A paz como tarefa

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29.11.2021, 05:00:00

A paz como tarefa

A realidade da violência tem figurado de modo assustador e preocupante nos noticiários, exigindo reflexão sobre suas causas e a busca urgente de soluções efetivas. Não podemos achar normal que a violência passe a integrar o cenário de nossas ruas e casas, especialmente das periferias urbanas. O clamor pela paz brota especialmente das periferias sofridas das grandes cidades, de zonas marcadas pela violência e criminalidade. As vítimas da violência não podem ser reduzidas a números e estatísticas. São pessoas que tiveram sua dignidade violada e sua vida ceifada. Junto delas, há pessoas e famílias dilaceradas pelo sofrimento, clamando por justiça e paz. Não podemos perder a capacidade de dizer “não” à violência, nas suas variadas formas e de promover a paz, nos seus diversos níveis, a começar dos relacionamentos pessoais.

A complexidade do problema não pode levar a soluções equivocadas de cunho emocional, pois elas tendem a agravar a situação Análises simplistas e reações puramente emocionais não resolvem. O ódio, a vingança e o fazer justiça pelas próprias mãos não são respostas; ao contrário, agravam ainda mais a realidade da violência. A busca da justiça que conduz à paz não se faz através da violência. É preciso pensar sobre o seu significado e as suas causas para encontrar saídas condizentes com a dignidade humana. 

A construção da paz é tarefa coletiva. Necessita da atenção e dos esforços de todos. Os poderes públicos desempenham papel fundamental promovendo a segurança pública, o combate à impunidade e a justiça social. Mas, há muito a ser feito por cada um, espontaneamente, nos diversos ambientes em que se vive, superando a agressividade nas redes sociais, no ambiente familiar ou nas ruas.

“Existe uma ‘arquitetura’ da paz, na qual intervêm as várias instituições da sociedade, cada uma dentro de sua competência, mas há também um ‘artesanato’ da paz, que envolve a todos”. Assim se expressa o Papa Francisco na encíclica Fratelli tutti, ressaltando o papel fundamental de cada um para na construção da paz. A bela encíclica social se conclui com um apelo à paz e à fraternidade, num mundo marcado por tanta violência e divisões, que a todos, de algum modo, faz sofrer, mas que atinge especialmente os mais pobres e vulneráveis.

Somos todos responsáveis pela paz. É preciso fazer acontecer um mutirão permanente pela construção da paz, que inclui desde os gestos pequenos do cotidiano até as grandes decisões políticas em favor da vida, da justiça social e da segurança pública. Os cristãos e todas as pessoas de boa vontade devem fazer a sua parte, empenhando-se com renovado compromisso nesta tarefa permanente, contribuindo não apenas de modo pessoal e espontâneo, mas também de maneira comunitária. Não podemos jamais desistir da tarefa de construir a paz, alicerçada sobre a justiça e o perdão, conduzidos sempre pelo Deus da paz.   

*Dom Sergio da Rocha é cardeal e arcebispo de Salvador

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