A morte do escritor baiano

gil vicente tavares
13.09.2021, 05:04:00
Atualizado: 13.09.2021, 17:18:49

A morte do escritor baiano

Em Admirável Mundo Novo, 1984 e Fahrenheit 451, Huxley, Orwell e Bradbury criam livros distópicos. O primeiro em meio às ascensões ditatoriais que vinham assolando o mundo, os outros dois já sob impacto dos escombros da Segunda Guerra Mundial. Os três imaginando futuros autocráticos, controladores e rígidos. Seu maior alvo, evidente a cada poucas páginas? O livro.

O curioso é que fazem questão de sempre citar livros de ficção como o pior mal para aquelas sociedades. Eles sabiam do poder da arte e da literatura como transformadores e revolucionários. Na inutilidade aparente de ambas se encontram a força da transgressão, do sonho, da cultura, do grotesco e do sublime. Há um mergulho nas profundezas da alma, há uma flutuação nas belezas do mundo, há uma capacidade de sonhar e ver as coisas sob lentes especiais que só a arte e a literatura conseguem provocar.

Nos três livros são proibidos. No romance de Bradbury – o que mais me agrada, dos três –, o personagem é um bombeiro que, em vez de apagar incêndios, provoca-os ao primeiro sinal de que alguma residência possua livros em seu interior.

Hitler mandou queimar livros. A Biblioteca de Alexandria pegou fogo. Mas incêndios, censura, repressão não acabam com os livros porque existe o escritor. Sim. Pode-se queimar todos os livros do mundo e haverá sempre uma escritora ou escritor para novamente escrevê-los.

Antônio Torres acaba de lançar um novo romance, Querida Cidade. A notícia sobre o lançamento do autor “imortal” baiano pouco, ou quase nada, repercutiu nas redes sociais e na mídia. Conversei com ele faz pouco tempo, por conta de um texto que escrevi sobre As Velhas, de Adonias Filho. Esse romance, para mim um dos grandes que já li de todo o mundo, me surpreendeu sobremaneira, mesmo depois do impacto que já havia experimentado lendo Corpo Vivo e Luanda, Beira, Bahia. Pois Antônio Torres leu meu texto, comentou em minha postagem, e tive o prazer de trocar algumas palavras em privado com ele.

Ao comentar sobre minha revolta em não louvarem a obra de um dos maiores escritores da humanidade, Torres retrucou que João Ubaldo já estava sendo esquecido, quanto mais Adonias.

Embalado por uma conversa sobre o Prêmio Jabuti, onde acabei descobrindo muitos autores baianos agraciados, resolvi correr atrás do prejuízo lendo Herberto Sales, Antônio Torres, mais João Ubaldo (O Albatroz Azul, por recomendação de Torres), e guardei espaço para Sonia Coutinho, a única, por sinal, ou das pouquíssimas pessoas a ganhar o Jabuti como contista, num ano, e romancista, em outro.

A literatura baiana não deve nada a nenhuma literatura de qualquer lugar. Nós é que temos uma dívida gigante com ela. Nós, instituições públicas que não prezam nem fortalecem nossa memória, e nós, leitores, que, com a pose soberba de desbravadores leitores seletivos, lemos o que a moda nos empurra e aplaudimos meio cegos o que nos cai no colo.

É louvável que haja todo o entusiasmo com o autor de Torto Arado, Itamar Vieira Junior. Em meio às trevas atuais, vermos um autor baiano ser alçado a celebridade é uma alegria no caos. Mas não vejo ao meu redor ninguém interessado em perscrutar a literatura baiana, a partir do entusiasmo com o sucesso de Itamar. Boa ou má, empacamos na moda.

Queimar livros é um crime. Matar quem os escreve é bem pior. Mesmo que simbolicamente.

É preciso conhecer a nossa história para que saibamos quem somos e, assim, buscarmos da melhor forma um propósito, uma inspiração e um rumo neste país.

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