Agro: custos mais altos e menores preços de vendas na próxima safra

bahia
01.06.2022, 19:36:00
Bahia Farm Show foi aberta oficialmente nesta terça-feira (Donaldson Gomes)

Agro: custos mais altos e menores preços de vendas na próxima safra

Produtores do Oeste apostam em mais eficiência e aumentos de produtividade para continuar crescendo

Diante da perspectiva de um aumento nos custos de produção, impulsionados principalmente pelos preços de fertilizantes, e ganhos menores com as vendas, os produtores rurais do Oeste da Bahia apostam em mais eficiência e na busca por novos aumentos nos índices de produtividade. Um dos principais custos do campo, os fertilizantes, em alguns casos, chegaram a dobrar de preços desde o início da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. No caso do algodão, o setor projeta um aumento em torno de 45% nos custos totais de produção. 

O presidente Bahia Farm Show e da Associação Baiana de Agricultores e Irrigantes (AIBA), Odacil Ranzi, acredita que a edição atual da feira agrícola será importante para os produtores se prepararem para os desafios da nova safra. Neste edição, a expectativa dos organizadores é da quebra de todos os recordes de público e de faturamento. Segundo ele, a área de exposição cresceu 33% em comparação com a última edição, em 2019, quando o faturamento foi de R$ 1,9 bilhão. “Não temos um número fechado, mas nós esperamos superar o que fizemos em 2019”, projeta. 

“Nós estamos há dois anos sem a feira, o produtor está capitalizado após duas safras que foram muito boas. Olhando o que aconteceu em outros eventos pelo Brasil, que tiveram recordes batidos, sonhamos em superar R$ 1,9 bilhão, porque a feira cresceu”, diz. 

Ele diz que para o próximo ano as preocupações estão em torno do adubo cloreto de potássio. “Em relação ao potássio, nós estamos tranquilos. Acredito que em outubro todo mundo vai plantar as suas lavouras e conduzir da melhor maneira possível para, quem sabe, em abril colhermos uma supersafra novamente”, projeta. 

Um fator positivo destacado pelo presidente da Aiba foi o anúncio de que o governo do estado vai publicar em breve uma nova portaria, ampliando a disponibilidade de água para a irrigação na região. “Esta mudança é muito importante para nós. É baseada em um estudo científico, juntamente com a Universidade Federal de Viçosa e a Federal do Rio de Janeiro”, conta. “Nosso aquífero está todo mapeado, vamos poder aproveitar melhor este recurso, sempre com uma grande responsabilidade em relação ao meio ambiente”, destacou. 

O produtor rural Luiz Carlos Bergamaschi, presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), ressalta que além de ser importante economicamente, a busca por mais produtividade no campo significa trabalhar de maneira mais sustentável. “Não temos alternativas a isso. Em nossa equação de produção, existem fatores que não controlamos. O preço de venda e o custo do insumo não dependem de nós. Também não está em nosso controle o clima. O que nós podemos fazer é investir em produtividade porque isso torna os demais problemas menores”, acredita. 

A guerra na Ucrânia já está impactando o campo, principalmente no que diz respeito aos preços dos fertilizantes, aponta Bergamaschi. Segundo ele, não há grandes dificuldades para encontrar os produtos, porém os mesmos chegaram a dobrar em alguns casos. Segundo ele, o impacto na safra atual não foi maior porque boa parte dos fertilizantes já havia sido comprada com antecedência. 

“Agora já estamos vendo gradualmente a redução nos custos de alguns elementos. Nitrogênio já está reduzindo, mesma coisa no caso do potássio e do fósforo. Em algum momento isso vai se equilibrar e o preço deve voltar a um patamar adequado”, diz. 

 A safra atual de algodão foi tranquila, avalia o presidente da Abapa. A produção aumentou de uma área de 266 mil hectares, “baixa em função da pandemia”, e ampliou-se para 307 hectares. A estimativa é de 530 mil toneladas de algodão em pluma, com preços menores.

Para o próximo ano, a expectativa é de um impacto grande provocado pela alta dos custos. Em menor escala, a alta dos combustíveis impacta nos custos de colheita e plantio, mas o que deve pesar mais são mesmo os fertilizantes, pondera. “Se o cenário atual se mantiver, vamos gastar mais para vender por um preço menor. Mas pode ser que isto mude”. 

Bergamaschi acredita que o ânimo do produtor baiano após dois anos sem Bahia Farm deve fazer desta edição a maior de todas. Ele lembra a importância dos investimentos em tecnologia e inovação para os produtores do Oeste, principalmente no caso da cultura do algodão. “Essa é a oportunidade para renovar o parque de máquinas, buscar novas alternativas de produção e melhorar cada vez mais. Além da tecnologia, a inovação em nossos processos é muito importante, assim como o relacionamento que a feira proporciona”, diz. “Nós temos uma região que tem destaque no uso agronômico do solo. Não estamos num local que chova tanto, mas num ambiente com mais adversidade, as pessoas precisam ser melhores”, pondera. 

“O clima mais difícil, o solo que precisa de mais cuidados e outras dificuldades foi o que nos forçou como produtores a melhorar cada vez mais”, acredita. 

O produtor rural Júlio Busato, presidente da  Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) falou sobre os resultados das principais safras da região. Ele destacou o desafio em relação aos custos de produção para o próximo ano. “A safra que nós estamos colhendo foi excelente para a soja e o algodão, nem tanto, porque faltou uma chuva no final do ciclo e isso nos fez perder produtividade. De qualquer forma, o resultado econômico vai ser bom em função dos preços das commodities atualmente”, projeta.   

“Os custos subiram muito, principalmente em função dos fertilizantes, mas eu acho que a dedicação e os esforços dos produtores por mais produtividade vão superar esse problema, que com certeza é temporário”, avalia. Ele lembrou que mesmo durante a pandemia, com todas as dificuldades impostas pela crise sanitária, o campo conseguiu bons resultados. “Somos indústrias a céu aberto, criamos protocolos de segurança e avançamos. Não tivemos que parar. Então essas dificuldades com custos agora, certamente também serão superadas”, aposta. 

Mais água
O governador Rui Costa, presente à cerimônia de abertura oficial da Bahia Farm Show nesta quarta-feira (01), destacou ações do estado para promover melhorias na região. Entre os produtores, o anúncio mais festejado foi de que o Inema vai permitir o aumento no uso de água para irrigação, um pedido antigo do setor, que foi alvo de diversos estudos capitaneados pelos produtores. “Nos próximos dias estaremos publicando uma nova normativa que vai permitir o uso de mais água para produzir”, disse o governador. Segundo ele, além de flexibilizar o uso do recurso natural, a nova legislação também vai permitir uma distância menor entre os pivôs de irrigação.

O presidente da Aiba, Odacil Ranzi, explicou que o grande gargalo para um crescimento ainda maior da agricultura baiana no Oeste está na disponibilidade de energia elétrica. Segundo ele, a Neoenergia firmou compromissos com o setor agrícola para resolver os problemas até o ano de 2025. “A Neoenergia já inaugurou três subestações e vai inaugurar várias outras. É um mundo muito sofisticado e que envolve uma série de fatores, então devemos lidar com essa demanda reprimida por mais alguns anos”, diz. 

Segundo Odacil Ranzi, é difícil quantificar os prejuízos causados pela escassez de energia elétrica. “Nós acreditamos que seja muito grande o prejuízo porque há muitos projetos, principalmente de irrigação e de indústrias”, diz. Segundo ele, há investidores interessados na região que ainda não se instalaram por conta do problema. “Imagina o tamanho do investimento de uma usina de fios que deixa de vir por falta de garantias no fornecimento elétrico”, pondera. 

Em relação à logística de escoamento, ele destacou os avanços com o programa Prodeagro, que prevê parcerias para investimentos entre o poder público estadual e a iniciativa privada. Ontem, o governador Rui Costa anunciou na Bahia Farm uma ordem de serviço para o asfaltamento de 39 quilômetros  para o povoado da Bela Vista, o mais antigo da região e que até hoje está na terra batida. 

Luiz Carlos Bergamaschi, presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), diz que a oferta de energia na região está muito aquém das necessidades da região. “A oferta é muito baixa, ocorre que temos projetos que não são executados por falta de energia. Poderíamos ter uma produção agrícola maior, mas poderíamos ter uma produção industrial maior também. É algo que está limitando o nosso desenvolvimento”, diz. 

O projeto de conteúdo Bahia Farm Show é uma realização do jornal Correio com o apoio da ABAPA.

*O jornalista viajou para a Bahia Farm Show a convite da AIBA

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