A vida e a vida do Centro Histórico

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06.02.2018, 01:30:00

A vida e a vida do Centro Histórico

Waldeck Ornélas é especialista em planejamento urbano-regional e ex-secretário da Bahia

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Dois importantes acontecimentos, em um mesmo dia, atestam a vitalidade e o dinamismo do Centro Histórico de Salvador: a inauguração da Casa do Carnaval e a reabertura da Igreja do Passo. Vêm se juntar à intensa e vibrante programação do Pelourinho Dia e Noite que anima de forma diferenciada a vida cultural dessa icônica região da nossa cidade.

A Casa do Carnaval ocupa, majestosa, o prédio recém-recuperado ao lado do Plano Inclinado Gonçalves e dá nova dimensão a todo o conjunto da Praça da Sé. Era algo que Salvador se devia. Nos anos noventa, quando não existiam os recursos tecnológicos de hoje, instalamos uma pequena Casa da Música no Parque do Abaeté, local que recebeu então a guarda da “fobica” de Dodô e Osmar, o veículo do primeiro trio elétrico. Agora, com toda uma roupagem 4.0, a moderna Casa do Carnaval vem preencher uma lacuna e ocupar espaço privilegiado no nosso Centro Histórico.

A Igreja do Passo – cujas escadarias se tornaram famosas pela locação do filme O Pagador de Promessas (1962), que marcou época por haver conquistado a Palma de Ouro do Festival de Cannes – integra o imponente e rico conjunto de edifícios de arquitetura religiosa que formam o acervo do nosso patrimônio e é reinaugurada, inteiramente restaurada, depois de fechada por 16 anos, face ao mau estado de conservação e risco de desabamento. As famosas escadarias, com a mesma largura da fachada da igreja, interligam as estreitas ruas do Passo e do Carmo, dando visibilidade ao imóvel, numa engenhosa solução que o urbanismo atual, submetido ao automóvel, já não se mostra capaz de criar.

O Pelourinho Dia e Noite é o programa de atividades que dinamiza a vida cultural da área, com iniciativas tão marcantes quanto diversas, abrangendo do Viradão do Samba ao Polo de Orquestras, do Domingo Gastronômico à Maratona Clic, do Cinema na Praça ao Circuito Jorge Amado, da República dos Tambores aos Caminhos da Fé, fruto do trabalho da Diretoria de Gestão do Centro Histórico, um órgão recente na estrutura da prefeitura.

Todas as grandes cidades do mundo dispõem de uma área em que concentram as suas atividades turísticas, para atrair os visitantes. Aqui, essa área é o Centro Histórico, que reúne o expressivo patrimônio arquitetônico, artístico e cultural herdado dos portugueses, agrega os principais equipamentos turísticos e culturais e começa a congregar importantes bandeiras da hotelaria, além de restaurantes e bares. Reinserido na dinâmica cotidiana da cidade, os soteropolitanos precisam incorporar essas benesses que os turistas já usufruem.

Nosso Centro Histórico apresenta ainda a peculiaridade de permear as Cidades Alta e Baixa, como um contínuo que se pode percorrer a pé, na medida em que o patamar que as separa é vencido por diversos ascensores públicos de uso coletivo, um interessante modal de transporte urbano.

No novo PDDU, fruto do Salvador 500, o Centro Histórico foi resgatado como centralidade de primeiro nível e teve realçado o seu papel. No programa Salvador 360,  o Centro Histórico é, dos oito eixos, o único territorializado, dando a exata dimensão da importância e destaque que a área ganhou no projeto de desenvolvimento da cidade.

Salvador tem o privilégio de contar com um Centro Histórico tão vasto quanto diversificado, possibilitando inúmeras alternativas de ocupação e uso. Espera-se que a reativação da economia nacional possa agregar a presença e a participação ativa da iniciativa privada, especialmente dos seus segmentos imobiliário, de construção civil, de lazer e entretenimento, de cultura e tecnologia, de comércio e serviços, para participarem do intenso e cuidadoso trabalho que o Município vem realizando, inclusive com o Revitalizar, um estratégico programa de incentivos.

Recuperado no início dos anos noventa e depois abandonado, o Centro Histórico voltou novamente a viver. Espero que desta vez para sempre.


Waldeck Ornélas é especialista em planejamento urbano-regional e ex-secretário do Planejamento, Ciência e Tecnologia da Bahia

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