Aterro sanitário de Salvador produz biogás para termelétrica

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28.11.2013, 07:27:00
Atualizado: 28.11.2013, 07:38:08

Aterro sanitário de Salvador produz biogás para termelétrica

O biogás utilizado para a produção de energia é uma mistura de metano e gás carbônico, dois vilões do efeito estufa, produzido durante a decomposição do lixo orgânico no interior do aterro

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Wladmir Pinheiro
wladmir.lima@redebahia.com.br


Quando começou a operar em janeiro de 2000, o aterro sanitário de Salvador recebia, além do lixo doméstico e das ruas, uma infinidade de resíduos de produtos que hoje nem se fabricam mais. Rolos de filmes, disquetes, fitas cassetes, vidros e embalagens plásticas ainda podem ser encontrados lá, debaixo das milhares de toneladas de terra e lixo. Uma memória resistente de tudo o que foi consumido nos últimos 13 anos em Salvador, Lauro de Freitas e Simões Filho.

Com validade para operar até o ano de 2020, o aterro de Salvador é hoje apontado como um dos mais eficientes destinos finais dos resíduos no país. O local coloca a capital baiana e os outros dois municípios da Região Metropolitana na lista das 2.213 cidades que destinam o resíduo urbano em aterros sanitários, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2012, da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). A Bahia possui apenas 90 locais para destinação dos resíduos deste tipo entre 417 municípios.

A Termoverde Salvador foi resultado de investimento de R$ 50 milhões e foi construída em uma área de sete mil hectares pelo grupo Solví. A termelétrica tem potência para gerar 19 megawatts e produz 150 mil megawatts ao ano, o suficiente para abastecer 300 mil casas.

A construção de aterros sanitários é uma das exigências da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). O plano estabelece como meta o fim dos lixões a céu aberto até agosto de 2014 sob risco de multa e até prisão dos prefeitos. O Brasil possui 2.906 lixões em atividade, segundo números do Ministério do Meio Ambiente. A PNRS, aprovada em 2010, determina ainda que todos os municípios tenham um plano de gestão dos resíduos sólidos para ter acesso a recursos financeiros do governo federal.

Diariamente, cerca de 2.800 toneladas de resíduos chegam em viagens ininterruptas nas 12 carretas que fazem o transporte da Estação de Transbordo em Canabrava, primeira parada do lixo coletado, até o aterro, no km 6 da Estrada do Cia-Aeroporto.

Às segundas e terças-feiras são os dias que as carretas fazem mais viagens por conta da produção maior de lixo, segundo explica o gerente operacional do aterro, administrado pela concessionária Bahia Transferência e Tratamento de Resíduos (Battre), Diego Nicoletti. “A população deixa para colocar para fora de casa o lixo produzido durante o final de semana nesses dois dias e por isso a coleta é maior”, explica.

Na caçamba das carretas, que têm capacidade para transportar até 25 toneladas de resíduos, tem espaço para quase tudo, menos para o lixo industrial e hospitalar, cujo alto potencial de contaminação é tratado de outra forma, longe dali. Fora isso, papelão, papel, restos de tudo o que é descartado por casas e apartamentos, além do lixo jogado indevidamente nas ruas e coletados pelos garis, vão parar ali.

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Proteção
A imagem de um aterro sanitário em nada lembra a montanha de lixo associada aos lixões. O local que recebe os resíduos é impermeabilizado com camadas de argila e uma lona plástica altamente resistente evitando que o
chorume líquido produzido durante a decomposição do material orgânico - penetre o solo e contamine lençóis de água.

“É um ambiente altamente controlado para evitar contaminações. O lixo que chega até o aterro vai para o ponto de descarte, que já foi escavado e preparado com processos de impermeabilização e drenagem. O chorume recolhido é transportado até a Central de Tratamento de Efluentes Líquidos (Cetrel), em Camaçari, onde é tratado junto com os efluentes do Polo de Camaçari, e depois descartado pelo emissário submarino”, explica Nicoletti.

