Amor eterno: elas perderam seus filhos, mas continuam sendo mães

salvador
13.05.2018, 06:09:00

Amor eterno: elas perderam seus filhos, mas continuam sendo mães

Hoje, Dia das Mães, CORREIO mostra histórias de mulheres que reivindicam o posto/cargo/título

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No Dia das Mães, elas não costumam ser lembradas. Em uma data tão associada à felicidade, é como se não houvesse espaço para as memórias delas. Para muita gente que vê de fora ou que não tenha vivido em sua própria pele, é como se maternidade delas tivesse sido interrompida. Com a perda de um filho, é como se, de uma hora para outra, elas deixassem de ser mães – aos olhos da sociedade. 

Mas o amor de mãe não tem fim – não depende de presença física, muito menos de ausência. A condição de “mãe” muito menos. Por isso, neste domingo (13), o CORREIO conta a história de mulheres que não costumam aparecer em reportagens desta data. “Por muito tempo, meu pai foi a única pessoa que lembrou de mim no Dia das Mães. Em um ano, ele me deu uma santa”, conta a psicóloga Verena Cohim, 36, uma dessas mães. 

A perda de um filho é o pior tipo de luto a ser enfrentado, segundo a psicóloga Daniela Lemos, especialista em situações de luto. É difícil compreendê-lo porque é como se invertesse a lei natural da vida. “Você cria projetos, expectativas.. Tudo que pensa é para a criação daquele filho. Mas, seja lá qual for a idade – esteja na gestação ou já casado, tendo até dado netos –, ele nunca vai deixar de ser filho”, destaca. 

O apoio da família é muito importante, assim como a vivência do luto. É preciso que cada mãe sinta o que precisa sentir, sem cobranças sociais. “E elas precisam de terapia, nem que seja para ver como estão as coisas, mesmo que por pouco tempo”. 

Cada uma delas passou por uma situação diversa – e em diferentes momentos da própria vida e da vida dos filhos. Mesmo que nem sempre sejam vistas, as Verenas, Cláudias, Rosângelas, e Alines lembram deles todos os dias. Como elas, outras tantas mulheres terão, hoje, um dia de reflexão, de memória e de saudade. 

Verena, a mãe que descobriu a própria força
A psicóloga Verena Cohim, 36 anos, nunca imaginou que fosse ter uma tatuagem. Mas sua percepção de si mesma e do mundo ao redor mudou depois da morte de seu filho, há sete anos e meio. Depois disso, decidiu escrever na pele o que estava marcado em sua alma: Gugu, como o bebê se chamava. 

A psicóloga Verena é mãe de dois filhos humanos e dois filhos 'caninos'. O buldogue francês Tchuco, 11 anos, foi seu maior companheiro desde que perdeu o filho (Foto: Betto Jr./CORREIO)

Gugu morreu aos dois anos e meio, depois de cair em uma piscina em uma chácara onde a família passava o feriado de Finados, em Feira de Santana, no interior do estado. Ele teria feito 10 anos na última quinta-feira (10). Hoje, Verena tem quatro filhos – Gugu, uma menina de um ano e dois cachorros. 

Por vezes, parece que a sociedade prefere ignorar Gugu. Mais de uma vez, já passou por situações em que precisa dizer o número de filhos e seu interlocutor logo assume que não há nenhum. Se ia preencher um cadastro e diz que um deles era falecido, a resposta era de que ela só tinha um filho. 

“Mas eu tenho dois. Antes mesmo de ter a menina, eu falava que tinha um filho e as pessoas falavam ‘então, você não tem filho’. As pessoas tentam te dar um lugar como se não existisse aquela mãe. É como se meu filho não existisse mais para as pessoas”. 

Verena passou por todos os estágios. O de “surtar” pelo repentino, já que não havia nenhuma doença. O de se desesperar. Se desconectar da realidade e apenas sentir dor. Só que o conforto veio de onde menos esperava – do próprio Gugu. Em sonhos, ele a acalmava. Apresentou-a ao espiritismo. E, nesse meio tempo, ela se deu tempo: ficou sem sair de casa, sem levantar, sem querer tomar banho. Buscou ajuda em grupo de apoio a mães nessa situação e voltou para a terapia, que sempre fez parte de sua vida. 

Um dia, na escola em que o filho estudava, recebeu a carta de outra mãe que também perdera o filho. “Você se sente sozinha naquele momento, acha que só aconteceu com você e com mais ninguém no mundo. Depois, você começa a saber histórias de quem viveu a mesma situação”. 

Ela recebeu muitos ‘conselhos’. Gente que dizia para ela se mudar do apartamento onde morou com Gugu. Outros preferiam argumentar que o tempo curava tudo. Por escolha, Verena não se mudou – e permaneceu assim até engravidar da outra filha. Ali, ela sentiu que precisava de outro lugar para construir o novo capítulo da vida. 

Doou berço, bicicletas, brinquedos que o filho mais gostava. Uma semana depois do que aconteceu, já tinha doado quase tudo. O cachorro mais velho, Tchuco, que já tinha à época, também foi um dos que mais lhe deu forças. Era sua companhia diária, o tempo todo. E o próprio Tchuco sentia a perda de Gugu. 

“Isso foi fundamental para mim: ver que eu precisava continuar o amando, porque mesmo a com a dor dele, ele continuava cuidando de mim. Era ele quem mais respeitava o meu momento, porque as pessoas sempre falavam isso ou aquilo”, afirma, referindo-se a buldogue francês Tchuco, 11 anos. 

Os julgamentos vieram. Não foi fácil. Parecia que as pessoas queriam medir a dor dela. Que queriam dizer por quanto tempo ela deveria permanecer triste. 

Verena não pensava em engravidar novamente. Novamente, lidou com o julgamento. De muitos lados, vinha a pressão para que ela tivesse outro filho, mas ela sabia que nada substituiria a relação com Gugu. Cada relação tem o seu espaço, acredita. 

Quando a menina veio, foi como se sua vida ganhasse um novo colorido. A vida sem cores após a morte do filho tinha ganhado novos tons. Mesmo assim, ela reforça que nada vai substituí-lo. 

Sempre que possível, Verena tenta incluir o filho na vida da filha mais nova. Entre as coisas que guardou, há um roupão que tinha sido dele. Esse roupão é um dos pertences divididos pelos dois. “Eu falo dele para ela desde sempre. Ela vai aprender a ter amor por ele, mesmo que não tenha convivido”. Dentro das possibilidades da pequena, Verena tenta explicar que o irmãozinho não está mais aqui. Está vivendo no céu. 

Hoje, ela atende outras mães – no trabalho como psicóloga e na vida. “Essa troca de poder ajudar outras pessoas me faz bem. As pessoas precisam aprender a lidar que, quando se perde um filho, aquela mãe continua existindo. Ela não pode ser apagada. Ela não deixou de ser mãe”. 

Verena fez uma tatuagem em homenagem ao filho Gugu (Foto: Betto Jr./CORREIO)

Mesmo hoje, não gostava que as pessoas se refiram ao que viveu como uma “tragédia”. Verena não quer que sintam pena dela, nem do filho. Quer ser respeitada – e que o respeito seja estendido tanto à sua dor quanto à sua forma de lidar, que pode parecer diferente da maioria das pessoas. 

Confira o depoimento de Verena na íntegra

“As pessoas ficam tão envolvidas com sua dor, de se imaginar naquele lugar, de não saber como agiriam naquela situação que não querem chegar perto de você. É um mecanismo de autodefesa, mas as vezes as pessoas podem ajudar simples com uma mensagem, um gesto de atenção”, explica. 

No Dia das Mães, ela quer ser lembrada. Quer que outras mães também sintam que seu lugar de “mães” é intocável. Ninguém pode tirar.  

