Ato na Lagoa do Abaeté marca Dia de Combate à Intolerância Religiosa

salvador
21.01.2021, 09:32:44
Atualizado: 21.01.2021, 15:59:20
(Arisson Marinho/CORREIO)

Ato na Lagoa do Abaeté marca Dia de Combate à Intolerância Religiosa

Atividade aconteceu em frente ao busto da yalorixá Gildásia dos Santos, a Mãe Gilda

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

Flores, milho branco, e músicas para saudar Iansã. Foi assim o ato simbólico no Parque do Abaeté para marcar o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, nesta quinta-feira (21). A atividade aconteceu em frente ao busto da yalorixá Gildásia dos Santos, a Mãe Gilda, que morreu em 2000 após ser vítima de intolerância religiosa: ataques de ódio e agressões verbais e físicas por integrantes da Assembleia de Deus dentro de seu próprio terreiro, em Itapuã.

Além disso, um ano antes de sua morte, Mãe Gilda teve sua imagem utilizada no jornal Folha Universal, vinculado à Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), com a manchete “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”. A yalorixá se tornou símbolo de resistência e afirmação das religiões de matriz africana, inspirando a criação da data. 

"Tudo isso foi fruto da minha persistência. Somos seis filhos, mas apenas eu acreditou nessa luta. Deixei a minha vida de lado para lutar contra a intolerância religiosa", disse Mãe Jaciara, que é filha de Mãe Gilda e que herdou o legado da yalorixá.

"Essa data é um marco não só de Mãe Gilda, mas de todo o povo que foi arrancado da África, principalmente as mulheres de candomblé que são invisibilizadas por causa dessa intolerância", completou.

O evento foi realizado pelo terreiro Ilê Axé Abassá de Ogum, com a presença de cerca de 50 pessoas, todos vestidos de branco. Antes do ato, o próprio pessoal do terreiro já tinha feito uma ação fechada para saldar a memória de Mãe Gilda. “Todos nós filhos do Abassá de Ogum tem Mãe Gilda como o alicerce da casa. Ela é nosso ancestral maior e referência de vida”, explicou Mãe Pequena. 

Já o ato da Lagoa do Abaeté foi aberto para a população e teve a presença de Fabia Reis, secretaria de Promoção da Igualdade Racial, e o cônego Lázaro Muniz, padre da Igreja Católica. “Estar nesse ato é um sinal de respeito a memória de Mãe Gilda e a todas as religiões, que têm o seu valor e devem ser cuidadas e guardadas de acordo com sua dignidade. Ninguém tem o direito de desrespeitar o outro por sua religião”, defendeu o sacerdote católico.  

Memória 
O local onde o ato aconteceu foi na frente do busto de Mãe Gilda, na Lagoa do Abaeté, que homenageia a yalorixá. No ano passado, o monumento foi alvo de vandalismo. O autor do crime, que não teve a identidade revelada, foi preso e disse que apedrejou o busto "a mando de Deus". Não foi a primeira vez que isso aconteceu, já que em 2016 o busto também foi vandalizado por intolerância religiosa. Naquela ocasião, foram necessários seis meses até que houvesse a restauração. 

(Arisson Marinho/CORREIO)
(Arisson Marinho/CORREIO)
(Arisson Marinho/CORREIO)
(Arisson Marinho/CORREIO)
(Arisson Marinho/CORREIO)
(Arisson Marinho/CORREIO)
(Arisson Marinho/CORREIO)
(Arisson Marinho/CORREIO)
(Arisson Marinho/CORREIO)
(Arisson Marinho/CORREIO)
(Arisson Marinho/CORREIO)
(Arisson Marinho/CORREIO)
(Arisson Marinho/CORREIO)
(Arisson Marinho/CORREIO)

Dados do Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela apontam que em 2020 foram registrados 29 crimes de ódio religioso, totalizando 232 denúncias desde a implantação do serviço, em 2013. O número de denúncias registrado no ano passado foi menor do que o obtido em 2019, mas para Clerisvaldo Santos Paixão, coordenador do centro, isso não é, infelizmente, um sinal de que a intolerância religiosa tem diminuído. 

“Ocorre muita subnotificação e isso é um problema. Nós atribuímos a essa redução o fator pandemia mesmo, pois a maioria dos atos de intolerância religiosa registrados no Centro acontece de forma presencial. Por conta da pandemia houve restrições de mobilidade”, afirma Clerisvaldo.  

Para denunciar ao órgão um caso de intolerância religiosa, é possível ligar para o número 3117-7448 ou entrar em contato pelo e-mail cr.racismo@sepromi.ba.gov.br. “Uma vez que o ato está registrado, a gente presta orientação jurídica à vítima, faz o boletim de ocorrência, e presta assistência psicológica, o que está suspenso temporariamente por causa da pandemia. Também levamos o caso para o conhecimento de órgãos competentes, como o Ministério Público e universidades”, diz o coordenador.   

Durante o ato, a secretária Fábia Reis entregou uma placa de reconhecimento do Governo do Estado ao trabalho realizado por Mãe Jaciara em combate à intolerância religiosa. “Esse dia é fundamental para fortalecer a luta das religiões, garantir a cultura da paz e o direito que as pessoas têm de professar ou não a fé que quiser. É preciso paz e respeito a diversidade reigiosa”, defende Reis.  

*com supervisão da subchefe de reportagem Monique Lobo

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas