Após recorde de abstenção, educadores alertam para riscos de não fazer o Enem 2021

enem
18.08.2021, 05:45:00
Mesmo com os protocolos de segurança, abstenção no Enem 2020 foi recorde em todo o país (Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

Após recorde de abstenção, educadores alertam para riscos de não fazer o Enem 2021

Mais de 50% dos candidatos faltaram nos dois dias de prova em 2020

Fazer as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é sempre uma experiência importante para os candidatos. Ao menos, é assim que pensa Dielson Hohenfeld, diretor do Departamento de Ensino Superior e professor de Física do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFBA), que defende que os estudantes não devem perder a oportunidade de fazer a prova, mesmo que seja para treinar. "Não se perde nada fazendo o Enem. Pelo contrário, se ganha, pelo menos, em experiência", diz.

Com a pandemia que ainda não terminou, educadores e outros profissionais que lidam com a preparação para as provas, se preocupam que os índices de abstenção no exame deste ano sejam tão altos quanto na edição passada. O Enem de 2020 foi marcado por grande desistência entre os baianos. De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pelo exame, 51% e 53,7% dos inscritos em 2020, respectivamente, não compareceram no primeiro e no segundo dia. Por aqui, no primeiro dia, dos 444.744 candidatos inscritos, só 217.915 fizeram prova. Já no segundo, apenas 205.918 tentaram a sonhada vaga no ensino superior. 

A marca negativa, dizem os profissionais de educação, teve relação direta com a pandemia e a adoção do ensino remoto, o que desestimulou muitos estudantes. Desistir da prova foi uma decisão que, para quem trabalha no processo preparatório para o Enem, trouxe dois danos diretos: além de não tentarem a aprovação, os estudantes deixaram de se preparar para as edições posteriores.

Treinamento

"É importante que o estudante vivencie este momento do Enem que, em geral, causa nervosismo. Indo ao exame, ele ganha experiência e pode otimizar a preparação porque aquele momento deixa de ser novo e a carga emocional afeta menos o seu desempenho", afirma Dielson Hohenfeld.

Professor de Língua Portuguesa em colégios como Mendel, Análise e Lince, Luís Alberto usa o latim para afirmar que deixar de fazer o Enem é dormir no ponto e ficar mais distante da futura aprovação.

"Tem uma frase que gosto muito que é 'Dormientubu ossa', que significa `ossos aos que dormem` e foi criada em um contexto de caçadores. Acho que é válida para dizer que, em um ambiente de grande concorrência, o candidato precisa se submeter à prova porque, ainda que não passe, é parte importante no processo para que consiga sua vaga na universidade". 

Luis acredita que candidatos não devem faltar mesmo não se sentindo preparados

(Foto: Reprodução)

Marcos Raggazzi, diretor executivo das unidades escolares do Colégio Bernoulli, também ressalta a importância dos inscritos não desistirem e cita outras oportunidades que podem ser alcançadas através do Enem: "Se as condições de segurança protocolares forem atendidas, o aluno só tem vantagens em fazer. O Enem é por onde você garante financiamento nas universidades no Fies e no ProUni. É a nota do Enem, inclusive, que algumas universidades portuguesas usam como critério para aceitar estudantes de fora, por exemplo", explica. 

Desistências

Ciente do valor da experiência de fazer o exame, Beatriz Fróes, 18, não conseguiu ir até o local de realização no primeiro dia do Enem 2020 por questões de saúde. "Tive crise de ansiedade e não consegui comparecer no dia.  Para ser sincera, não estava com medo da contaminação (por covid-19), foi pelo medo da prova mesmo. Eu ia fazer como teste, mas, como era minha primeira vez, estava com receio", lembra a estudante, que só conseguiu comparecer ao segundo dia.

Elizeu Pereira, 18, se absteve no primeiro e segundo dias em 2020. O estudante da rede estadual se desestimulou ao ver as aulas passarem para o regime remoto e, depois, paralisarem por um longo período, o que o fez não se sentir pronto para a aprovação. "Por causa da pandemia, tive problemas. Não consegui ir porque não estava preparado. Quando a aula era presencial, eu me sentia preparado. Depois que isso mudou, não consegui me concentrar nos estudos e me desanimei de ir ", conta.

O mesmo aconteceu com Antoniel Almeida, 19, estudante da rede estadual que perdeu confiança pela confusão que virou o seu processo preparatório para o Enem e desistiu no meio do caminho. "A falta de preparação me deixou inseguro e os casos de covid-19 me deixaram com medo. Esses foram os dois principais fatores para mim. Com o início da pandemia, foi difícil me adaptar ao estudo em casa e, na época do Enem, ainda tinha uma circulação alta de casos e muitas mortes, por isso preferi não ir", lembra ele, que quer cursar psicologia. 

A escolha de Antoniel o tirou das edições de 2020 e 2021. Isso porque o jovem não justificou a ausência na prova passada e perdeu o direito à isenção para fazer o Enem este ano. "Eu não me atentei ao prazo para justificar minha ausência e esse ano eu perdi a isenção. Eu até queria fazer, mas não vou poder. Então, agora tô me preparando e concluindo o ensino médio para tentar novamente no próximo". 

Elizeu também não vai fazer o exame em 2021. No caso dele, o problema não foi a isenção, mas sim o fato de o estudante não estar disposto a tentar o Enem. "Esse ano também não deu certo. Eu nem pensei em me inscrever, preferi não fazer porque eu continuo não estudando porque não deu. Aí decidi que não ia fazer", afirma

No caso de Beatriz, a possibilidade de não fazer a prova, se depender da vontade dela, é zero. "Vou fazer com certeza.  Eu pretendo cursar medicina, então essa prova é muito importante. Comecei a terapia para tentar melhorar essa questão da ansiedade ". 

Queda alta em relação a 2019

O segundo dia de provas do Enem em 2019 teve um índice de abstenção de 27.3%, o que correspondeu a 107.954 alunos que faltaram à prova. Em 2020, o segundo dia de exames registrou 238.826 ausências, 53,7% dos inscritos, quase o dobro do ano anterior. A primeira prova de 2020 não foi feita por 226.829 candidatos ou 51% dos inscritos; enquanto em 2019, no primeiro dia, faltaram 92.695, ou 23,4% dos estudantes.

O volume de desistências, no entanto, já era esperado por quem trabalha diretamente com a preparação para os exames. Luis Alberto, professor de Língua Portuguesa em diversos colégios de Salvador, por exemplo, conta que meses antes do exame já havia indícios de que muitos estudantes desistiriam de comparecer. 

"Eu trabalho na rede privada, mas colegas da rede estadual comentaram ao longo do ano que havia um número alto de alunos que estavam desistindo. Muito porque, em crises como essa [a pandemia], quem mais sofre é quem tem menor poder aquisitivo e teve a preparação ainda mais afetada, o que deixou a autoestima baleada, fazendo a desistência crescer", acredita. 

Dielson Hohenfeld, do IFBA, também diz que a abstenção elevada já era esperada por conta da dificuldade que muitos estudantes tiveram para se preparar. "Em discussões que tínhamos, havia até o pedido para que não houvesse o Enem. As desigualdades se intensificaram na pandemia e limitaram o acesso à educação, o que impactou diretamente no comparecimento dos estudantes na prova. Sem contar isso, tinha ainda a situação sanitária que não inspirava confiança e também impactou na abstenção", afirma. 

Conteúdos especiais para a revisão

O Revisão Enem é um projeto multiplataforma - impresso, digital e redes sociais - do CORREIO em parceria com a SAS, plataforma de educação, com o objetivo de auxiliar os estudantes no preparo para as provas.

O projeto traz conteúdos especiais com reportagens, artigos, dicas para a redação e de livros, filmes e séries que têm relação com o exame; além de estratégias de resolução de questões. Há também um canal especial que reúne todos os simulados e videoaulas para os alunos. 

O Enem exige uma rotina intensa de estudos. Por isso, o CORREIO disponibiliza uma série de simulados interativos, com questões objetivas para os estudantes testarem os seus conhecimentos. Os alunos podem acompanhar semanalmente a resolução das questões, conferir os gabaritos e analisar seu desempenho, além de revisitar as questões no dia e hora que quiserem.

Nas redes sociais (@correio24horas), o jornal traz conteúdos nos grupos de leitores do Whatsapp e vídeos no Instagram/IGTV com dicas sobre como fazer a redação dentro das competências avaliadas no Enem e também o Raio X do ENEM, que tira dúvidas de cada disciplina.

Conteúdos da 3ª semana já estão disponíveis:

- Simulado
- Vídeo aula 
- Vídeo direto ao ponto

*Com a orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas