Acumuladores: conheça histórias de quem guarda tanta coisa que precisa até sair de casa em Salvador

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05.02.2017, 06:00:00
Atualizado: 05.02.2017, 09:55:19

Acumuladores: conheça histórias de quem guarda tanta coisa que precisa até sair de casa em Salvador

Há pelo menos 23 acumuladores acompanhados pela prefeitura de Salvador. Mas eles podem ser muito mais: estudos indicam que de 3% a 5% da população pode ter Transtorno de Acumulação

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A casa onde seu José Rocha dos Santos, 63 anos, viveu por quase três décadas, na Rua Itaparica, em Paripe, está vazia hoje. Não podia ser mais irônico: por pelo menos dez anos, ele acumulou materiais suficientes para encher 13 caminhões da Limpurb a ponto de não conseguir mais viver ali. O imóvel, depois de anos de maus tratos, foi condenado pela Defesa Civil, há duas semanas – quando a prefeitura passou sete dias para retirar 15 toneladas de coisas sem utilidade da casa. 

Seu José volta para casa todos os dias com coisas que encontra por onde anda. O que as pessoas descartam serve para ele. O lixo despejado por lojas e supermercados, para ele, é tudo, menos lixo. Por isso, lotou uma casa de dois quartos e a laje de materiais que não servem mais para ninguém. Para os vizinhos, aquilo era um desespero. Muitos dizem que, da casa de José, saiam e entravam ratos, escorpiões e tinha “até ninho de cobra”. 

Isso acontece porque seu José é um acumulador. O termo, que é o popular para pessoas com o chamado Transtorno de Acumulação (TA), ficou famoso quando virou título de um reality show norte-americano, exibido no Brasil pelo canal pago Discovery Home&Health desde 2009. Mas a doença é tão séria que, se antes, era vista somente como um dos sintomas do Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), em 2013, passou a ser considerada uma patologia diferente. 

Seu José, na frente da casa onde acumulou cerca de 15 toneladas de materiais sem utilidade. Ele é um dos 23 acumuladores acompanhados pela prefeitura de Salvador (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

O caso de seu José é emblemático: como ele, há outros 22 acumuladores já conhecidos e acompanhados pela prefeitura de Salvador, desde o ano passado. Na última semana, chegaram duas novas denúncias, que ainda estão sendo analisadas. Mas, pelas estatísticas, pode ser muito mais: estudos científicos indicam que de 3% a 5% da população mundial pode ser acometida pelo TA. 

Ele entrou no mapa dos acumuladores há dois meses, depois que a prefeitura recebeu denúncias durante os mutirões de limpeza que estão sendo realizados pela Limpurb para combater o mosquito Aedes aegypti. Vizinhos apontaram o imóvel, com medo de que tivesse focos do mosquito, transmissor da dengue, da chikungunya, da zika e da febre amarela. 

A casa em questão foi construída pelo próprio José, em 1976, quando se mudou da Liberdade para Paripe. Ele conta que trabalhou na Feira de São Joaquim por anos. Vendia e carregava sacos de farinha, empurrava carrinho-de-mão, tudo. Mas conta que passou a guardar objetos, papéis, fios e outras coisas quando viu que podia vendê-los.

Dali, pretendia tirar uns trocados. “Eu vendia para reciclagem, porque cato garrafa e latinha”, lembra. Mas, na verdade, tinha bem mais que isso: madeira, panelas, barrotes e ferros, por exemplo. A madeira, ele conta que pretendia construir um “puxadinho” nos fundos do imóvel. “Mas eu caí doente e fiquei um tempo parado. Aí veio esse problema de cupim. Aqui também molha muito, aí o teto fica assim”, diz, justificando o estado da casa. 

Hoje, o imóvel só tem alguns blocos de construção. Fora isso, só rachaduras, poeira e marcas de infiltração. Quando o CORREIO visitou o local, na última segunda-feira (30), um morcego voava por um dos quartos, parcialmente escuro. Bem diferente de como estava há menos de duas semanas, quando 15 agentes de limpeza da Limpurb trabalharam para retirar o material da casa dele. “Tinha coisa em todos os quartos”, admite. Na laje, a mesma situação. 

A paisagem vazia hoje é, certamente, distante do cenário que o fez se mudar, menos de um ano atrás. É isso: a casa de seu José ficou tão intransitável que ele não tinha lugar para dormir. Na verdade, mal tinha como se movimentar. Assim, decidiu se mudar para a casa da atual companheira, a dona de casa Ednalva de Jesus, 57, que fica a menos de um quarteirão da sua. 

