‘Autorizada’: ex-BBB se reinventa e assume versão Lumena DJ de pagodão

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06.11.2021, 11:00:00
(Arisson Marinho/CORREIO)

‘Autorizada’: ex-BBB se reinventa e assume versão Lumena DJ de pagodão

O projeto 'Tá autorizado descer até o chão' pretende levar o pagodão baiano, misturado a discotecagem, para além de Salvador

Ela ressignificou o itinerário, se autorizou grandão e está partindo para um nova jornada. Pelo menos cinco das palavras descritas anteriormente foram repetidas a exaustão nos primeiros meses deste ano, principalmente nas redes sociais, em referência à baiana e ex-BBB, Lumena Aleluia (30). Os termos, que se transformaram em verdadeiros memes, voltam à cena para falar da aposta de Lumena ao assumir sua vertente musical de forma profissional. O projeto denominado “Tá autorizado descer até o chão” deve chegar ao público até janeiro de 2022 e tem, desde a concepção, a promessa de “autorizar” o pagodão baiano, misturado a discotecagem, para além das nossas fronteiras.

Em entrevista exclusiva ao Correio, Lumena fala sobre o novo projeto, reflete sua trajetória subjetiva após o “cancelamento” na internet, bem como o atravessamento racial do fato. “Precisei separar o que era crítica do jogo e o que era crime de ódio que eu tinha sido vítima na internet. Eu fui para um reality para ser julgada, mas não para ser massacrada”, diz.

No mês em que se celebra o Dia da Consciência Negra, destaca a importância de iniciativas como o Afro Fashion Day, organizado pelo Correio, no qual já participou como jurada, e o papel da moda como espaço de visibilização dos corpos negros. “São colheitas de lutas de pessoas que antecederam a gente e falaram da importância da autoimagem, autoestima. Esse lugar de visibilidade, sobretudo com a moda, salva vidas, salva projetos, salva meninos e meninas”.   

Veja a entrevista na íntegra:

O que é esse novo trabalho, essa nova versão de si que você promete trazer para fora?
Só com 30 anos que estou tendo a coragem de falar para mim mesma, e para os meus pares, que a arte me complementa nesse lugar profissional também. Não é mais um hobby. Desde pequena eu tive uma relação muito forte com a dança, tanto que fui participar o Ilê Ayê, fui eleita a rainha do Araketu. Quando eu migrei para o Rio de Janeiro eu senti saudade da Bahia e busquei uma forma de me reconectar. Falei ‘vou virar DJ’. As pessoas não sabem o que é pagodão baiano. Decidi apresentar carinhosamente essa musicalidade, que é uma viagem que associa pagodão das antigas, um pouco de pagofunk, pagotrap. E chegou a hora de eu me autorizar a fazer músicas autorais. Nada mais justo do que convidar compositores baianos, produtores musicais que entendem essa essência na musicalidade baiana para juntar forças e a gente brincar com ‘tá autorizado descer até o chão’. Botar isso no pagodão, brincar um pouco com os memes e aí, sim, ressignificar e apresentar as lumenas que não foram apresentadas no Big dos Bigs.

A proposta também tem uma tendência audiovisual?
O projeto inicialmente é essencialmente musical. Vamos brincar com o “Lumena autorizou”. Eu consegui fechar a sensação que eu sentia que estava faltando no meu projeto como DJ de pagodão, que é levar essa camada do pagodão baiano a nível nacional. As pessoas têm muita dificuldade de entender as especificidades e a importância do que é o axé, o samba-reggae, do que é o pagodão. São musicalidades que falam de um memória, de uma memória ancestral, uma musicalidade ancestral de terreiro. E eu quero conectar o meu público, que é muito de outros lugares, com essa mensagem, essa potência que o pagodão aciona nos corpos.

O que esse pagodão que você pretende fazer e levar para fora como a face da Bahia tem de diferente, tem de Lumena em essência? São as letras?
Sem dúvida. A gente está vivendo um momento de disputa de narrativas e de protagonismo. É muito comum que esse protagonismo do gênero na música e, sobretudo, na produção musical ainda seja dos homens, mas eu sinto que a gente começa a colher alguns frutos da participação feminina no pagodão baiano. A minha disputa eu acho que ela é bem mais específica por ser no âmbito da discotecagem. Nesse nicho também, para variar, Lumena pagando de diferentona. Já é difícil ser DJ, e ainda levando essa essência do pagodão se mostra mais desafiador ainda.

