‘A forma como tratam os advogados é bem cruel’, relata ex-advogada

bahia
26.06.2021, 05:15:00
Atualizado: 26.06.2021, 13:48:05
(Marina Silva/CORREIO)

‘A forma como tratam os advogados é bem cruel’, relata ex-advogada

Profissional narra rotina de pressão que fez ela e amigos largarem a advocacia

Laura* abandonou a advocacia aos 28 anos, com seis de formada e experiência em dois escritórios. Como ela, quatro amigas deixaram o setor. Uma delas virou blogueira. Outra saiu do país. Duas são concursadas públicas. Todas passaram “a detestar advogar”. "A gente se sentava para conversar e a pauta sempre era o escritório. Não era algo pontual alguém dizer que ia largar a advocacia. Eu nunca trabalhei num escritório que tivesse um lado mais humano", conta ela, que mudou de profissão. Ela narrou ao CORREIO como a rotina de trabalho de até 12 horas, a falta de perspectiva e a desilusão com o mercado a levaram a deixar a profissão.

"A forma como tratam os advogados é bem cruel"

Tinha dias que eu ia trabalhar com vontade de chorar. Percebia que alguma coisa não estava legal, e eu fazia de forma muito automática. Alguma coisa não batia. A gente brincava que a única luz do prédio acesa era nossa, de noite. Mas, se você dissesse que não queria, outra pessoa ia entrar no seu lugar. 

Largar a advocacia era uma coisa bem geral. Eu fiz outro curso, uma amiga virou blogueira, um colega foi morar fora, cada um foi buscando outras coisas. Todas passaram a detestar advogar. A gente se sentava para conversar e a pauta sempre era o escritório. Não era algo pontual alguém dizer que ia largar a advocacia. Não tinha esse cuidado de "vem cá, o que vocês estão precisando?". Eu nunca trabalhei num escritório que tivesse um lado mais humano.

No início, eu tinha bem essa visão folclorizada de que advogado ganha bem. Ok, ganha bem, se tiver seus contatos, talvez. Minhas amigas da faculdade, cinco, todas fizeram concurso, são concursadas, e só uma está na advocacia, mas também porque ela gosta mesmo e o padrasto era advogado. Mas todas viraram concursadas.

Eu fiquei nesse último escritório uns seis meses, mas comecei a me sentir desestimulada, tinham muitas amigas estudando para concurso, e sai. Parei e fui estudar para concurso, tive algumas aprovações, mas não entrava, e voltei a advogar, em 2016. Quando eu entrei, eu ganhava por produtividade. Era uma coisa insana, entrava cedo no escritório, e às vezes tinha que sair 22h. Tinha que bater meta nessa época, mas era essa coisa maluca. 

Na nossa profissão, se você quer crescer, não consegue. São muitos advogados que saem para o mercado todos os semestres. Não me sentia rendendo, nem produtiva, o trabalho não tinha relação com serviço de advogado, era uma coisa automática e bem robotizada. Eu não estudei para isso e fiquei bem desestimulada.

Nos outros meses, meu rendimento foi caindo porque era produtividade. Era uma cobrança muito forte. Eu terminava o trabalho, às vezes 15h, e avisava que ia embora, a coordenadora dizia que eu não poderia. Ficava me sentindo muito desestimulada e comecei a fazer um curso. Eu ia trabalhar e de noite, fazia o curso. 

Nunca falei disso para minha supervisora, porque ela deixava muito claro para todo mundo que se não conseguisse fazer o trabalho, que dissesse, porque outras pessoas fariam aquele trabalho. Voce não confronta porque sabe que pode ser desligada. 

A forma como tratam os advogados é bem cruel. Eu tinha 22 quando sai da faculdade, eu tinha 26 quando voltei, e sai do escritório 28 anos. Advogado tem que estar sempre bem-vestido. Gente, é uma coisa que não bate. Você tem que manter o decoro, a roupa, mas para isso a gente precisa ser remunerado de acordo. São advogados que moram com os pais e o dinheiro é para comprar roupa para ir para o trabalho.

Tem essa coisa do sempre estar bem-vestido. É claro, se você está numa audiência, você tem que estar bem-vestido, tem muito disso. Mas, esse glamour não corresponde ao que os advogados, a massa, recebem.

Quando eu saí, eu me senti aliviada, por não estar naquela pressão, mas também naquele medo: o que fazer? Me dediquei completamente ao curso que eu estava fazendo.

*Nome modificado a pedido da entrevistada.

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