Na dele, seu José consegue hoje andar com tranquilidade, sem obstruções no caminho. Mesmo assim, seu José diz que sente saudades de seus pertences. “A gente sente (falta), né, ‘cumade’? A gente fez um esforço para botar e, de uma hora para outra, botam para fora. Perdeu o trabalho, né? Fez a semente e não colheu”, lamenta, reforçando que tinha os objetos para vender. 

Por outro lado, a varanda da casa de dona Ednalva, a atual mulher, já está cheia de caixotes, sacolas plásticas e até televisão e carrinho de mão velhos. Ela desaprova o comportamento do marido. Nos quase dez anos que estão juntos, ela viu de perto o hábito de acumulação de José crescer e se agravar. Quando olha para sua varanda, vislumbra um futuro preocupante. 

“Ele diz que é para fazer reciclagem. Lá (na casa dele) não tem mais espaço e aqui já está ficando assim. Falo para ele: ‘criatura, para quê você quer isso?’. Na idade que a gente está, para que vamos querer coisas que não servem mais?”, questiona. Mas José não vê dessa forma. Para ele, não há problema. José acredita que, um dia, pode precisar daquele objeto – seja lá qual for. Por isso, não pode se dar ao luxo de jogá-lo fora. O que vai fazer quando o dia chegar? 

Moradora de Paripe, a agente de endemias Glória Teresa, 34, diz que conhece seu José há oito anos, desde que se mudou para o bairro. Como trabalha fazendo visitas do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), ela também conheceu de perto a situação da casa do vizinho. Sempre que tinha que vistoriar o local, sofria para andar.  “Além de ele acumular lixo, ele acumulava garrafas de água, então tinha muitos focos de Aedes aegypti”, lembra.  

Dentro do perfil
Seu José se encaixa no perfil mais conhecido dos acumuladores: uma pessoa mais velha, que passou a vida toda guardando coisas, até que, um certo momento, o hábito ficou descontrolado. Não encaram os objetos acumulados com apego, mas sofrem justamente pela dúvida: e se precisarem no futuro? Por vezes, essa pessoa não tem família. Não raro viveram algum momento traumático ou ressentem alguma perda importante na vida. 

No caso de José, o episódio traumático remonta a esses ‘cerca de dez anos’ que vez ou outra aparecem em sua história. Foi nessa época, talvez um pouco para mais, talvez um pouco para menos, que a primeira mulher o deixou. Um dia, chegou em casa e o imóvel estava vazio. A mulher tinha ido embora com o marido da sobrinha de José. Levou o filho dos dois, levou as coisas. 

Hoje, seu José mora na casa da mulher. Desde que se mudou, há menos de um ano, já levou todo esse material para a varanda do imóvel (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

Desde então, a casa de José nunca mais esteve vazia – até o mutirão da Limpurb. Ele não fala sobre a ex-mulher ter ido embora. Quem conta são os vizinhos e a atual esposa. Também não fala sobre o atual paradeiro do filho. “O filho está na detenção, porque a polícia pegou vendendo droga”, contou a cozinheira Jenelice Morais, 60, vizinha de José. Para a família, José parece não assimilar que o filho está preso há dois anos. Às vezes, diz às assistentes sociais que o filho mora com ele. A esposa acredita que, se ele sabe, finge que não sabe. 

Mesmo após tirar tudo da residência, o comportamento de José não sumiu. “Ontem mesmo, ele passou aqui com um saco de lixo, dizendo que as coisas eram dele”, conta o operador de betoneira Valmir Santos, 49, vizinho de José. É porque retirar o lixo de dentro de casa não basta, mesmo se for feito em concordância com o acumulador. 

Na última segunda-feira (29), José foi levado pelos agentes sociais da Secretaria Municipal de Promoção Social, Esporte e Combate à Pobreza (Semps) a um dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), onde deve começar a receber acompanhamento psicológico e psiquiátrico. 

“Eu creio que as coisas vão melhorar, já estão melhorando. Estou gostando da transformação espero que, no fim, venha me alegrar mais”, diz, esperançoso. 

Sem acompanhamento, tudo – todo o lixo – pode voltar de vez. E ele sabe disso. 