"O povo me olha como um bicho estranho. Mas esse foi um ano de me desafiar. Não à toa, todos os produtores que estão trabalhando comigo estão tendo o cuidado de produzir uma narrativa que seja, de fato, uma letra direcionada. É uma mulher, ali, brincando". 

A proposta é musical, mas mergulhada nesse cruzamento entre gênero e raça. Desse seu atual lugar de fala, o que é ser mulher negra no Brasil hoje?
Aos 30, eu acho massa trazer também o debate geracional, é saber como liga o modo responsabilidade que isso impacta. Foi muito pesado saber como isso impacta e dar conta do peso da racialidade na minha história de vida, me dar conta do peso da sexualidade na minha história de vida, dar conta do peso regional quando eu saio de Salvador e entendo o significado de ser uma mulher nordestina fazendo os corres lá fora, da própria religiosidade. Mulher negra, de candomblé, não heteronormativa. E pensar também como a arte pode falar disso de forma leve. Hoje em dia ser mulher negra, e estar disputando esses lugares profissionais, é uma ato de coragem. É uma palavra que me organiza muito. Voltar à Bahia tem a ver com o tomar fôlego, retomar o combustível  para continuar tendo coragem de apresentar as lumenas que continuam fazendo sentido, entre elas a Lumena DJ de pagodão.

"O que eu precisei fazer foi separar o que era crítica do jogo e o que era crime de ódio que eu tinha sido vítima na internet. As pessoas meio que se aproveitaram ali para confundir um pouco. Eu fui para um reality para ser julgada, mas não para ser massacrada".

Você falou de coragem e humanidade. Quem são suas referências?
Mulheres incríveis que eu tenho a oportunidade de ter na minha história de vida. Minhas lideranças religiosas. As pessoas querem saber quem me apoiou no processo do BBB. Minha família de santo, sem dúvida. Quando a gente sai do reality é acreditando que é aquilo ali. Essa experiência do cancelamento é muito potente em nível de uma narrativa, mas o que eu precisei fazer foi separar o que era crítica do jogo e o que era crime de ódio que eu tinha sido vítima na internet. As pessoas meio que se aproveitaram ali para confundir um pouco. Eu fui para um reality para ser julgada, mas não para ser massacrada. A galera meio que aproveitou e  'vou chamar ela de macaca, comparar ela e dizer volta para a senzala’, depreciar o meu terreiro. Foi um exercício muito importante de elas me lembrarem quem era a verdadeira Lumena, que não era aquela que a internet estava propagando dentro de uma política de cancelamento. Elas são minhas principais referências a nível desse combustível, desse ato de coragem de apresentar, pega o axé, que o lugar onde me nutro, me alimento e ressignificar a jornada. Cancelar o cancelamento, que foi uma experiência que fez parte do meu processo aqui fora e agora é o contrário. Hoje as pessoas que querem que eu autorize. É muito massa.

O que o cancelamento te deu de presente e o que te roubou?
O cancelamento me deu uma maturidade sobre o comportamento digital. Um entendimento crítico sobre o que é internet e esse comportamento digital da nossa geração e o quão poderosa é essa ferramenta em nossas mãos. Ao mesmo tempo me levantou uma série de questionamento sobre o que de fato a gente quer com o poder que a internet proporciona. Proporcionou essa consciência, apesar de ter sentido na pele.

"O lado odioso da internet me tirou a pureza, a inocência, ao me relacionar com as redes sociais. Hoje eu entendo a potência dessa ferramenta e, sobretudo, a responsabilidade das pessoas ao se tornarem pessoas públicas". 

Você já se sente preparada, dominando essa hiperexposição, para fazer seu novo projeto alavancar também nesse espaço?
Hoje em dia eu tenho o privilégio de ter uma equipe de trabalho comigo. Por conta de uma experiência acadêmica eu acreditava que para me autorizar a fazer algo profissionalmente eu precisaria de uma graduação, um especialização, um mestrado, um doutorado. Corta para Lumena se instrumentalizar no campo prático. Hoje, contar com uma equipe, sobretudo de mulheres, que tem esse olhar da especificidade de que uma influencer como eu traz marcas de ter sido cancelada, de ser uma mulher negra na internet, que não reivindica a heteronormatividade, uma mulher nordestina... É um olhar técnico, mas ao mesmo tempo sensível, amoroso e saudável para me acompanhar. É um privilégio. É um diferencial que me entende na minha essência. Isso me dá uma base para disputar esse lugar e dizer que sou influencer mesmo.

