'A gente não pode ser o paraíso dos negacionistas', diz secretária da Saúde da Bahia sobre Carnaval

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12.12.2021, 11:00:00
Tereza Paim é pediatra e está na Sesab desde 2018 (Paula Fróes/CORREIO)

'A gente não pode ser o paraíso dos negacionistas', diz secretária da Saúde da Bahia sobre Carnaval

Em entrevista ao CORREIO, Tereza Paim fez um balanço das ações de combate à pandemia

Em agosto, um dos principais órgãos do governo estadual - a Secretaria da Saúde da Bahia (Sesab) - passou a ser comandado por uma mulher pela primeira vez. A médica pediatra Tereza Paim, 56 anos, que já respondia pela subsecretaria da pasta desde 2019, assumiu a gestão em meio a turbulências: o ano mais mortífero da pandemia da covid-19 e a saída do antecessor, exonerado após um episódio de ofensas misóginas a uma chef de cozinha. 

Mas ela fala com tranquilidade do desafio. “Eu acredito sempre na comunicação e nesse poder do trabalho em conjunto”, diz, ao analisar o momento em que passou a ser chamada de secretária interina.

“Todos os técnicos, e falo isso sem nenhuma modéstia, se envolveram. Assumimos todos juntos essa pasta que é muito pesada e importante”, acrescenta.  

Após esses meses como interina, a nomeação de Tereza como titular ainda depende do governador Rui Costa. 

Médica formada pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), ela chegou à Sesab em 2018. Mas a passagem pela rede estadual de saúde era anterior a isso: ela já tinha trabalhado na maternidade Estadual José Maria de Magalhães Netto como coordenadora da neonatologia e como diretora técnica, além da maternidade Albert Sabin, onde ficou como diretora técnica até 2018. 

Em entrevista ao CORREIO, Tereza fez um balanço das ações de combate à pandemia e falou sobre assuntos como passaporte de vacina e imunização das crianças contra a covid-19, além da pressão para a realização do Carnaval em 2022. Confira os principais trechos da conversa:

Chegamos ao fim de mais um ano de pandemia com um cenário mais otimista, especialmente devido à vacinação, mas também imprevisível, com o surgimento da variante Ômicron. Qual foi o momento mais difícil desse período de quase dois anos de combate à pandemia? 

O começo é sempre mais difícil porque precisava de um planejamento. E a despeito de a gente já ter um espelhamento com outros países, porque a covid chegou primeiro lá na China e terminou exportando vários casos, aqui na Bahia começou em março. Um caso importado, de uma pessoa de Feira de Santana, que não teve maiores danos pessoais. Ela mesma se diagnosticou, procurou os serviços de saúde e nós acompanhamos. Dentro desse aspecto, já estávamos em planejamento. 

Os primeiros planejamentos tiveram um marcador, que foi o governador Rui Costa chamar todos os secretários e todo o apoio da governadoria em relação à Sesab. Então, todos a partir daquele momento estavam comprometidos com a saúde, em todos os aspectos. Desde a Siac (o setor de compras da pasta), que providenciou a compra de máscaras, como a Superintendência de Assistência Farmacêutica junto com a Secretaria de Planejamento, para que a gente pudesse aportar recursos e compra de insumos e o planejamento dos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Eram leitos especiais, que tivessem um investimento em tecnologia como respiradores, monitores. Isso partiu de um planejamento de dados habitacionais. 

Tivemos períodos bem críticos na primeira onda, depois na segunda. Chegamos à taxa de ocupação em torno de 90, 95% muitas vezes. Chegamos a ter 1,6 mil leitos só de UTI covid. Tivemos picos em relação aos óbitos também. Tivemos uma média de casos de covid-19 que se elevou, com um pico de quase 20 mil casos ativos e fomos insistentemente pleiteando a chegada da vacina.

A Bahia foi vigorosamente o primeiro estado a usar máscaras de tecido. A população acreditou e seguiu, e a gente teve esse contexto que trouxe uma repercussão. Teve o monitoramento e o planejamento a nível de instituições de longa permanência, que são os asilos, fossem eles habilitados ou não, clandestinos ou não. Montamos equipe e fizemos treinamento à distância dessas pessoas que eram cuidadoras. Por isso, nosso número de óbitos (nesses locais) foi muito reduzido. Além disso, fizemos cursos também à distância, especializando no cuidado à assistência respiratória, porque tinha UPAs que não tinham esse hábito de intubação. E também a atenção primária que são os agentes comunitários. A gente criou uma ficha para que eles, mesmo à distância, pudessem saber o que estava acontecendo na residência. Eles monitoravam e isso é vigilância. 

