Amigos celebraram missa de sétimo dia em memória a Alaíde do Feijão

correio afro
07.02.2022, 05:00:00
A família se reunião aos amigos e à Irmandade do Rosário dos Pretos para celebrar a memória e a luta de Alaíde do Feijão (Arisson Marinho)

Amigos celebraram missa de sétimo dia em memória a Alaíde do Feijão

Ritual aconteceu neste domingo (6) na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, que ela frequentava e era membro da Irmandade

Tinha gente do candomblé, tinha gente da igreja católica, tinha político, tinha gente anônima, tinha gente do Ilê, tinha gente do Olodum... Assim foi a missa de sétimo dia neste domingo (6) de Alaíde do Feijão, que, em seu restaurante, no Pelourinho, promovia essa mesma congregação. Mas a comunidade negra era mesmo maioria na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, afinal, Alaíde tinha a força de uma liderança para os pretos baianos.

E aquela igreja tinha para ela um significado muito especial, já que Alaíde, além de ser membro da Irmandade de Nossa Senhora Rosário dos Pretos,  havia se empenhado muito por sua revitalização, como observa o Prior da Irmandade, Adonai Passos Ribeiro: "Quando um irmão nosso falece, tem direito a duas missas nesta Igreja: a de sétimo dia e a de trigésimo. E Alaíde era uma das irmãs. Além disso, sempre terminava a missa aqui, íamos ao restaurante dela tratar de estratégias para melhorar o dia a dia da Igreja e da Irmandade".

Alaíde, além de integrar a Irmandade, era também do Terreiro Tumbacê, em Salvador, e quem a regia era o orixá Obaluaê, dono da terra, da cura, da doença e da morte. Por isso, estiveram presentes também muitas pessoas ligadas ao candomblé. 

Uma delas era Mônica Kalile, uma das fundadoras do Instituto A Mulherada, que luta pelos direitos das mulheres negras. "O restaurante de Alaíde virou um ponto de encontro de blocos de Carnaval, desde o Ilê até os Comanches. E no dia da bênção do Olodum, o ponto alto era o encontro no Alaíde do Feijão. Ali, mais importante que beber o delicioso caldo de feijão, era beber da cultura negra.

"Hoje, Alaíde é uma ancestral, mas sempre a considerei uma entidade".

O padre Rafael Mutamba observou que a chuva que caía no Pelourinho, enquanto a missa era rezada, era uma bênção: "Estamos hoje, então, recebendo nossas bênçãos. Com a nossa bênção, acompanhamos nossa mãe, nossa querida Alaíde Conceição. Recebamos, então, essa chuva de bênçãos". Padre Rafael, no entanto, alertou: "Não vamos nos dar as mãos por causa da pandemia", disse, antes de convocar os fiéis para rezarem um Pai Nosso.

Taíse Conceição, neta de Alaíde, disse que a família assumiu o compromisso de manter o restaurante funcionando, principalmente por causa da importância que aquele lugar tinha para a avó:

"O restaurante era um quilombo, não era apenas um espaço para retorno financeiro. Ali, conversava-se sobre política, cultura, ancestralidade...". 

E o sabor especial do feijão de Alaíde será mantido? "Fazer o feijão idêntico ao dela é impossível! Mas vamos seguir os passos dela. Temos a receita desde minha bisavó. Das Neves, que vendia feijão no Mercado modelo. Vamos dar continuidade sim!", garantiu Taíse.
 

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