Ballet Rosana Abubakir: ex-alunos relembram memórias da escola

entretenimento
21.05.2021, 06:00:00
Corsário, apresentado em 2007 (Fotos: divulgação)

Ballet Rosana Abubakir: ex-alunos relembram memórias da escola

Corpo de baile da escola se apresentou com estrelas como Fernando Bujones e Maximiliano Guerra

A nostalgia bateu forte nesta quinta-feira (20) no coração de milhares de soteropolitanas, quando elas souberam que o tradicional Ballet Rosana Abubakir (BRA anunciava seu encerramento, depois de 37 anos. No Instagram da escola, depoimentos emocionados como o de Ana Teresa Walter Trocoli, ex-aluna: "Muito honrada em ter feito parte dessa linda história durante mais de 11 anos da minha vida. O BRA foi, durante muito tempo, a minha casa, pois era lá que passava a maior parte do meu dia. Chorei muito ao ver esse vídeo", escreveu Ana Teresa, em referência a um filme de oito minutos que estava nas redes sociais e descrevia a história da instituição que funcionava na Pituba.

A pandemia deixou a escola fechada por um ano e, claro, isso pesou na decisão do fechamento, segundo a proprietária que dá nome à escola, mas essa não foi a única razão. E aqui vale uma observação: Rosana Abubakir, ao contrário do que muitos pensam, não é uma misteriosa bailarina russa ou eslava que já morreu (até porque, ressalte-se, o sobrenome é de origem árabe). E nem é uma velhinha, como talvez você imagine: Rosana tem 59 anos e ainda tem muita energia para tocar qualquer negócio. Mas ela acredita que era hora de, como se costuma dizer, "encerrar um ciclo". 

"Quando dissemos que íamos fechar, algumas pessoas começaram a perguntar se eu estava com algum problema, mas não foi isso. É uma decisão que já vinha pensando há uns três anos. Agora, quero pensar em minha vida, dar mais atenção ao meu filho, que já tem 16 anos e não vi crescer", revela Rosana.

A dedicação à escola era tão grande que, nos primeiros anos do casamento, ela e o marido, Luciano David, viveram na sede do BRA, na Pituba. "Costumo dizer, brincando, que me casei primeiro com a dança", diz Rosana.

Lagos dos Cisnes, em 1998

E não é exagero, afinal, no balé, os dançarinos começam muito cedo. Rosana seguiu essa regra, graças aos incentivos da irmã Marília, que a criou em razão da morte dos pais. Na adolescência, a bailarina que iniciara os estudos em Salvador, foi se aprimorar no método inglês de balé em Londres, uma referência na dança clássica. Voltou de lá decidida a abrir sua própria escola. Finalmente, em 1984, inaugurou a Ebarte – Escola Bahiana e Ballet e Arte, no Jardim dos Namorados.

Como a procura pela escola aumentava, Rosana tomou coragem e decidiu construir uma sede própria, onde funciona até hoje, na Avenida ACM. Inaugurado em 1987, o prédio do Ballet Rosana Abubakir foi construído com a estrutura ideal para a prática da dança, como observa a dançarina: "Pensamos no pé direito das salas, na altura das barras, no piso adequado... Um piso de cimento, para a prática de dança, é como um carro sem amortecedor".

Mas a maior ousadia naquela época foi a adoção de um novo método de balé, ainda pouquíssimo conhecido no Brasil: Rosana resolveu trazer para a Bahia o método cubano, que acabou se tornando seu diferencial. E ela explica por que:

"O inglês nasce com o físico perfeito para a prática da dança. Mas o latino tem outro biótipo: é mais baixo, mais 'cadeirudo' Então, o método cubano foi criado pensando no latino. E nós, brasileiros, temos semelhanças físicas com os cubanos. Por isso, a escola cubana me parecia mais adequada para o Brasil". 

Nessa hora, Rosana abre mão de sua modéstia e timidez características e assume: "Fui visionária, afinal, eu tinha estudado a vida inteira sob o método inglês, que predominava aqui no Brasil e na Bahia. Mas, ainda assim, quis implantar um outro método, que era recente". E o resultado foi positivo, segundo ela: "As alunas percebiam que estavam crescendo tecnicamente com o novo método. E esse crescimento foi imediato".

Rosana Abubakir

A iniciativa de trazer o método cubano pra cá foi tão bem recebida que, na década de 90, aconteceu algo que parecia muito distante para Rosana: sua escola foi convidada para participar, no TCA, de uma apresentação de um dos melhores dançarinos internacionais da época e, ainda hoje, um dos maiores da história: Fernando Bujones (1955-2005), um americano nascido em Miami e filho de cubanos.

