A paisagem noturna de João Machado

colunistas
09.04.2018, 06:08:00

A paisagem noturna de João Machado


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Na Caixa Cultural Salvador, na Rua Carlos Gomes,  a exposição O Sertão de João Machado, com curadoria de Mônica Maia, ficando em cartaz até 13 de maio. Nascido em Xique-Xique, na Bahia, em 1969, deixou sua terra natal aos 19 anos em busca de trabalho na cidade de São Paulo. Trabalhou na construção civil, como ajudante de pedreiro, quando comprou a primeira câmera fotográfica de um colega de trabalho. Começou a fotografar em 1993. A curiosidade, determinação e persistência o transformaram no fotógrafo João Machado. Autodidata.

Com o pai feirante, Machado que o ajudava, estava totalmente envolvido com a atmosfera das feiras livres, da cultura popular e suas retinas fixavam o entorno. Estava guardada em sua memória que se revela agora nesta exposição, o céu estrelado, a terra de chão batido, a poeira amarelada, os romeiros, os carroceiros, caminhoneiros, o interior das casas simples. Imprimiu imagens das mulheres no cuidado com suas casas, lavando roupas, fazendo café com coador de pano, o mosquiteiro que protege as pessoas de insetos, retratos nas paredes, bares, um vestido de noiva na fachada de uma casa de pau a pique. Bois passam lentamente pelas estradas, jogo de bola, procissões, rezas, o rosto marcado pelo sol dos romeiros. As imagens foram realizadas nas cidades de Xique-Xique e Bom Jesus da Lapa. São 35 fotos impressas nos tamanhos 60x90 cm e 30x45 cm, um recorte do trabalho desenvolvido nos últimos 15 anos.

Começou fotografando batizados, casamentos, aniversários. Sempre na memória os locais de sua infância e adolescência, resolveu então em 2002 retornar, em busca do romeiro, que era a sua referência máxima. Nunca mais voltou ao Sul, insistia em entender a essência do romeiro, seja no ato de pagar promessas, como em todo seu entorno: os acampamentos, os paus de arara, os banhos no Rio São Francisco, o cotidiano. No período da Quaresma entre a quarta-feira de cinzas e a sexta da paixão, alguns fiéis realizam o ato da penitência. Essas realidades foram documentadas por João Machado com imenso interesse e cuidado.

A grande maioria das fotos é noturna, quando os efeitos de luz e sombra se acentuam, criando resultados mágicos de forte impacto. Muitas fotos em contraluz, a cena de interesse fica entre a câmera e a fonte de luz, fazendo com que a iluminação fique na parte de trás e não na frente, como é usual. Assim, aparecem marcadas silhuetas de animais, e apenas uma borda de luz, define o cenário. Mistérios e luzes fazem o envultamento. De volta ao Sertão, João Machado, decidiu ficar para nos envolver com sua sensibilidade e maestria.



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