A volta às aulas presenciais será obrigatória ou opcional?

flavia azevedo
09.08.2020, 11:08:00

A volta às aulas presenciais será obrigatória ou opcional?

Você já deve ter visto, na internet, alguns modelos de documentos que devem ser assinados por pais e mães, antes do retorno dos alunos às aulas presenciais

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Mais cedo ou mais tarde, vai acabar acontecendo por aqui também. Com certeza, bem antes da vacina ou de qualquer outra situação que garanta a segurança dos nossos filhos e de toda a comunidade escolar. Escolas já começam a ser reabertas, em diferentes estados do Brasil. Sabemos que haverá surtos provocados por essa atitude tão precoce quanto irresponsável. Eles - os que insistem em reabrir - também sabem. Tanto sabem que, em alguns estados, transferem para as famílias a responsabilidade sobre a provável contaminação de crianças e adolescentes. Você já deve ter visto, na internet, alguns modelos de documentos (absurdos, em minha opinião) que devem ser assinados por pais e mães, antes do retorno dos alunos às aulas presenciais.

 

A pressão é imensa. Empresários da educação batem seus pezinhos há meses, cobrando a reabertura para que possam tentar salvar o setor. Por outro lado, com a volta do comércio, também há a pressão pela retomada das instituições da rede pública onde devem ser depositados os filhos das mulheres que precisam passar seus dias trabalhando fora de casa. Essa não é a função da escola, mas estes casos eu nem consigo julgar. Mães solo estão enlouquecidas desde março, mandando para creches clandestinas, casa de vizinho e o escambau, as crianças que precisam cuidar e sustentar sem qualquer ajuda. Isso porque, até nos casos onde havia alguma participação financeira, o que mais genitor fez, nos últimos meses, foi cortar ou diminuir pensão "por conta da pandemia". Feliz dia dos pais pra quem, aliás? Me poupe.

 

(Com esse tema, não vou nem gastar letrinhas. Você sabe que pode contar nos dedos os homens que exercem paternidade responsável.)

 

(Inclusive, no tema "escolas e pandemia" quantos deles debatem, procuram saber ou emitem qualquer opinião?)

 

(À minoria composta por pais "participativos", "desconstruídos" ou "em desconstrução", o meu mais sonoro "não faz mais do que a sua obrigação".)

 

Mas sigamos com nosso assunto. Importa que as escolas vão reabrir e agora a única pergunta que me interessa é: a presença física dos alunos será obrigatória ou opcional? Em tempos de guerra, como o que vivemos, é óbvio que, mesmo que a presença seja obrigatória, dificilmente uma mãe será condenada por "abandono intelectual" (crime tipificado no artigo 246 do Código Penal que ocorre quando o pai, mãe ou responsável deixa de garantir a educação primária ao filho) caso não permita que sua criança ou seu adolescente frequente o prédio escolar. Outro ponto é que a reprovação por falta em um ano como 2020, poderá facilmente ser revertida - imagino eu - com um simples processo judicial. Só que nada disso garante que esse retorno não seja luta também, fia. Se ligue nas esquinas e prepare suas armas.


Na rede particular: a motivação da pressão pelo retorno é predominantemente financeira, claro. A conta deles não tá fechando. Com a volta às aulas presenciais, poderão retomar a cobrança do valor integral das mensalidades. O bom senso (e a dignidade) ordena que cada família possa optar entre voltar a frequentar os prédios ou manter os alunos em ensino à distância. Muitas das escolas prometem isso só que... você já imaginou quanto vai custar? Primeiro que as familias que se mantiverem em casa, evidentemente, deverão continuar pagando as mensalidades com desconto e isso vai atrapalhar os lucros. Depois, vai ser necessário montar todo um esquema de transmissão das aulas presenciais para as crianças e adolescentes que assistirão de casa. Isso significa investir em equipamento (ou vão continuar demandando que professores permaneçam fazendo isso com seus celulares?) e internet decente (não vai dar mais pra cair no meio da aula), pelo menos. Algo me diz que o setor que mais reclamou do fechamento não será tão colaborativo no "novo normal". Prevejo tretas. Prepare-se.


Na rede pública: na Bahia, há cautela e ainda não foi divulgada uma data. Que bom, mas vamos falar da situação histórica e maus exemplos de outros lugares. Por todo o contexto que conhecemos, não estar presente, fisicamente, nas escolas, significa evasão, para a grande maioria dos alunos da rede. E evasão - até por questões de repasses de verbas - não é algo desejado por nenhum município ou estado. Por outro lado, o esquema à distância não funcionou, no geral. Então, na hora que disserem "é pra retomar presencial", imagino que seja difícil que se ofereça alternativa. Sem poder de barganha (quem não paga, não manda) e poder aquisitivo mais baixo (difícil pagar advogado) as famílias que têm filhos na rede pública poderão ser facilmente criminalizadas, caso não aceitem o retorno presencial. Terão que aceitar, na grande maioria, inclusive assinando termos de responsabilidade (incompreensíveis para boa parte) e assumindo os riscos de mandarem sua prole para o abate. Resta desejar que sigamos, também nesse aspecto, com a crise bem administrada.


 "Você devia falar sobre os riscos dos professores", já escutei algumas vezes. Desculpa, mas são os professores que precisam falar por si, dizer o que acham. Na Bahia, só vi um card de sindicato se colocando contra a reabertura e raríssimas vozes na imprensa. Fora isso, conversas informais de educadores que me pedem segredo e seguem se diluindo na paisagem. Medo de perder emprego? Todos temos, claro. Mas no Rio a união fez a força, né? Barraram a reabertura precoce das particulares. E a situação do mercado não é melhor por lá. Professores serão, sim, os maiores vetores de contaminação e, possivelmente, os mais prejudicados já que não poderão sequer cogitar a opção de ficar em casa. É característica do trabalho a circulação entre muitas turmas, o contato com centenas de alunos, todos os dias. E agora, José? Será que chegam junto com as famílias e gestores cautelosos decidindo, finalmente, se posicionar? Precisamos seguir juntos. Coragem, pessoal!

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