A Usina usa o que sobra dos resíduos como combustível para a primeira estação termelétrica de biogás do Nordeste. “A decomposição do lixo orgânico é que gera a maior quantidade de gases. Madeira gera também, mas em menor quantidade”, explica Nicoletti sobre a diferença de contribuição de alguns produtos na produção do biogás.

Biogás
O biogás utilizado para a produção de energia é uma mistura de metano e gás carbônico, dois vilões do efeito estufa, produzido durante a decomposição do lixo orgânico no interior do aterro. Os gases são retirados por tubulações conectadas a um sistema de drenagem responsável por levar o biogás até a Termoverde. Antes, ainda no aterro, passa por uma espécie de pré-tratamento em que é retirada a umidade e partículas ainda em suspensão.

“Os gases resultantes da decomposição procuram um espaço vazio e encontram uma tela que os conduz até os drenos. Esses drenos são responsáveis pela capitação por sucção”, explica Lucas Pinheiro, supervisor operacional do aterro. Em média, são retirados 12 mil metros cúbicos de biogás por dia.

Preparada para transformar esses gases em energia, a termelétrica é composta de usina geradora com 19 motogeradores de 1.038 KW cada, unidade de tratamento do biogás, subestação elevadora. A termelétrica possui em sua ponta final uma linha de transmissão de 7,8 quilômetros que liga a usina à rede elétrica da Coelba, que fará a distribuição às empresas consumidoras.

Mudança
Em 2012, foram produzidas 62 milhões de resíduos pela população brasileira. O número mostra que a geração de lixo cresceu 1,3% de 2011 para 2012, índice superior à taxa de crescimento urbano no país no mesmo período, que foi de 0,9%. Desse total que foi coletado, cerca de 22% foram destinados em aterros sanitários. Apesar de não serem considerados como os destinos mais eficientes para os resíduos, os aterros sanitários são uma op ção mais ecologicamente segura quando comparada aos aterros controlados e os lixões.

Diante do crescimento da produção de lixo no país, a gestão dos resíduos deve passar também por uma questão de consumo, na outra ponta do ciclo do produto. “É preciso saber fazer escolhas corretas. Se programar antes de fazer uma compra, não ir pelo impulso, fazer melhores opções na hora do consumo, conhecer a origem do produto, como ele foi produzido, conhecer a marca. Também fazer opção por produtos que tenham uma matéria reutilizada ou que seja reciclada”, sugere Fábio Góis, da Eco-D.

Segundo ele, apesar de eficiente, o aterro metropolitano de Salvador tem no crescimento da produção de lixo o maior desafio até o fim de sua vida útil. “Só o que a gente precisaria descartar seria o lixo urbano. O restante, plásticos, vidros, metais, pode ser reutilizado. O tempo de vida útil do aterro é de 20 anos, mas se esse consumo aumentar, esse tempo acaba reduzido. Para o aterro, seria muito mais interessante encontrar uma forma de que esse resíduo chegasse de uma forma mais apurada”, explica Góis.

Por que os especialistas trocaram  lixo por resíduo
Fábio Góis, da Eco-D,  sugere mudança de entendimento do resíduo produzido dentro de casa. “Lixo é um conceito de algo que é descartado e nunca mais volta, de algo inútil. É interessante mudar esse conceito para resíduo, que é algo que restou de algum produto e que pode ser utilizado em outro processo. Na década de 1970, as empresas não conseguiam uma produção sem deixar resíduo. Hoje, essas empresas são desqualificadas por não serem eficientes na eliminação de resíduos. Cada resíduo que sobra é custo”, conclui.

Para ele, o Brasil utiliza pouca tecnologia na gestão do lixo sólido urbano. “É um desperdício. Já existe tecnologia suficiente para aproveitar esses resíduos”, acredita. Do lixo coletado por dia, apenas 1,5 tonelada, o equivalente a 0,8%, era transportada para unidades de compostagem no país em 2008, segundo o IBGE.

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