Rosana recebeu uma ligação da empresária do bailarino. Foi uma daquelas situações que, de tão surpreendentes, parecia ser trote.

"A empresária me disse que ele ia fazer uma turnê no Brasil e vinha para Salvador. Estava à procura de um corpo de baile que estivesse à altura dele. Fizemos e foi um grande desafio para a escola acompanhar alguém do porte de Bujones"

E não parou aí: mais tarde, vieram outros grandes nomes, como o argentino Maximiliano Guerra e o cubano Carlos Acosta.

Virna Cangussu, hoje uma dentista de 42 anos, foi aluna do BRA dos cinco aos 39 anos de idade. Ela lembra bem como era a preparação para aquelas apresentações: "A gente tinha que ensaiar com aqueles bailarinos muito famosos e de muita qualidade. Dava um frio na barriga danado, porque eles estavam na revista, nos filmes, nos jornais... e, de repente, a gente se via de frente com eles". Virna diz que, para aquelas apresentações, os ensaios eram exaustivos, embora valesse a pena: "No fim de semana, eram oito a dez horas de ensaio por dia", recorda-se. E tudo isso feita de forma voluntário, por amor à dança, sem receber cachê.

Paquita, em 2007

A dentista é mais uma das ex-alunas que se tornou mãe e levou a filha para dançar na mesma escola. Thiana, hoje com 10 anos, dançou com a mãe quando tinha sete. "É uma história que passa de uma geração para outra. Minha mãe diz que antes ia me ver dançar e agora vai ver a neta".

A fisioterapeuta Leilane Paixão, 34, também se lembra com saudades dos 28 anos que passou na Rosana Abubakir “[A escola] Estava sempre querendo inovar, difundir a dança. A gente dançava em escolas particulares, asilos, praças, sempre querendo trazer as pessoas para o mundo da dança. É uma instituição que tenho a honra de ter feito parte. Vai fazer muita falta. Que alguém tenha essa sementinha que ela plantou e leve isso adiante”, deseja.

O talento de Leilane foi descoberto de uma forma meio inusitada: Ainda criança, na Lavagem da Praia do Forte com a família, pediu à mãe para ver a banda tocando e foi colocada em cima da mesa do bar. Sua desenvoltura na dança chamou a atenção da própria Rosana Abubakir, que estava na mesa de trás. 

“Olha, sua filha tem muito ritmo, é muito boa. Sou Rosana Abubakir, prazer. Leva ela lá no balé, vou dar uma bolsa a ela”, disse, para surpresa da mãe de todos. Leilane fez um teste de nivelamento e desde então virou bolsista da companhia onde também virou professora. “Falo com você e me dá até vontade de chorar...”, diz, com a voz embargada ao telefone. 

Leilane Paixão (Foto Nete Teixeira/divulgação)

Jean Magalhães, 32 anos, tem uma história parecida com a de Leilane. Uma tia dele tinha um restaurante que Rosana costumava frequentar. Jean, que tinha seis ou sete anos na época, dançava com as primas imitando É o Tchan. E ele era Jacaré, um dos integrantes. Rosana o chamou para um teste e ele foi, mesmo que para isso tivesse que enfrentar comentários preconceituosos dos amigos. "Passei no teste e ganhei bolsa integral. Minha mãe me dava muito apoio, me levava e me buscava. Meu pai era falecido. E minha irmã, que era percussionista, também me dava força", lembra Jean.

Em 25 anos no BRA, Jean teve muito poucos colegas homens.

"Tinha muito preconceito, né? Alguns até entravam, mas acabavam saindo. Isso melhorou um pouco hoje, mas tem que melhorar mais", diz.

Jean evoluiu tanto que se tornou professor do Rosana Abubakir. E mais: por indicação da escola, fez um teste no Liceu de Artes e Ofícios e integrou um grupo de dança de lá. 

Foi isso que proporcionou a ele se apresentar fora do Brasil, em países como África do Sul e Venezuela. Aqui, Jean dançou com artistas como Margareth Menezes e Gerônimo. Paralelamente à dança, estudou Arquitetura, mas trancou a matrícula. Dava aula até o início da pandemia.

Pouco antes de começar a quarentena, havia montado um restaurante, que precisou ser fechado. Passou então a trabalhar com delivery. E é a seu empreendimento que ele vai se dedicar daqui pra frente. Para Jean, o balé lhe deu base para tudo. "A dança nos dá disciplina e assim você passa a ver tudo com uma perspectiva diferente".


 

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