Para muitos especialistas, o incentivo ao uso de máscaras desde o começo foi um de nossos grandes acertos. Mas a senhora pensa da mesma forma? Qual acredita que tenha sido nosso maior acerto nas estratégias de combate? 

Eu acho que o maior acerto foi a gente realmente colocar, para as pessoas, as medidas de prevenção que não eram farmacológicas e a distribuição do acesso de entrada dos pacientes. Eram os famosos gripários e as UPAs que davam esse acolhimento inicial. E ser o mais preventivo possível. Na segunda onda, já preparamos uma linha de fisioterapeutas para estar dentro dos hospitais e fizemos internações clínicas precoces. Então, a gente não esperava o paciente ter indicação de UTI, mas internava nas enfermarias. Esses foram marcos que fizeram com que a Bahia fosse o segundo estado em menor mortalidade (o primeiro é o Maranhão). 

Claro que fizemos todo planejamento baseado na prevenção, principalmente em relação aos insumos, aos medicamentos que utilizávamos. Isso foi muito importante porque a gente não conseguiu garantir, do Ministério da Saúde, o envio desses medicamentos por completo. E outra medida muito assertiva foi a comunicação. O governador fazia reunião com os prefeitos e secretários municipais. Fizemos isso com todos os municípios por várias vezes para estimular, orientar, e fazer com que eles percebessem esse status epidemiológico. A gente tinha tecnologia de informação suficiente para que a comunicação fosse o mais atual possível. 

O número de leitos de UTI também foi importante. À medida que foi chegando a onda, fomos aumentando o número de leitos e, à medida que a gente foi diminuindo e saindo dessa curva, a gente conseguiu ir reduzindo. Isso funciona 24 horas.

E quais foram os principais erros? Que medidas vocês avaliam que não deveriam ter sido tomadas? 

Inicialmente, se pleitearam, no mundo todo, medidas farmacológicas preventivas. A gente até começou a se engajar, mas percebemos que essa não era a realidade. 

Não conseguimos comprar preventivamente a vacina porque essa era uma questão do planeta e só unidades federativas conseguiam fazer isso. Mas não foi por falta de iniciativa. A gente só conseguiu alcançar a vacina em 2021.

Existe uma pressão muito forte, por parte dos empresários do entretenimento e de setores ligados ao Carnaval, para a confirmação da festa em Salvador. Como secretária e como profissional de saúde, a senhora já comentou essa situação algumas vezes. Mas olhando para tudo que foi preciso fazer esse ano, a exemplo de expandir a rede de leitos clínicos e de UTI em tempo curto, como a senhora vê essa pressão pelo Carnaval?

As pessoas têm memória curta, isso é fato. Mas quem planeja, quem viu as ações, quem sempre discutiu em cima das ações baseadas em evidência científica não tem. A gente não vai promover, enquanto governo, qualquer ação favorável a qualquer festa que aglomere pessoas - principalmente o Carnaval, que aglomera pessoas de todo o planeta. 

A gente não pode ser o paraíso dos negacionistas. Aqui no país, as pessoas estão entrando sem nenhuma comprovação. Sem testagem, sem comprovação de passaporte (vacinal). A gente não vai simplesmente abrir para que as pessoas adoeçam de novo. Essa não é a estratégia

Nós já estamos tendo um leve aumento. O número de casos ativos foi passando de 1,5 mil, passamos de 2 mil, estamos em 2,9 mil. O número de novos casos estava em torno de 300, foi para 400, agora passa de 600. E o número de pedidos de UTI também tem tido um aumento. 

A gente está num momento de calmaria da intenção de vacinação. As pessoas não estão mais procurando os postos como procuravam antes. A gente sabe que a letalidade caiu, mas ainda é um estado de alerta. A morte pelo vírus da covid é evitável. Porque a não transmissibilidade não causa morte, porque a vacina não causa morte. Então, a gente não vai ceder a esse apelo. 

As pessoas nas ruas, as enquetes, os apelos são pelo ‘não Carnaval’. Todos os lugares que eu passo, até as pessoas que eu converso, toda fala é no sentido de ‘a gente não quer Carnaval’. Então, a gente tem que saber bem de onde está nascendo tudo isso e de que forma isso pode estar gerando algum agravo à saúde. A gente está aqui para trabalhar para mitigar os agravos à saúde. 

