Baianos buscarão oportunidades fora e Bahia terá população menor e mais velha

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26.07.2018, 04:00:00
Atualizado: 26.07.2018, 14:23:46

Baianos buscarão oportunidades fora e Bahia terá população menor e mais velha

Dados são da Projeção da População, revisão 2018, divulgada pelo IBGE, e mostram cenário até 2060

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Dona Maria, 72 anos, só percebeu a idade chegando depois da aposentadoria: foram 30 anos de trabalho
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

A aposentada Maria Alves Laura, 72 anos, não pensava que, um dia, a idade fosse bater à porta. Mas, a hora chegou. E ela está bem próxima do perfil da população baiana nas próximas décadas, segundo a Projeção da População do Brasil, revisão 2018, divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os números mostram que os baianos começarão a envelhecer cada vez mais. E a população, além de mais velha, vai começar a reduzir mais cedo do que praticamente todo o país. Tudo isso a partir de 2035.

A pesquisa mostra como a população baiana vai se coportar daqui a quase duas décadas e que efeitos essas alterações terão até 2060. Até lá, a população do estado deve cair em 6,7%, passando dos atuais 14,8 milhões para 13,8 milhões de habitantes.

O que o instituto aponta é que a Bahia será o segundo estado brasileiro - atrás apenas do Piauí - a iniciar uma redução populacional. Isso se explica por que, aqui, o número de nascimentos deve cair 43,8% - a maior taxa do país -, ao mesmo tempo em que a migração de saída provavelmente se manterá como a maior do Brasil, o que já acontece hoje. Ou seja: os baianos, futuramente, vão buscar oportunidades em outros estados. 

A partir de 2030, estima-se que, em média, 34.692 pessoas deverão deixar a Bahiapor ano, frente a uma estimativa, em 2018, de saída anual de 43.613 pessoas. De acordo com Márcio Minamiguchi, demógrafo do IBGE, a Bahia ainda atrai muitas pessoas de outros estados - a maior parte para a região Oeste, por conta do agronegócio: “Mas, na balança, vamos ver que temos muitos baianos ainda deixando o estado em direção ao Sudeste, em busca de melhores empregos e educação”.

Outro fator que poderá contribuir para a redução populacional é a queda no número de homens - efeito não só da migração, como também das altas taxas de mortalidade de homens jovens, e aumento na proporção de mulheres (leia mais abaixo).

Efeitos
O envelhecimento de uma população traz uma série de implicações para a economia. Um estado com poucas pessoas economicamente ativas produz menos, mas, em contrapartida, precisa desembolsar mais na saúde e em aposentadorias, por exemplo. Em 2060, um em cada três baianos terá 60 anos de idade ou mais. Eles serão 34,5% da população, contra os atuais 12,5%.

Como não dá para fugir dos fios brancos e da experiência de vida, aqueles que têm hoje entre 20 e 40 anos podem começar a prestar a atenção em que já chjegou lá - especialmente nos que conseguiram envelhecer com alguma qualidade de vida e nas estratégias para viver a velhice sem depender dos mais jovens.

Dona Maria Alves, por exemplo, conta que não teve tempo para pensar no “peso da idade”. Esteve ocupada com outras coisas, como trabalho e criação da filha. Só depois da aposentadoria, após estar à frente do gerenciamento de uma concessionária de carros durante 30 anos, foi que decidiu pisar no freio e tentar viver de uma forma mais leve. 

“A gente, infelizmente acorda para a vida um tanto quanto tarde, porque quando você é mais jovem existem outras preocupações. Eu tive que me preocupar em ser pai e mãe. Agora não assumo mais nenhum compromisso pela manhã, tenho apenas a preocupação de colocar a minha fantasia e sair por aí”, brinca, se referindo ao figurino fitness para caminhadas diárias.

Sergio tem 68 e, hoje, ele se dedica a cuidar da saúde, mas antes disso, se preparou para envelhecer bem
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Já o aposentado Sérgio Calmon, 68, pode dizer que se preparou para envelhecer. Durante toda a vida, ele investiu em um plano de aposentadoria. E, para isso, teve que abrir mão de algumas coisas. Mas, segundo ele, há frutos a longo prazo. 

“O conselho que eu dou para os futuros idosos que hoje são jovens é que eles cuidem da saúde, tenham cuidado com sua alimentação, traçando seus planos e metas”, aconselha. 

A partir de 2035, apenas a população acima dos 50 anos é que deve crescer na Bahia. Dentro deste grupo, a população de 60 anos ou mais vai duplicar (156,5%). Já o número de adolescentes e jovens de 15 a 24 anos despenca 44,2%. Ou seja, o índice de envelhecimento da população baiana será o terceiro maior do Brasil - hoje, é o 11º.

O estudante de Engenharia Elétrica Mayale Cerqueira, 24, ainda não pensa como será o futuro a longo prazo. Está muito ocupado, agora, em tentar cumprir as obrigações da graduação, mirando no mercado de trabalho. 

O estudante Mayale Cerqueira, 24, não planeja o futuro a longo prazo: está de olho nos estudos e trabalho
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Decisões
Já a queda na taxa de natalidade na Bahia pode estar diretamente ligada à decisão de muitos jovens por não ter filhos. A taxa de fecundidade, inclusive, tende a cair entre as jovens de 15 a 19 e crescer entre aquelas com 25 a 29 e 30 a 34 anos. Ou seja, as mulheres serão mães mais tarde.

Focados em construir uma carreira, casais jovens estão decidindo por ter mais tempo para se dedicar à profissão. A administradora de empresas Débora Amor Divino, 27, teve como exemplo a mãe, que, no auge da carreira, abandonou tudo para se dedicar à criação do terceiro filho. 

“Eu tenho anemia falciforme, que é hereditária, ou seja meu filho poderia ter. Para além disso, quero me dedicar na profissão, crescer profissionalmente. Minha mãe teve que abrir mão de uma carreira promissora para ser mãe e eu não penso em passar por isso”, conta. 

A administradora Débora, 27, não pensa em ter filhos, quer se dedicar à vida profissional
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Homens e mulheres
Em números absolutos, a Bahia deve perder entre 2035 e 2060 o total de 986.659 pessoas, segundo divulgou ontem o IBGE. A redução será puxada pela queda da população masculina, que sairá dos atuais 7,2 milhões para 6,5 milhões (redução de 9,8%) em 2060, o que equivale a menos 703.184 homens no estado, no período.

Esse recuo dos homens é quase o triplo do esperado para a população feminina - que cairá 3,7%, saindo 7,6 milhões para 7,3 milhões, ou menos 283.475 mulheres. Com maior redução da população masculina que a feminina, o cenário para 2060 é de que a população total da Bahia terá 52,9% de mulheres. Hoje, elas são, segundo o IBGE, 51,3% do total.

Márcio Minamiguchi, demógrafo do IBGE, diz que, ao observar o histórico da pirâmide etária (de idades), se vê que o nascimento de homens é maior que o de mulheres, situação que se inverte à medida que a população vai envelhecendo. Ele aponta que isso acontece  por questões culturais da sociedade.

“Os homens estão mais envolvidos que as mulheres em mortes por violência e acidentes de trânsito, além de se preocuparem menos com a saúde preventiva. As mulheres estudam mais, se desenvolvem mais mentalmente. Isso evita  que elas estejam em certas situações de risco de vida”, comenta Minamiguchi.

(CORREIO Infográficos)

Planejamento
Diante dos dados apresentados pelo IBGE, o momento é de planejar o futuro, dizem economistas. Isso porque os impactos econômicos, com mais idosos, menos crianças nascendo e o mercado de trabalho composto por menos pessoas em fase adulta, implicam em mudanças gerais na economia. Até as residências ficarão menores.  

“Os hábitos de consumo deverão ser revistos em todos os setores econômicos, tendo em vista a diminuição de filhos, da família. Haverá mudança no perfil do mercado de trabalho, composto por mais pessoas com idade entre 50 e 60 anos. Vai afetar todas as variáveis econômicas”, declara o economista Gustavo Casseb Pessoti, presidente do Conselho Regional de Economia da Bahia (Corecon).

O aumento dos idosos favorecerá as profissões ligadas à área de saúde, como enfermagem, fisioterapia, geriatria. “E, como boa parte dos idosos não possui planos de saúde, o aumento deles vai ressignificar o papel do governo com relação as contas públicas”, diz Pessoti.

“Temos uma geração mais saudável. Tem gente de 60 anos correndo maratona, o que não ocorria, por exemplo, em 1940. Temos de olhar para outras sociedades que possuem mais idosos e nos espelhar nelas”, diz o economista da Fecomércio, Fábio Pina.

E com o idoso tendo mais saúde, o economista é a favor de que a idade de aposentaria suba para 70 anos, e que o governo coloque o teto máximo para pagamento de aposentadorias no valor de R$ 5,5 mil. “Impossível manter as contas com aposentarias muito elevadas, como as de juízes, por exemplo”, critica.

“Precisamos de uma política de valorização e aproveitamento dessas pessoas, pensar em uma conectividade maior para elas”, defende o advogado Arnaldo Faria de Sá, especialista em Direito Previdenciário.

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