“Hoje, eu tenho outros motivos para buscar força e alegria. Não é fácil, mas é possível. O amor materno é mais forte do que tudo, então a gente não tem a dimensão da nossa força até a gente passar por uma situação dessas. Essa força está dentro da gente”. 

Cláudia, a mãe que abraçou a missão da filha 
A professora Cláudia Vitti, 52 anos, tem dois filhos. Os dois estudaram Medicina, se formaram médicos e decidiram dedicar a vida à saúde pública: Cláudio, seu quase homônimo, e Viviane. “Cláudio está aqui conosco e Viviane está na eternidade”, diz, referindo-se à médica Viviane Vitti, 25, que morreu em um acidente de carro no dia 18 de maio do ano passado. 

Cláudia é mãe de dois filhos: 'Cláudio, que está conosco, e Viviane, que está na eternidade', diz (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

A jovem Viviane costumava mandar mensagens para a mãe antes de viajar. Como trabalhava na localidade Baixio, em Esplanada, no Nordeste do estado, pegar a estrada fazia parte de sua rotina – ia às segundas e volta às quintas. No dia 18 de maio, quando sofreu um acidente de carro, não foi diferente. Às 5h37, ela mandou uma mensagem: estava passando por Porto Sauípe e logo chegaria em casa. “Disse que estava tudo bem, mandou um beijo e disse ‘te amo’, porque a gente se tratava assim”, revela Cláudia. 

Viviane tinha se formado seis meses antes. Começou a trabalhar na mesma vaga em que o irmão, Cláudio, também médico, ocupara anteriormente. Tivera uma vida brilhante. Boa aluna desde os tempos de escola, a jovem tinha uma rotina de equilíbrio. Trocava tudo por uma boa leitura. 

“A gente acreditava que tudo aquilo que a gente fazia evitaria uma tragédia desse porte. Ela era uma menina politicamente correta que a gente diria que ia completar 500 anos, pela coerência de vida”. 

Quando soube do acidente, Cláudia fez um pedido: que não a contivessem. Queria se despedir da filha. Abraçou, chorou, gritou. Em meio a uma multidão assustada, Cláudia esqueceu do mundo. Pensou só em Viviane. Sentiu a morte da filha. 

Uma semana depois, ela se deparou com uma situação que se tornou frequente em sua vida. Começou a ser procurada por pessoas – mães que, como ela, tinham perdido seus filhos. “Elas queriam tirar de mim não a saída, mas como sobreviver. Tem sido uma crescente, uma forma de superação pessoal minha. E a gente vai descobrir valores, porque tudo tem um valor. Nada se perde”, reflete. 

Não há fórmula mágica. Até porque, como ela faz questão de ressaltar, o primeiro momento do trauma é desesperador. Parece que o chão foi tirado. Que tudo é um pesadelo. Depois de 15, 20 dias, a fé passa a fazer o caminho oposto. Católica, Cláudia explica que, com a fé, começou a enxergar a luz no fim do túnel. Começou a enxergar a história cultivada tanto pela filha quanto pela família. 

Com esse sentimento, a professora entendeu algo diferente: em uma analogia, era como se Viviane tivesse se tornado uma semente.

“Eu vejo que tudo que aconteceu com Viviane é para o fruto de uma vida nova. Deus colheu uma vida para gerar novas vidas. Quem está sendo alimentado pelo fruto que eu gerei é o mundo”, explica. 

No início do ano, Cláudia lançou um livro sobre sua experiência – é o Perder um Filho: Castigo ou Benção. Agora, planeja inaugurar, no segundo semestre, o Instituto Viviane Vitti, uma entidade que vai oferecer auxílio jurídico, médico e psicológico para mães que também perderam seus filhos. A ideia é que, além de ajudar pessoas, o instituto dê continuidade à proposta que Viviane tinha na Medicina. Passou a entender a missão de Viviane, em vida, como a sua. 

“Ela não via a Medicina como uma opção financeira, nem apenas como sonho de profissão. Ela tinha, como objetivo, trazer para fora muitos doentes físicos com as doenças da ama. De certa forma, existem muitas doenças de fundo emocional e ela se compadecia disso. Eu encontrei muitas pessoas que foram curadas a partir desse acolhimento”. 

