'Apontaram fuzis pra gente' diz refém de bandidos em Castelo Branco

salvador
22.12.2020, 15:12:00
Atualizado: 22.12.2020, 20:32:25
(Arisson Marinho/CORREIO)

'Apontaram fuzis pra gente' diz refém de bandidos em Castelo Branco

Eles invadiram agência da Caixa e explodiram

Na mira de fuzis, 25 rodoviários permaneceram com os rostos virados contra a parede, numa tensão que durou aproximadamente 15 minutos. O tempo foi suficiente para uma quadrilha usar um ônibus para bloquear uma rua e, em seguida, explodir a agência da Caixa Econômica Federal do bairro de Castelo Branco, na madrugada desta terça-feira (22). Motoristas e cobradores eram transportados para as garagens, onde iniciariam o trabalho, quando o ônibus foi interceptado por aproximadamente 15 homens mascarados. 

Esta foi a terceira vez que bandidos usaram explosivos para roubar a agência de Castelo Branco. No dia 8 deste mês, eles chegaram em pelo menos dois carros e dinamitaram um dos caixas eletrônicos. Em maio, a agência foi alvo de uma explosão e uma tentativa de furto. Já desta vez, o estrago foi bem maior. As explosões – foram três no total – destruíram toda a parte interna do prédio. Não há informações se os criminosos conseguiram fugir com dinheiro. 

Como a Caixa é uma instituição federal, a investigação está a cargo da Polícia Federal (PF). Em nota, a PF informou que os recentes ataques a agências da Caixa Econômica Federal estão sob investigação, não sendo possível, neste momento, “a divulgação de maiores informações sob pena de prejudicar o trabalho investigativo”. 

Reféns
A ação dos bandidos aconteceu na 1ª Etapa de Castelo Branco. A cobradora S.T.S, 45 anos, uma das reféns do bandidos, contou que ônibus da panha, que recolhe os funcionários em suas residências e os leva para o trabalho, transportava, em média, 25 rodoviários para quatro garagens da OTTrans – a G1, em Pirajá, a G3 em Campinas de Pirajá, a G6, que fica próxima à estação do metrô de Pirajá e a G2, na Avenida San Martin.

“Não chegamos em nenhuma das quatro garagens. Chegaram silenciosamente. Quando a panha apontou na praça, eles apontaram os fuzis para a gente. Mandaram atravessar o carro (ônibus) no meio da rua”, contou a cobradora.

Ela acredita que os bandidos pegam os ônibus nesse horário por ser uma maneira mais fácil de garantir que terão reféns, já que a agência bancária fica em área com pouca circulação de carros e pessoas na madrugada.

O ônibus ficou atravessado perto de uma sinaleira, a cerca de 150 metros da agência da Caixa. No momento em que os rodoviários foram obrigados a descer, a cobradora disse que deu para visualizar rapidamente a ação tática dos bandidos. Enquanto três homens mandavam todos virarem de costas para a parede de um estabelecimento comercial, os demais estavam divididos em três grupos: dois estavam posicionados em cada lado da pista, enquanto o último grupo se aproximava da agência. 

“Depois, não vi mais nada. Eles só diziam que não queriam nada da gente. Falavam apenas para a gente fazer tudo o que queriam, que seríamos libertados em seguida. Nisso, escutamos vários tiros e, logo depois, as explosões. Por sinal, foram três e muito fortes”, contou a cobradora.

Após a última a explosão, a quadrilha fugiu em modelos de carros não informados e deixando os reféns. “Agradeço a Deus pelo controle emocional que tive para acalmar meus colegas. Um deles passou mal e desmaiou. Foi preciso acionar uma equipe do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). Depois que todo mundo foi para casa, foi aí que desabei, que caí na real de tudo que aconteceu”, contou ela. 

Após o episódio, todas as vítimas foram ao Grupo de Repressão a Roubos a Coletivos (Gerrc), onde registraram um boletim de ocorrência. Através de nota, a Polícia Civil informou que “todos os atos relacionados ao fato ocorrido na agência bancária de Castelo Branco, assim como outras da rede Caixa, serão investigados pela Polícia Federal, ainda que ocorra apoio da Polícia Civil”. 

Já a Polícia Militar respondeu que o Cicom acionou policiais militares da 47ª Companhia Independente da PM (CIPM/Pau da Lima), com informação de que homens explodiram uma agência bancária, localizada na 1ª Etapa do bairro de Castelo Branco.

“As guarnições estiveram no local, com o apoio da 50ª CIPM e Companhia Independente de Policiamento Tático (CIPT) – Rondesp/Central, constataram a veracidade do fato, mas os criminosos haviam fugido. Os policiais realizaram buscas nas imediações, porém os suspeitos não foram localizados”, disse trecho da nota.

Moradores
Horas após a explosão, curiosos passaram a acompanhar o trabalho de levantamento do estrago na agência por conta das explosões. Por conta do impacto, as portas e janelas de vidros foram estilhaçadas e arremessadas no entorno do prédio. Todo o teto veio ao chão e tudo que de metal ficou retorcido ou partido ao meio. Além de toda a fiação exposta, equipamentos em geral foram inutilizados. Funcionários de uma empresa de engenharia foram acionados para retirar os destroços. Agentes da Polícia Federal e da própria Caixa não quiseram falar sobre assunto.

Moradores da região aceitaram falar na condição de anonimato. "Minha mãe que é doente acordou perguntando: 'O que foi isso?'. A primeira foi mais fraca, mas o suficiente para acordar todo mundo. O segundo foi mais forte e houve tiros. E a terceira explosão foi a pior de todas. Pensei que minha casa iria desabar", contou uma dona de casa que reside na Rua dos Franciscanos, situada há dois metros da agência. 

Uma ambulante que mora na Rua Genaro de Carvalho, que fica em frente à agência, guarda mentalmente e fisicamente as lembrança do ataque desta madrugada. "A minha casa balançou três vezes. O zumbido ainda está na minha cabeça. Estava dormindo em paz, em Cristo. Depois, parecia que o mundo ia acabar", relatou. 

Os ataques à agência preocupam os moradores. "A Caixa vai acabar fechando a agência. O prejuízo está sendo muito grande para eles. Não sei se vão aguentar, querer manter a agência num local que já foi atacada três vezes. Se retirarem, será muito ruim para nós. É o único banco que a gente tem aqui", disse um aposentado enquanto olhava os destroços.

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