Revendo 2021, faria tudo novamente, inclusive o BBB e as pautas as quais comprou?
Total. É porque eu não comprei pauta. Eu fui Lumena. A Lumena que foi possível ser. A interpretação que foi dada é que eu comprei pautas. Mas isso é o gerenciamento do público, interpretando a minha vivência no reality. Eu fui vivenciar um desejo pessoal, íntimo, com todas as questões que me atravessam. É uma questão que aprendi a lidar reconhecendo também que a militância e o ativismo sempre fizeram parte da minha história de vida. Isso ser algo bom ou ruim foi algo do público, que julgou, aparentemente, como algo ruim. Eu não tinha como negar minha história de vida. Um laboratório, um experimento social, como é o BBB, ele humaniza. A internet te desumaniza. O público, por ventura, pode te desumanizar. Os personagens ali dentro se chocam porque são pessoas com diferentes histórias de vida. Esse é o game.

"Eu não consigo virar para você e dizer que me arrependo. O que eu consigo deixar como convite é: me humanize e me deixe apresentar as lumenas que vocês não tiveram a oportunidade de conhecer. Olhar para trás com pesar não faz parte.

Esse processo de autoconhecimento é essencial. Você participou como jurada do Afro Fashion Day. Consegue ver conexão dessa iniciativa também nesse aspecto?
Muito. E é incrível. São colheitas de lutas de pessoas que antecederam a gente e falaram da importância da autoimagem, autoestima. Esse lugar de visibilidade, sobretudo com a moda, salva vidas, salva projetos, salva meninos e meninas que têm o sonho serem artista. Terem uma profissão com a qual se identifica verdadeiramente. Quando esse projeto foi lançado eu falei 'que massa que essa galera está podendo viver essa oportunidade que quando, lá atrás, eu quis viver, não existia'. A gente foi dando nosso jeito para se constituir profissionalmente e até afetivamente. Poder ser jurada e ouvir meninos e meninas incríveis, das mais diversas performances identitárias. Foi incrível e até difícil. Menino se autorizando. É uma quebra de gênero muito legal. A sensação é que, às vezes, esse lugar de uma relação positiva com o corpo, com a beleza, com a autoestima estava muito restrita ao lugar do feminino. Não. Meninos também com uma performance que não tinha nada a ver com uma masculinidade padronizada. Eram diversos tipos de beleza de feminilidade, diversas tonalidades raciais. Isso para mim foi muito bonito e poder participar para mim é um marco. Meu desejo é que o próximo seja presencial e que eu possa estar lá bem linda autorizando a beleza dos outros.

Lumena Aleluia na revista Vogue 

(Foto: Waldir Evora / Ale Monteiro / Divulgação)

E você, de forma mais específica, algum projeto previsto nesse universo da moda?
A moda me salvou muito nesse pós Big dos Bigs, a partir de uma relação de autocuidado. Eu fui apresentada a esse nicho dos editoriais de moda. Eu fui capa da Marie Claire, da Glamour, da Vogue. Eram revistas para mim inalcançáveis. Eu que fui uma criança negra condicionada a me achar feia, a negar aspectos do meu fenótipo – que foi uma palavra que ficou famosa. Fui condiciona a me olhar no espelho e dizer ‘alisa aí, bota uma maquiagem que te embranqueça, bota um pregador no nariz para ver se afina, não sorri muito’. Foram narrativas que fizeram parte da minha vida, assim como da maioria das crianças negras. Então, quando tenho oportunidade de me curar nessa relação, ser protagonista de editoriais de revistas extremamente conceituadas foi dizer somente obrigada ao universo. Foi uma oportunidade de ressignificar essa relação comigo mesma, com o espelho. Agora eu sou musa do Carnaval de São Paulo também. São experiências que me organizam. Coloquei silicone também.

As mudanças estéticas aconteceram por desejo íntimo mesmo ou você viu necessidade, sendo esse corpo negro, de mudar para caber e ser aceita nesse mundo imagético?
Está dentro daquela fala da coragem. Estou tendo a coragem de fazer coisas que eu nunca imaginei que faria. É uma oportunidade também de me autoavaliar. É uma experiência de libertação de vários nãos que a gente ouviu. Fui exposta em todos os sentidos e agora é juntar tudo que tem e ser feliz. O reality me libertou de várias questões, e o cancelamento me abriu um lugar de coragem para dizer ‘deixa eu me apresentar’.

*O Afro Fashion Day é um projeto do jornal Correio com o patrocínio do Grupo Boticário, do Hapvida com apoio Institucional da Prefeitura Municipal de Salvador, Sebrae, apoio do Shopping Barra, Laboratório CLAB e CCR Metrô.

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