Segundo Cláudia, Viviane acreditava na cura de doenças físicas através da cura na alma (Foto: Divulgação)

A criação do instituto depende do orçamento pessoal dela, que espera contar com a ajuda de amigos e voluntários dispostos a ajudar. Ainda não há local definido, mas Cláudia espera que seja no centro da cidade, próximo a estações de metrô e de pontos de ônibus. 

Viviane sempre dizia que, quando tivesse uma filha, ela se chamaria Maria Eduarda. Agora, o irmão, Cláudio, espera a chegada de uma filha. O nome será em homenagem à irmã: Maria Eduarda. 

Rosângela, a mãe que entendeu 'luto' como verbo
A técnica em segurança do trabalho Rosângela da Silva, 43 anos, deu à luz ao jovem Têu Nascimento, 24, quando tinha 16 anos. Por ter sido mãe tão jovem, Rosângela – ou Rose, como prefere ser chamada – e Têu (apelido de Thadeu) eram como melhores amigos. Ela teve outros três filhos depois, mas a relação com o primogênito era diferente. 

Desde 2014, depois de passar uma temporada morando em São Paulo, Têu tinha assumido sua identidade de gênero como homem trans. Quando retornaram a Salvador, os dois foram morar no bairro de Águas Claras, em um apartamento alugado por ela. Nesse período, Rose teve que lidar com muita coisa: além de aprender a conviver com a verdadeira identidade do filho, ganhou uma nora. Por um ano, viveu também com a jovem que foi o primeiro relacionamento sério de Têu. 

Têu Nascimento nasceu quando Rosângela tinha apenas 16 anos (Foto: Betto Jr./CORREIO)

“Eu tinha que abraçar porque pensava: se não abraçar, o mundo abraça. Só que eles brigavam muito e eu pedi para que ela fosse para a casa da mãe dela; Têu continuaria comigo. Mas, nessa época, ele me pediu para dar um apartamento em Cajazeiras 10 para ele”. No fim de 2015, então, o jovem se mudou para a nova casa – toda mobiliada pela mãe. 

Foi nesse apartamento que, em maio de 2017, o jovem foi sequestrado e, posteriormente, assassinado. Têu tinha o costume de usar o celular na janela porque não tinha sinal dentro do apartamento. Foi o que bastou para que traficantes da região achassem que ele era informante da polícia. No dia 6 de maio do ano passado, o corpo do jovem foi encontrado no bairro de São Cristóvão, com marcas de espancamento e de tiros na cabeça – ele estava desaparecido desde o dia anterior. 

Em pouco mais de um ano, quatro pessoas foram presas, um foi morto e uma sexta pessoa – uma mulher identificada apenas como Carla – ainda não foi localizada polícia. Já teve quem disse para ela desistir. Até mesmo dentro da polícia, já houve quem tentasse convencê-la de que encontrar a última suspeita é como buscar uma pedra em meio ao mar. Mesmo assim, Rose tem esperanças. 

A morte de Têu veio em meio a um processo de aceitação de Rosângela. Por muito tempo, ela não conseguia chamar o filho por um nome que não o que ela tinha lhe dado quando nasceu. Têu, compreensivo com a própria mãe, respeitava o tempo dela.

“A gente sempre teve uma relação muito aberta. Conversávamos sobre tudo e eu tenho certeza que ele me compreendeu. Ele não me julgaria jamais”, explica. 

A última vez que se viram foi no dia 30 de abril de 2017. Na época, o marido de Rosângela estava internado havia três meses, prestes a fazer uma cirurgia no coração. Naquele dia, Têu foi para a casa dela. Conversaram sobre o que fariam quando o companheiro da mãe saísse do hospital – falaram, inclusive, de planejar o casamento dela. 

Do nada, o filho pediu um abraço. Depois que a mãe o abraço, ele a surpreendeu. Pediu que fizesse aquilo mais vezes. “A senhora sempre teve essa dificuldade”, disse o jovem. Naquele mesmo dia, Têu escreveu uma homenagem à mãe nas redes sociais. Afirmou que, por ela, passaria na frente dos trilhos de um trem. 

Se falavam todos os dias pelo celular. Naquele dia 6, o filho não fez contato. Preocupada com o marido, que tinha acabado de receber liberação para a cirurgia, Rosângela não percebeu a falta de mensagens. Quando compreendeu, disse a si mesma que, quando chegasse em casa, ligaria para o filho. 

“Quando liguei o Wi-fi, chegaram várias mensagens do trabalho dela dizendo que ele não tinha aparecido no dia 5. O celular só dava caixa e, naquele momento, eu tive a certeza de que alguma coisa tinha acontecido com meu filho. Ele jamais faltaria trabalho, nem ficaria tanto tempo sem falar comigo”. 

Homem trans, Têu Nascimento tinha assumido sua identidade de gênero depois de morar em São Paulo (Foto: Acervo pessoal)

Os momentos que seguiram foram de desespero – desde a ida até o apartamento (que tinha sido arrombado) até a revelação, na delegacia, de que Têu estava morto. “Não é fácil conseguir gerar um filho, botar no mundo, orientar para que se torne uma pessoa do caráter que Thadeu era, uma pessoa cheia de planos, e saber que tiraram a vida dele como se fosse um marginal”. 

Se Rose já era conhecida por ser batalhadora, o último ano fez com que ela lutasse ainda mais. Lutasse para que todos os envolvidos na morte de Têu respondessem pelo que fizeram. Lutasse por justiça e para que outras mães não passem pelo que ela passou. É como dizem: o “luto”, para ela, se tornou um verbo. 

“Eu só não fraquejo porque o Thadeu sempre me via como uma guerreira. Uma pessoa que ele sabia que podia confiar. E eu vejo que tenho outros filhos que precisam de mim”. 

O Dia das Mães é difícil, tanto quanto o Natal e o aniversário da própria Rosângela. Mesmo assim, ela se apega às boas memórias. Não há um dia em que não pense no filho. Mais de uma vez, disse ter certeza de que um dia irá encontrá-lo – seja ‘em matéria’ ou não. Para outras mães na mesma situação, ela diz que é preciso confiar em Deus. Nada acontece por acaso, reforça. Tem dias que não são fáceis, mas ela levanta.

“Ele não ia gostar de me ver para baixo, então paro para lembrar da felicidade que ele tinha quando me via feliz. A gente nunca vai deixar de ser mãe daquele ser. E as outras mães precisam acreditar que, para o espírito seguir feliz, você tem que estar bem. Isso é um alimento”. 

Aline, a mãe que não quer que outras mães se sintam sozinhas
A primeira gestação da publicitária Aline Brault, 38 anos, foi muito tranquila. O pequeno Gael, 3, foi fruto de uma gravidez planejada e logo se tornou o amor da família. Diante de tanta felicidade, um ano depois, Aline e o marido decidiram: iriam engravidar de novo. 

Aline não quis que a perda da filha se tornasse um assunto proibido (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Inicialmente, tudo parecia caminhar da mesma forma. Sem problemas. Até que, por volta da 25ª semana, algo parecia não estar certo. A médica que a acompanhava percebeu que, ainda que dentro da normalidade, o bebê não crescia muito. Começaram, assim, a fazer exames com frequência.

“Já com oito meses, todos os exames davam o crescimento um pouco menor, mas dentro da normalidade. Ela decidiu que não se precisava mais de tanto exame. Quando se tomou essa decisão, uma semana depois eu perdi o bebê”, lembra a publicitária. Aline estava grávida de uma menina que se chamaria Maitê. 

Ela conta que, a partir daí, viu a vida virar de cabeça para baixo. Viu as expectativas do momento mais feliz de sua vida se tornarem o oposto. E, ao mesmo tempo, teve que tomar decisões difíceis – inimagináveis para quem, até então, esperava levar um bebê para casa. 

