguatemi - 7,00/kg
Feira da Sete Portas - R$ 5,00/kg

Dendê
Mercado Big Bompreço Iguatemi - R$5,29/500ml
Mercado Hiper Ideal Pituba - R$ 6,98/500ml
Mercado de bairro Tancredo Neves - R$ 10,00/1l

Amendoim 
L&D Empório Natural - R$ 23,00/kg
Superpão Master - R$ 24,00/kg
Bompreço Itaigara - R$ 17,98/kg
Mercado Hiper Ideal - 500 g por 7,99 (15,98/kg)

Camarão defumado
Sete Portas - R$ 50,00/kg
Hiper Ideal -  R$ 9,90/50 g (R$198,00/kg)
Feira de São Joaquim - R$ 40,00/kg

Coco Seco
Bompreço Itaigara - R$ 7,99/kg 
Mercado Hiper Ideal - R$ 3,83 (unidade) ou R$5,98/kg
Mix Bahia Brotas - R$ 3,95 (unidade)
Mix Bahia Pituba - R$ 4,39 (unidade)
Mercado Compre em Casa - R$ 4,48 (unidade)

*Sob orientação da subeditora Fernanda Varela

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas