Após ter 300 quilos de bronze roubados, Monumento ao Dois de Julho é restaurado

salvador
06.09.2019, 15:31:00
Atualizado: 06.09.2019, 19:39:26
(Monumento levou seis meses para ser restaurado (Foto: Marina Silva/CORREIO))

Após ter 300 quilos de bronze roubados, Monumento ao Dois de Julho é restaurado

Escultura passou por seis meses de intervenções; peça foi reinaugurada nesta sexta-feira (6)

No alto, a representação de um povo que lutou pela independência diante da Corte portuguesa. Com uma lança em punho, o índio vem acompanhado, logo abaixo, de uma mulher – ela, por sua vez, é a própria Bahia. Do outro lado, a índia Catharina Paraguaçu, que não participou das batalhas, mas mostra a participação feminina em cada uma delas. 

Nos mosaicos, as incursões e tomadas de balsas portuguesas tanto na Ilha de Itaparica quanto em Cachoeira, no Recôncavo. O Rio São Francisco também está ali, personificado por um homem velho. Entre eles, um punhado de leões, exibindo a força e a energia dos combatentes. Tudo isso compõe o Monumento ao 2 de Julho que, à época de sua inauguração, em 1895, era o mais alto de toda a América Latina. Só que, no meio da Praça do Campo Grande, a escultura de 25 metros enfrentou batalhas diferentes, nos últimos tempos.

Foi pichada, vandalizada mais de uma vez e chegou a ter 300 quilos de bronze roubados. Agora, a obra foi completamente restaurada. Após seis meses de um trabalho de 15 restauradores e um investimento de R$ 829 mil, em recursos municipais, o monumento foi reinaugurado na manhã desta sexta-feira (6).

O prefeito ACM Neto e o presidente da FGM, Fernando Guerreiro, anunciaram o tombamento da escultura (Foto: Valter Pontes/Secom)

“Quem não se lembra de como estava esse monumento há pouco tempo? Mas não era só o efeito do tempo: o efeito do tempo a gente entende e, enquanto poder público, a gente tem que ir proteger o patrimônio histórico e cultural. Mas também aqui estavam presentes as marcas dos homens. Esse efeito é lamentável porque, aqui, nós tínhamos muito material que foi roubado e violentado”, afirmou o prefeito ACM Neto, durante a cerimônia de entrega. 

A restauração envolveu a reposição de peças danificadas e furtadas, limpeza e pinturas, além da recuperação da pavimentação, dos postes e luminárias. Uma placa com QR Code foi instalada ao lado, para que visitantes e moradores acessem informações sobre o monumento. 

O processo foi liderado pelo restaurador José Dirson Argôlo, professor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Foi Argôlo quem tinha feito a restauração do monumento pela última vez, em 2002. De acordo com ele, os cenários encontrados nos dois momentos foram completamente diferentes. 

Enquanto em 2002, os problemas maiores estavam nas pedras, pias e conchas em mármore, em 2019, os principais danos foram ao bronze. Asas de águias, o remo do homem que representa o Rio São Francisco, rabos de leões, o jacaré e peças decorativas foram furtadas.

Até a coroa do índio, no topo da obra, tinha sido furtada (Foto: Marina Silva/CORREIO)

“Até na parte alta, conseguiram levar uma coroa da cabeça do caboclo. Foi um vandalismo impressionante. Por isso, o trabalho maior foi recompor, nos mínimos detalhes, essas peças”, explica Argôlo. 

A primeira fase foi refazer as obras em barro, depois em resina e, finalmente, fundir em bronze. Além disso, tanto o metal quanto o mármore, afetados pela poluição atmosférica e por dejetos de pombos, foram limpos com microesferas de vidro, uma tecnologia italiana. 

Tombamento
O presidente da Fundação Gregório de Mattos (FGM), Fernando Guerreiro, anunciou que o monumento será tombado pela prefeitura. Para ele, trata-se do monumento mais importante do estado. 

“A recuperação dele traz de volta a identidade e a memória de Salvador. Agora, temos que lembrar de uma coisa chamada conservação. Claro que a gente tem que estar com a Guarda Municipal colada, mas os moradores têm que estar junto e devem evitar dar comida a pombos perto do monumento. As fezes dos pombos são ácidas e destroem o monumento”, alertou Guerreiro. 

O prefeito ACM Neto informou, ainda, que a Guarda Municipal vai acompanhar o monumento 24 horas por dia. Nesta sexta-feira, também foi inaugurada uma base da corporação na praça, com sistema de videomonitoramento. 

“Vamos ter essa parceria com a Cogel (Companhia de Governança Eletrônica) para que nenhum espaço dessa praça fique sem o acompanhamento, o olhar e a proteção da prefeitura”, disse o prefeito. “Nenhum país pode ser grande e exigir respeito se não investe na cultura e não preserva seu patrimônio histórico. E nós temos feito isso em Salvador inteira”, reforçou Neto. 

O monumento foi entregue na véspera da data da Independência do Brasil (Foto: Marina Silva/CORREIO)

A restauração do monumento era uma demanda de moradores da região, de acordo com o líder comunitário Zanoni Ferreira, 59 anos, que mora no Canela, nas imediações do largo, há 42 anos. “Há dois anos, vi que tinham furtado uma placa. Depois, infelizmente, houve outros atos de vandalismo. Achei excelente, o restaurador é muito eficiente. Agora, espero que seja tombado”, disse. 

O psicólogo Francisco Chagas, 59, e a arquiteta Rosa França, 57, aproveitaram para fotografar o monumento. Nos últimos meses, devido às obras, a escultura estava parcialmente coberta por tapumes. “O Dois de Julho é a festa mais importante da Bahia. Moro aqui há 15 anos e esse monumento representa a alma do baiano”, afirmou Francisco. 

Moradora do Campo Grande há nove anos, a professora Tatiana Magno, 36, também acompanhou a reforma. Agora, diz esperar que seja conservado pela população.

“Estava muito sujo, depredado, faltavam algumas peças e tinha lâmpadas quebradas. Ficou bonito para uma das praças que é uma das mais importantes e maiores da cidade”, completou. 

O Monumento ao Dois de Julho foi todo criado na Itália pelo artista italiano Carlo Nicoli y Manfredini, então vice-cônsul do país no Brasil. Com estética neoclássica, foi construído nas cidades de Pistóia e Carrara e transportado nos lastros de navios até ser montado em Salvador. As únicas peças feitas no Brasil são as bases dos candelabros. Erguidos em granito, vieram da Serra de Itiúba - hoje Itiúba, na região de Senhor do Bonfim.
 


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