Até que a chuva cesse

kátia borges
16.01.2022, 05:02:00

Até que a chuva cesse

Frequentemente escrevo para mim mensagens sem assunto. É comum abrir a caixa de e-mails e ver inúmeros desses envios. No remetente consta apenas “eu”. Normalmente são apenas esboços. Poemas para um livro novo, trechos que pretendo usar em textos longos, uma crônica, um romance, um conto. Alguns pulam direto do bloco de notas do celular como se fossem atletas de saltos ornamentais.

Quando releio, parece que os capturei durante uma pirueta no ar, pouco antes do mergulho. Observo a plataforma de onde se lançam, alguns hesitantes ainda estão lá, tremendo de medo, medindo a altura do salto. Ando sem paciência para fazer ou responder perguntas. Deixo que a vida siga seu curso sem avistar sombra de mar. Já repararam como há fases em que vários eletrodomésticos quebram?

Parece até que combinaram, no escuro da cozinha, um conluio. Trocamos três de uma vez só, pois não havia conserto ou, para ajeitar, cobravam quase o valor de um novo. Nesses casos, sofre-se no bolso, mas a casa continua a funcionar como um lugar perfeito. No ritmo do maquinário, barulhos que acalmam mesmo se interrompem o sono. Feito esses ruídos artificiais de chuva via streaming.

Sempre que chove penso no lençol de plástico gigante rente ao telhado, preso com fios grossos de barbante às vigas de madeira do teto. Sobre a cama, um céu de inverno. Poças de água se acumulando durante a noite, retidas no anteparo transparente. Como era belo, esse oceano surreal. Lições de ver beleza em tudo. No aquário da infância, espécies raras de peixes. A cuidadosa enxurrada do dia seguinte.

Às vezes recebo com alegria as minhas próprias mensagens. É como se um estranho as escrevesse e me enviasse. Penso: eis alguém que sabe. Sim, alguém imperfeito nesse planeta solitário de bilhões de seres e eletrodomésticos inquebráveis. Manda notícias de quem sou, esse “eu”, e diz de longe “aqui estou”. Imagino então a sua face, o rosto da menina selvagem, olhando para o alto até que a chuva cesse.

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