A herança que um sonho traz

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21.01.2021, 05:43:00

A herança que um sonho traz


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Todo lirismo e poesia que um sonho possa trazer não nos exime da reflexão sobre nossas condutas na vida e sobre o que desejamos para nossa família e sociedade.

Aconteceu comigo um sonho tardio de Natal. Nele, entre os presentes destinados à família, os meus estavam em duas caixas vazias.

Acordei com a sensação de que meu presente veio na forma da tão importante “falta”, como condição da existência humana – a que constrói a dignidade ao engendrar a ação.

Esse simbolismo no sonho transformou-se em reflexão acerca do atual debate sobre tributação de heranças.

Minhas filhas são as maiores preciosidades que minha esposa e eu possuímos. A elas desejo uma vida de plenitude – realizações resultantes, também, da “falta” dignificante, que nos move para construir e sermos artífices de um legado para um país mais justo. Do sonho, me veio essa questão: como dar tudo às minhas filhas, inclusive a falta? Resposta: realizando.

Para a discussão sobre o imposto, para além da mera taxação, devemos entender herança não só como legado material eternizado por gerações, mas como “herança da herança” – recursos financeiros advindos dos impostos aplicados em empreendimentos, projetos e conquistas em diversas camadas da sociedade. Um entendimento de que quem gera a herança também gera desenvolvimento.

Para fazer diferença, deve-se observar a experiência de países liberais. Segundo relatório de 2015 da Tax Fundation, o Japão taxa as heranças em 55%; a Coreia do Sul, em 50%; a França, em 45%; Estados Unidos e Reino Unido, em 40%; a Alemanha, em 30%. Aqui praticamos taxas que variam entre 2 e 8%.

Dada nossa arquitetura tributária, uma taxação como a do Japão poderia espantar geradores de investimento. Mas podemos supor que um imposto próximo ao da Alemanha poderia induzir um avanço na busca por algo mais justo. Uma alíquota de dois dígitos pode ter o efeito saneador de gerar ganhos mais abrangentes, fazendo com que herdeiros busquem suas faltas e os não-herdeiros acessem patamares mais civilizados de bem-estar.


Portanto, o correto é buscar o equilíbrio saudável para nossa realidade, dentro das regras liberais. Falando por mim, se me tiram o direito a deixar uma herança, me tiram também o sentido de contrair risco, de poupar e me esforçar diariamente para gerar riqueza.

Tal mudança virá do entendimento de que uma herança necessariamente deve incluir a ideia de busca de objetivos nobres, que favoreça a justa meritocracia, destacando os que perseveraram a partir de condições mesmo que diferentes.

Do contrário, perpetuam-se as lacunas geradoras da falta traduzida em precariedade. Se acertarmos a justa proporção, os que são vítimas da falsa sensação de serem completos apenas por herança, sem ter por que lutar, poderão ter sonhos.

Frank Geyer Abubakir é controlador e presidente do Conselho de Administração da petroquímica Unipar

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