Bota outra pra Dieguito: gênio, louco e artista!

paulo leandro
25.11.2020, 22:50:00
Atualizado: 25.11.2020, 22:59:12

Bota outra pra Dieguito: gênio, louco e artista!


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Nem todo gênio é louco e nesta mistura de uma e outra qualidade, Dom Diego leva vantagem, agora entornando taças e mais taças com Dioniso, enquanto o sábio Selenus, deus da embriaguez, aquece o prato para festejar sua chegada aos Campos Elíseos.

Perdem os mortais e ganham as divindades a companhia de um ser além-do-homem, para alegria de Prometeu, pai da humanidade, e desgosto de Zeus: adeus, Dieguito, o menino saído do húmus da periferia de Buenos Aires para fazer a farra do fútil-ball.

Entendendo loucura como o atributo de negar a realidade imposta pelo poder dos normais - estas invejosas e abomináveis criaturas tristes -, não existiria Diego, pois um poeta da bola desconhece ideias eternas nas coisas transitórias.

E não pensemos ser fácil ao gênio aliar-se à magia do imprevisível! Um indivíduo genial é raro, uma preciosidade, um forte, em meio a multidões de fracos, medíocres, reprodutores de opiniões formadas sobre tudo, como canta o maluco Rauzito.

Comparemos aritmeticamente o surgimento de um gênio como Diego com a população de jogadores do planeta e verificaremos o quanto sua aura inaugurou uma era do futebol, considerando sua arte uma vitória sobre a realidade.

Junto ao gênio e ao louco, ficam em nostalgia, as experiências estéticas de dribles, cabeçadas e bolas colocadas no ângulo; bicicletas e passes precisos, tudo fora do roteiro, a surpresa como néctar da vida!

Ao marcar um gol de mão contra o Império, na Copa de 1986, naquele momento, ele poderia exigir a devolução das Malvinas; estava no seu direito, humilhar aqueles cuja tradição é tomar as riquezas alheias com violência.

Ao deliciar-se em noitadas e golaços, da balada para o campo, em Napoles, na pura alegria dos doidos, Diego derrotou os grandes conglomerados, patrocinadores dos maiores clubes italianos, aquela mafiazinha seleta por todos conhecida.

Antes, no Argentinos Juniors, e em La Bombonera, com a torcida bostera do Boca, estava Diego ungido pelo acréscimo de inteligência somente possível com a superposição de sua legítima doidice, multiplicada pelas arquibancadas ensandecidas.

O gênio, cujo esforço em apegar-se aos padrões normais, alia-se ao reacionarismo, virando as costas para seu próprio povo, perde e perde feio para aquele, cuja fidelidade às massas, sofridas por distribuição desigual, o faz herói exageradamente querido.

Por isso, Diego ficará bem guardado no coração dos argentinos e de todos quantos entendem ser a vida um presente provisório para ser experienciada em sua total intensidade – e insanidade –, além de bem e de mal.

Não há por que queixar-se do fim da existência deste gênio e louco artista, uma vez ter doado tanto sentido ao mundo, em sua breve passagem, ao criar obras de arte legítimas, cujo não-esquecimento é cristalizado nas verdades da bola.

Aos irmãos gardelitos, não se tem como consolar, diante da saída de campo daquele cujo dom de alegrar aumentou a potência de ser do seu país, como só o conseguiram fazer Carlos Gardel e Perón.

O mundo fica menor e mais exposto à infecção da idiotia com a ausência de Dieguito: impossível aparecer outro gênio tão louco; outro maluco tão gênio. Que Dioniso e Selenus, o deus da embriaguez, curtam em alta seus melhores lances! 

Paulo Leandro é jornalista e Prof. Doutor em Cultura e Sociedade

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