Descobriu que existem cinco passos para quem passa por isso: ir para o hospital; decidir se quer ou não conhecer a criança; ter alta sem um bebê; chegar em casa e, depois, tomar as decisões.

“Tem alguns cuidados que ajudam. Minha médica me botou numa sala do hospital diferente da sala onde nascem os bebês, que é cheia de enfeitezinhos que podem aumentar a sua dor. Esses cuidados não se falam e são importantes para as mães”.  

Ela também teve seu tempo. Teve o tempo de ir para a terapia falar sobre. E, na época, o pequeno Gael não tinha nem completado dois anos. Olhar para ele – que estava ali, precisando de sua presença – ajudou a resgatar a alegra. “Eu puxei ele muito para perto. Existe a teoria de que a criança não deve dormir com os pais, mas, naquele momento, eu estava precisando dele”, lembra. 

Aline buscou apoio na família. Não quis que esse se tornasse um assunto proibido. Passou por toda a parte do enterro e da missa, para que vivesse o próprio luto. Depois, quando ela e o marido sentiram que estavam preparados, decidiu tentar novamente. Hoje, ela está grávida de seis meses de um menino. 

“A gente vai levar a missão de tentar tirar algum tipo de amadurecimento e preparação. Naqueles oito meses, a gente foi muito feliz e abrigou uma pessoa. De alguma forma, a gente pode ajudar nessa passagem”, reflete.

Neste Dia das Mães, ela aceitou participar dessa reportagem porque quer ajudar outras mães que passam pelo mesmo. 

Na maior parte das pesquisas na internet, sempre encontrou textos sobre a perfeição da maternidade – especialmente, sobre o encantamento da gravidez. Não era nada que a preparasse para o que viveu. “As mães que se passam por isso se sentem sozinhas, como se fosse uma coisa anormal. Quando você vai a fundo, vê que não é tão anormal assim. Você vê que acontece muito, só não se divulga”. 

Estou vivendo uma perda. Onde posso encontrar assistência psicológica gratuita ou a preços sociais?

Centros de Atenção Psicossocial (Caps) -  Serviço de saúde mental aberto e comunitário do Sistema Único de Saúde. Precisa ser encaminhado pela Unidade de Saúde da Família da região de moradia da pessoa que precisa de ajuda.

Cras (Centro de Referência de Assistência Social) – Atende famílias em situação de vulnerabilidade social. Telefone: 3115-9917 (Coordenação estadual) e 3202-2300 (Coordenação municipal) 

Creas (Centro de Referência Especializada de Assistência Social) – Atende pessoas em situação de violência ou de violação de direitos. Telefone: 3115-1568 (Coordenação Estadual) e 3176-4754 (Coordenação Municipal) 

Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública - Av. Dom João VI, 275, Brotas / Tel: 3276-8259/8298
Serviços: Psicoterapia individual (todas as faixas etárias) e Grupo terapêuticos.
Obs: Atendimento gratuito (no momento, devido à grande fila de espera, novos pacientes não estão sendo aceitos) ou a partir de R$ 40,00. Tem marcar a triagem de R$ 35,00. 

Núcleo de Estudos e Práticas Psicológicas (Nepsi) da Unifacs - Endereço: Avenida Cardeal da Silva, nº 132, Federação / Tel: 3271-8119 ou email: neppsi@unifacs.br/ Serviços: Psicoterapia individual, conjugal, familiar, psicodiagnóstico e orientação profissional
Obs: Gratuito ou preço simbólico. 

Faculdade Ruy Barbosa - Endereço: Rua Theodomiro Batista, 422, Rio Vermelho / Tel: 3205-1745
Obs: Gratuito 

UFBA - Universidade Federal da Bahia - Endereço: Rua Professor Aristides Novis, 197, Federação (São Lázaro) / Tel: 3235-4589 
Obs: Gratuito ou preço negociado

Fonte: Conselho Regional de Psicologia da 3ª Região

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