Trauma e incompreensão
A casa de José contrasta com a casa da autônoma Ana Joanice de Oliveira, 50. Na segunda-feira, 15 agentes de limpeza da Limpurb retiravam os materiais da casa dela, na Ribeira, com ajuda de uns três ou quatro conhecidos. Menos de um mês atrás, ela foi denunciada pelos vizinhos também em um mutirão de limpeza. 

A casa, com quarto, sala e um quintal ao fundo, foi tomada por vasos plásticos, garrafas, latinhas, eletrodomésticos velhos, fios... Até dentro de uma geladeira, há uma meia dúzia de liquidificadores quebrados, entre outros utensílios que já não funcionam. Jane, como Ana Joanice prefere ser chamada, assiste tudo de longe, encostada na parede de uma casa defronte à sua. Às vezes, senta em um degrau e coloca a mão na cabeça, enquanto vê suas coisas sendo colocadas em um caminhão. 

Moradora da Ribeira, Ana Joanice, a Jane, guardava de tudo em casa. No dia que conversou com a reportagem, agentes da Limpurb estavam na casa dela para remover o material (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

Nasceu e cresceu na Ribeira. Construiu aquela casa, há uns 15 anos, toda de madeira. Mas um incêndio destruiu o local uns três ou quatro anos depois. Ela diz não ter dúvida de que foi um dos amigos do filho caçula, que, naquela época, foi morar com eles. 

O próprio filho morreu há cinco anos, um mês após ter completado 18 anos. “Era um bom menino, mas filho quando não obedece à mãe, o caminho é cadeia ou cemitério”, responde, seca. O tom fica mais ameno quando lembra o quanto eram próximos. Diz que o menino fazia tudo por ela. O período que o hábito de guardar objetos sem utilidade se agravou coincide com essa época – para as assistentes sociais, não há dúvidas de que a morte do filho foi o episódio de trauma dela. 

Jane ainda tem outras duas filhas mais velhas – uma que mora em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador (RMS) e outra ali mesmo, na Ribeira. A relação não é, nem de longe, como a que tinha com o menino mais novo. 

Depois que a casa pegou fogo, o atual companheiro de Jane, o pedreiro Guilherme Ramos, 55, levantou a casa de alvenaria. Até hoje, está sem pintura. Nem por isso, no entanto, parece deixou de ser utilizada. Mas, nos últimos tempos, só como galpão. Jane até vai lá todos os dias, mas, na maior parte das vezes, passa a noite com o companheiro, que tem uma casa em Paripe. 

Assim como seu José, que saiu de sua casa para a da mulher – levando, com ele, parte do material que acumulou, Jane foi para a casa de Guilherme. Lá, tem onde dormir. “Como é que vai viver num lugar desse, cheio de lixo? Eu digo para ela que ela é doida”, admite Guilherme, enquanto recolhe pedaços de ferro, latas e embalagens sujas da parte da casa que um dia teria sido um quintal. Para chegar ao quintal, é quase um desafio. É preciso passar por cima de eventuais montes de lixo, ferro e madeira. 

O marido de Jane, Guilherme, ajudava a mulher a retirar as coisas da casa, na Ribeira
 (Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO 


Ela diz que é incompreendida pelos vizinhos. Acredita que eles não conseguem entender que ela cuida, sim, da casa. “Outro dia veio um menino dizer que tinha matado rato aqui. É mentira, porque eu boto remédio. Aqui não tem rato. O povo é que fala demais”, desabafa. 

O material tem origens diversas: encontra na rua, ganha de desconhecidos. Outro dia, ganhou as sobras de uma festa de 15 anos. Para ela, motivo de comemoração. A justificativa para guardar tanta coisa é que, assim como seu José, de Paripe, venderia os objetos. Seria uma renda a mais para ela que vive vendendo “queimado” no ônibus. Os mesmos ônibus onde, por vezes, esquece que está; tem blecaute e se perde. Às vezes, desmaia. Não sabe qual é o problema, mas conta que já chegou a passar um mês internada no Hospital São Rafael.

Só que a venda do material não acontece – pelo menos, não na proporção na qual ela acumula. Nem de longe. 

Sem ninguém
A convivência com os vizinhos também é um problema para a dona de casa Eunice dos Anjos, 62, também moradora da Ribeira. “O pessoal fica me perturbando. Ninguém aqui nunca gostou de mim”, murmurava, quando abriu a porta para encontrar a reportagem do CORREIO, ao lado das assistentes sociais da prefeitura. 

