Às vésperas do Dia dos Namorados, Salvador olhou pra Crush e disse: 'adeus, bê'

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09.06.2019, 06:30:00
Atualizado: 21.06.2019, 19:40:15

Às vésperas do Dia dos Namorados, Salvador olhou pra Crush e disse: 'adeus, bê'

Velejador relembra histórias do píer, como a vez em que casal caiu com carro no mar

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Se Veneza é mesmo a cidade mais romântica do mundo, Salvador, nossa Roma Negra, poderia ganhar o título de Cidade Insensível. Coração de gelo, indiferente, distante...

É claro que isso é uma grande brincadeira, tá okay? Acompanhe comigo neste mesmo canal que explico.

A capital da Bahia sempre foi conhecida por aproximar casais. Seja pelas suas belezas aconchegantes, noites quentes ou pelos amores intensos e fugazes, fortalecidos nos dias de Carnaval e acentuada libido. Mas era tudo cilada, binho.

No meio desta semana, a cidade tomou uma de suas decisões mais difíceis em 470 anos de vida. Terminou com a Crush, sem deixar sobrar nenhum caco. E isso justamente às vésperas do Dia dos Namorados!

É verdade que a relação andava bem desgastada, corroída pelo tempo e, quem via de fora, não tinha dúvidas que não havia mais salvação. Pelo bem dos dois, precisava acabar.

E assim foi feito. O término foi bem rápido, até. No sábado, 1º de junho, o Bahia Meio Dia, na TV Bahia, exibiu uma reportagem de Vanderson Nascimento mostrando uma lista de problemas gritantes com a Crush.

A DR durou pouco. Na terça-feira, três dias depois, uma escavadeira foi acionada e, bastou umas leves pancadinhas na estrutura, pra tudo ir abaixo.

Crush virou moda
O termo Crush, em inglês, quer dizer “esmagar”, “colidir”. Tem outro significado também: indica um amor bem correspondido entre duas (ou mais, vai saber) pessoas.

Desde a chegada dos aplicativos de paquera aqui no Brasil, esta palavra entrou no vocabulário da moçada jovem e descolada. É um tal de “meu crush” pra lá, “dar uns beijos no meu crush” pra cá e “menina, não tô conseguindo dar conta dos meus dez crushes” acolá.

Em Fortaleza (CE), tem coisa de pouco mais de três ou quatro anos que a famosa Praia de Iracema (nome escolhido em homenagem a um dos célebres livros do escritor José de Alencar) passou a ser chamada informalmente de Praia dos Crushes.

Em resumo, virou o pico da paquera na capital cearense. E parece até sina. Mais uma vez, a índia (representada pela personagem nome do livro) perdeu terreno para um estrangeiro.

Mas Salvador, man, é outro esquema. Antes dos aplicativozinhos de paquera, da modinha com o nome in english, e dos efebos cheios de amor libertário, a capital da Bahia já tinha seu próprio point.

A Ponte do Crush, no bairro da Ribeira, existe desde a década de 1940. Não há registro exato de sua fundação, mas acredita-se que tenha sido em 1948, por obra da empresa agrícola Monsanto, instalada ali no bairro.

Para escoar seus produtos até o Porto de Salvador, sem precisar passar pelas ruas de difícil acesso da Cidade Baixa, a dita cuja construiu uma ponte que servisse para levar a mercadoria até um barco e, de lá, chegar nas docas.

Foto: Reprodução/TV Bahia

Do caralho mesmo é que a Monsanto não durou muito tempo na Ribeira. Em seu lugar, uma fábrica de bebidas montou guarita no mesmo espaço.

Essa fábrica era dos refrigerantes Crush, que produzia um refrescante gasoso no sabor laranja. Daí, foi um pulo pra o píer passar a se chamar Ponte do Crush.

Foto: Reprodução

Uma segunda história reclama que a ex-ponte se chamava, na verdade, Ponte do Cruz. Isso por conta do seu formato em “T”, idêntica ao calvário de Cristo.

Entre os próprios itapagipanos, no entanto, essa versão alternativa tem pouca importância. O argumento é simples: de católica, a ponte não tinha absolutamente nada.

Lugar de paquera
Um famoso cinegrafista aqui de Salvador, à sombra do anonimato, garante que nas cercanias da Ponte do Crush se formavam longas filas de casais afoitos para se enrabicharem pelo deque.

Diz ele também que, tempos depois, as filas passaram a ser de carros, e foi justamente por conta do movimento frenético dos amortecedores que as vigas foram avariando.

Raul Veloso, conhecido velejador da Ribeira, nasceu na Cidade Baixa em 1957. A Ponte do Crush faz parte de sua vida desde então.

Ele conta que, uma vez, um casal foi com tanta sede ao pote que o possante desengrenou e foi parar dentro d’água.

“Não teve jeito do carro ser recuperado. Perdeu completamente, mas por sorte tinha seguro. Se quiser, revelo a marca do carro e o proprietário. Posso?”, brinca, sem dizer.

Seu Raul, velejador, relembra histórias da Ponte do Crush (Foto: André Uzêda)

A Ponte do Crush foi cenário para muitas “primeiras vezes”. Era ambiente certo para fotografias de casamento, escapulidas noturnas e até pra quem ainda não tinha intimidade com o mar.

“Era uma tradição aqui na Ribeira. Perguntavam ao menino novo se ele sabia nadar. Se ele dissesse que não, os outros rumavam ele de cima da ponte pra dentro d’água. Uma geração enorme aprendeu a nadar exatamente desse jeito”, conta Veloso.

A Secretaria de Obras Públicas estuda a melhor forma de construir uma nova estrutura na Praia da Ribeira, exatamente no mesmo lugar da antiga. Os moradores acreditam que seja uma boa solução pra suprir a tão sentida ausência.

Por outro lado, há quem interprete que, com isso, Salvador revele mesmo ser uma cidade sem coração. Às vésperas do Dia dos Namorados, vai trocar a Crush oficial por uma novinha.

[Essa crônica do Dia dos Namorados é dedicada a Júlia Sarmento. Minha crush, até debaixo da ponte].

***

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