As festas que a gente não consegue evitar, que são privadas, estamos com esforços com a equipe da superintendência de vigilância à saúde, fiscalizando, o que a vigilância municipal está fazendo em relação à cobrança de passaporte. A gente vai chegar num momento agora de final de ano onde festas e férias se confundem e a gente tem pedido que os esforços da atenção primária não se esgotem, porque a gente precisa continuar vacinando. 

Muitos estados adotaram efetivamente um passaporte vacinal e a Bahia tomou medidas que exigem a comprovação da vacinação para ter acesso a alguns serviços. É possível tornar essa obrigatoriedade mais forte? O estado tem como fechar mais o cerco aos não vacinados, inclusive com penalidades, como países da Europa que têm estipulado multas para quem não se vacinou?

Quando começou a covid, as pessoas que andavam sem máscara, todo mundo também comentava com relação à cobrança e à multa. Essa não é uma característica do Brasil em vários outros sentidos e há uma fragilidade em relação a isso. Mas toda vez que você dá um bom exemplo, toda vez que tem uma fiscalização, as pessoas começam a se motivar. 

O decreto estadual vem pela cobrança do transporte intermunicipal, assim como com todos os servidores do estado e o fomento para que todos os prefeitos também façam isso dentro dos seus municípios. O decreto estadual é um guarda-chuva que vem e impulsiona os municípios a cumprirem dessa forma e até serem mais restritivos, não menos. Temos também estimulado as próprias empresas que prestam serviços ao estado que também façam a cobrança dos seus prestadores em relação aos seus certificados. Acompanhantes e visitantes de hospitais e serviços de saúde também necessitam da comprovação, hoje saiu o decreto. E temos estimulado em museus, teatros, cinemas, que isso também seja implementado. 

Vamos fazer algumas blitze de passaporte para que as pessoas fiquem atentas, já andem com ele no seu celular. É um aplicativo gratuito (Conecte SUS) e universal. Em qualquer lugar do mundo que você vá, você consegue ter acesso. Não existe a menor possibilidade de não cobrança dele nas nossas instituições e nós estamos montando em portos e aeroportos blitze e até postos de vacinação.

Estimulamos o município de Salvador a cumprir, com posto de vacinação e testagem dentro do aeroporto, e a gente percebeu o quanto as pessoas procuram. A procura foi grande. 

Existe um desafio grande com os faltosos da segunda dose e, agora, com os da terceira dose. Vocês têm algum tipo de levantamento que identifique as razões pelas quais tanta gente não voltou para completar o esquema vacinal? 

Até a segunda dose, é difícil ter  entendimento, porque está lá na caderneta. Basta que elas olhem e vai estar lá dizendo qual é a data que elas deveriam retornar. Para a dose de reforço, no geral, não ter o conhecimento, ou pouco conhecimento disso e não ter na caderneta é até um pouco justificado. Mas, de qualquer forma, temos a mídia, toda a parte televisiva, de rádio, de cartaz, de informes, todas as estratégias que a gente faz. Tem alguns municípios até com o vacimóvel, como eles chamam, fazendo a busca ativa da população. 

A gente acha que tem muito negacionismo sim. É muito difícil quando você tem um modelo negacionista que é o detentor da gestão maior, vamos dizer assim. Mas eu te digo que, em todos os lugares que a gente percorre, o governador tem ido em dois municípios, pelo menos, por dia, seja nas inaugurações, seja nas novas obras que se iniciam, conversado com a  população e seus gestores e cobrado isso. Não estamos no topo da vacinação, infelizmente. Somos um estado intermediário e precisamos avançar. A gente pede bastante o compromisso dos municípios para que a gente tenha esse alcance. A gente só estaria mais tranquilo se pelo menos 80% da população geral estivesse vacinada. 

Nós fizemos estratégias como 'Partiu Testagem' nas escolas, onde recebemos de muitos pais a autorização para vacinação dos estudantes maiores de 12 anos. A vacina da Pfizer realmente dá uma reação, mas todo mundo sabe da qualificação da vacina. A vacina é um produto milenar, não existe a menor possibilidade de não ter efeito, baseado no quanto de estratégia já foi feito. É difícil a gente entender porque as pessoas não procuram se a gente está tentando chegar a essas pessoas. 

Já ouvimos de alguns pesquisadores que nós pecamos um pouco, de forma geral, na falta de acompanhamento de efeitos adversos e que isso poderia afastar algumas pessoas da segunda dose. Em outros países, como Canadá e os da União Europeia, é comum inclusive orientar os vacinados a permanecerem no local por alguns minutos para acompanhar alguma reação. É possível fazer algum tipo de orientação aqui?

Esse efeito educativo é válido, com certeza. Ele não foi uma estratégia usada, na sua grande maioria, na Bahia ou no Brasil, porque não existiu, inclusive, essa orientação determinante do Ministério da Saúde. Mas não sei se é só isso, se é apenas isso. 

Claro que nossa grande parcela da população trabalha naquele dia para subsistir naquele dia. Então, a falta ao trabalho por um efeito colateral faz com que ela possa até ter esse pensamento. Mas é uma doença que mata e contamina outras pessoas. 

A senhora assumiu o comando da Sesab em meio a uma crise que levou à saída do secretário anterior (Fábio Vilas Boas, exonerado após ofensas à chef Angeluci Figueiredo), mas também no ano mais mortífero da covid-19. Pode falar um pouco sobre o momento em que teve que assumir uma das secretarias mais complexas no período mais desafiador? 

Na verdade, acho que o primordial é a comunicação e o trabalho em equipe. A gente já tinha isso aqui na secretaria desde sempre. Eu cheguei em 2018, em 2019 assumi a subsecretaria, e nós tínhamos aqui uma forma de comunicação muito presente, portanto um envolvimento grande em todos os eixos de trabalho da própria secretaria. Claro que é uma tormenta, e com a covid,  isso se tornou muito mais centralizado na subsecretária que se tornou de um dia para o outro uma secretária interina. Mas eu acredito sempre na comunicação e nesse poder de trabalho em conjunto. Todos os técnicos, e falo isso sem nenhuma modéstia, se envolveram, e assumimos todos juntos essa pasta que é muito pesada e importante para o governo do estado. 

Temos acompanhado com expectativa a vacinação de crianças em outros países, enquanto aguardamos a definição da Anvisa para a autorização da Pfizer, que já solicitou, e da Coronavac, cujo novo pedido ainda não foi feito. Como pediatra e neonatologista, como a vacinação de crianças pode ajudar no controle da pandemia no Brasil e na Bahia? 

Os estudos e as ciências têm passos um pouco mais lentos do que a gente vê hoje em Whatsapp, Instagram, nas tecnologias de informação. Mas a gente tem evidência científica para vacinas, a gente já está vendo o mundo se mobilizando para isso. Mesmo que exista o que mais a gente preza, principalmente no SUS, que é a equidade, que existem pessoas adultas que ainda não receberam nem a primeira dose, os estudos que avançaram mostram que, a partir de 5 anos, a vacina é segura. 

A gente pleiteia isso e a gente espera. A indústria farmacêutica já apresentou pra Anvisa toda a parte documental desde 18 de novembro e a gente espera uma resposta oficial da Anvisa em relação a isso. Mais uma vez, esperamos que o ente federativo se pronuncie minimamente com diretrizes. Esperamos porque estamos numa época em que as viroses aumentam, uma época em que as crianças retornaram para as escolas e isso fez com que toda a confluência de outras viroses que entram também como características e elas se confundem.

A gente sabe que crianças têm menores repercussões, principalmente na mortalidade, mas elas adoecem e contaminam outras pessoas. Então, a gente espera de uma vez por todas que o Ministério da Saúde se pronuncie e nos dê diretrizes que sejam boas para toda a população, que a gente está querendo mitigar os efeitos. Lembrando que justamente pela não vacinação de toda a população mundial, nós temos novas cepas entrando no mundo e isso não vai parar

Muitos profissionais de saúde viveram a angústia e o medo de levar o vírus para casa. Como foi para a senhora?

Veio sim, o medo, alguns declínios, mas a gente percebeu que as pessoas puderam ser cuidadas. Isso quer dizer que pessoas realmente se vocacionaram para aquilo que elas juraram na formação, quando você conclui um curso. Isso que a gente viu, isso que a gente valoriza. Essa curva de aprendizado é muito importante. Ela deixa o que a gente mais tenta praticar que é empatia. Essa é a marca da saúde. Se a gente é o segundo menor estado em mortalidade, é por um esforço muito grande de todos os profissionais de saúde, desde a ponta. O medo da doença em si, de levar a doença para outros, tudo fez parte.

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