A polêmica do Bahia no Twitter: ser retado ou não é a questão?

ivan dias marques
05.08.2019, 18:58:00
Atualizado: 05.08.2019, 20:02:42

A polêmica do Bahia no Twitter: ser retado ou não é a questão?


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Logo após a vitória sobre o Flamengo, o Bahia publicou em sua conta oficial no Twitter uma foto de Gilberto com um chapéu típico nordestino junto com a frase ‘Nordestino retado torce para time do seu estado’ e afirmando o orgulho de ser nordestino e baiano. Estava criada a celeuma.

As alegações principais dos críticos ao post se deve que o tricolor, por tabela, disse que aqueles nordestinos que não torcem para times de seus estados não são retados, são menores, e que um clube que vem dando exemplo com políticas inclusivas realizou um post sectário e desagregador.

Não vejo nenhuma das duas teses. O post do Bahia reforça o sentimento do seu torcedor, um sentimento de resistência a uma força que sempre foi maior na tentativa de conquistá-lo, sobretudo no interior do Nordeste.

Nas décadas de 80 e 90, nem Bahia e nem Vitória eram transmitidos para o interior baiano. A TV Bahia, por exemplo, ainda aumentava seu alcance, hoje em todo o estado. Assim, a maioria dos moradores com acesso à televisão o fazia por antena parabólica ou pelo rádio. E, acredite, o som das emissoras de fora era mais forte.

Assim, com a oferta maior de Flamengo, Vasco, etc. e os títulos conquistados, é inegável que havia uma tendência desses clubes serem ‘escolhidos’. Para tudo há uma explicação, inclusive, a paixão. 

Não podemos tratar que há liberdade de escolha quando não há igualdade na oferta. Se for colocado para uma pessoa escolher entre o Flamengo de Gabigol, Gerson, Arrascaeta, Filipe Luís, etc. e o CSA de Didira, Dawhan, Maranhão, Nilton e Apodi, qual será a opção óbvia?

Assim, escolher o CSA é resistir. É resistir a décadas de opressão, de sofrimento, de momentos de pindaíba, em que o clube do coração esteve próximo de falir. Escolher o Bahia, o Vitória, o Sport é saber que a possibilidade de sofrer contra um clube que ostenta cotas de TV quatro, cinco vezes superior é bem maior do que a probabilidade de ser feliz.

Também não dá para entender o post do Bahia sem correlacionar com a história do povo nordestino, alvo de preconceito regional, social, econômico, político e até físico. Na dividida, na hora que a discussão se acalorar, o Bahia e o Vitória serão times de macumbeiro, seremos paraíbas e cabeça-chatas.

Muitos torcedores tricolores olharam o lance em que Rafinha dá uma entrada criminosa em Moisés, no início da partida de domingo, e pensaram: “se fosse contra o  Bahia, o juiz expulsava”. Pois é, esse pensamento está lá dentro do post também.

Fazendo uma analogia, ainda que não seja meu lugar de fala, o Bahia foi o negro vestindo aquela camisa ‘100% Negro’. Dentro dessa frase, está toda a luta e o sofrimento que o povo negro passou na história do Brasil. É uma questão de afirmação, de resistência.

Talvez, se os orçamentos fossem semelhantes, o Vitória não estivesse na Série B em 2019. Teria mais grana para investir e o Flamengo, vejam só, jogaria duas vezes em Salvador. 

E ao torcedor nordestino dos times de fora, que se sentiu atingido pelo post, nunca esqueça: na dividida, ele será tratado como ‘menor’ por alguns dos torcedores da mesma equipe. Tudo porque nasceu na terra de Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Humberto Teixeira e tantos outros. Somos e sempre seremos resistência.

Ivan Dias Marques é subeditor de Esporte

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