Há pouco mais de um mês, Eunice – ou Dona Nice, como prefere ser chamada – teve o material acumulado em sua casa retirados pela prefeitura. De lá, saíram três toneladas de lixo. É menor do que o guardado na casa de seu José, por exemplo, mas é o suficiente para encher a casa com uma sala e uma laje. Também era o bastante para atrapalhar a locomoção de Nice, que tem nanismo. 

Assim como os outros acumuladores, ela diz que pegava o material na rua para vender. Só que, com o tempo, começou a incomodar os outros moradores da Travessa Porto dos Mastros, a comunidade onde vive. Segundo as assistentes sociais, dona Nice tem transtornos cognitivos. Ela conversa com dificuldade e consegue articular pouco as respostas. 

Dona Eunice, a Nice, sente falta do material que acumulava em casa. Ela será encaminhada ao Caps (Foto: Thais Borges/CORREIO)

Mesmo assim, dá para perceber a dor em seus olhos. “Quero morrer”, balbucia, em um dado momento da conversa. Diz que quer encontrar a mãe, que perdeu há sete meses. Mas, como Eunice não tem mais a noção do tempo, a mãe pode ter falecido bem antes disso. 

Naquele dia, a visita foi para que as assistentes sociais conversassem novamente sobre a ida ao Caps. A dificuldade principal é ter alguém para levá-la, sempre nos dias de consulta, já que dona Nice mora sozinha. O filho, segundo ela, vive na Pituba, mas não a visita. A única irmã viva não está em Salvador. Com os vizinhos, não pode contar. 

Embora a Semps faça o encaminhamento dos pacientes, não tem como levar todos os pacientes para todas as consultas. É aí que entra o papel da família, tão necessária para o tratamento dos acumuladores. Mas, geralmente, eles são como dona Nice: sozinhos. 

Quando começa a causar prejuízo
Muitas vezes, as pessoas que têm o TA não conseguem sequer perceber a doença, segundo a psiquiatra Fabiana Nery, médica da Clínica Holiste e professora do Departamento de Neurociências e Saúde Mental da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Por isso, a família é fundamental. 

“É importante reforçar que qualquer tipo de comportamento que esteja causado prejuízo deve ser levado para avaliação psiquiátrica, porque, na maioria das vezes, eles (os acumuladores) não percebem o prejuízo, nem que aquilo é prejudicial à saúde”, explica. 

Ou seja: é importante ficar atento aos sinais de prejuízo. Você está dormindo na sala porque o quarto está abarrotado de coisas e a cama virou mais um espaço para guardá-las? Então, talvez seja o momento de procurar um especialista. O principal motivo dos acumuladores, de acordo com a psiquiatra Fabiana Nery, é justamente a dúvida quanto à necessidade de precisar do objeto no futuro. 

O TA é uma doença multifatorial – é uma associação entre características da personalidade, questões genéticas, e fatores ambientais e externos. “A gente percebe um transtorno bem crônico. (O paciente) começa dando sinais desde a infância e adolescência e tende a se intensificar com a idade avançada. Por isso, é comum ver gente com 50 anos para cima, mas se você olhar, vem desde a infância e adolescência”. 

Além disso, acumuladores nunca devem ser confundidos com colecionadores. Quem coleciona tem algum objetivo e o objeto tem um significado para ele. Enquanto o colecionador tem uma coleção organizada, por vezes, catalogada, o acumulador geralmente é caótico. Mas uma coisa que nunca deve ser feita – pela família ou por quem quer que seja – é simplesmente pegar as coisas e jogar fora. 

“A pessoa pode ter um ataque de ansiedade ou de pânico, então tem que fazer todo um trabalho com uso de medicação para controlar a ansiedade. E aí você trabalha para concordar que vai jogar fora. Tem que explicar que, às vezes, pode estar atrapalhando a saúde. Mas, além disso, tem que traçar um compromisso com o paciente de que ele não pode acumular mais. Se não, seis meses depois, volta como era”. 

O tratamento deve ser feito em todas as frentes: psiquiátrico, psicológico e psicossocial – e vai desde treinamento de técnicas de como jogar fora os objetos até o tratamento psiquiátrico com a medicação para reduzir os níveis ansiedade. E justamente por ser uma patologia crônica, o paciente com TA deve fazer tratamento contínuo e provavelmente sempre vai precisar usar uma medicação indicada. 

Os três acumuladores desta reportagem – seu José, Jane e dona Nice – estão passando pelo processo de encaminhamento ao Caps, justamente para receberem o tratamento adequado. 

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