Busca por modulação hormonal de testosterona cresce em cinco anos

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09.06.2019, 06:30:00
(Divulgação / Shutterstock)

Busca por modulação hormonal de testosterona cresce em cinco anos

Tratamento é condenado pelo Conselho Federal de Medicina

Cansaço, problemas de memória, aumento da barriga e diminuição da vontade de fazer sexo são consequências naturais da velhice, certo? Aquilo que um engraçadinho chamaria de ‘problema de junta – junta tudo e joga fora’ -, os médicos adeptos da técnica chamada modulação hormonal conceituam como sintomas de quem tem pouca testosterona  e que podem ser resolvidos com um gel para otimizar o nível do hormônio no corpo. 

A diferença entre reposição e modulação hormonal está justamente na palavra otimizar. Quem repõe o hormônio, em geral, tem falta dele. Mas, nem todos os homens que fazem o tratamento de modulação estão com menos do que os 200 nanogramas por decilitro no sangu, número de referência da maioria dos laboratórios para considerar que um homem tem deficiência de testosterona. Para mulheres, não há sequer consenso entre os médicos sobre os parâmetros ideais do hormônio.

Aí está o ponto-chave para entender as discussões acerca da modulação que, mesmo condenada pela Sociedade de Endocrinologia e Metabologia e pelo Conselho Federal de Medicina, tem sido cada vez mais procurada nos consultórios médicos. 

“Sem dúvidas, houve um grande crescimento na busca por esse tipo de tratamento nos últimos cinco anos”, aponta a ginecologista Carla Kruschewsky Sarno, diretora cultural da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia da Bahia (Sogiba).

Quem busca o tratamento quer mais testosterona, o hormônio masculino que está presente também, em menor proporção, nas mulheres. “Além de ser responsável pelos caracteres sexuais masculinos (barba, pêlos corporais, tom de voz), é importante para a saúde óssea e massa muscular. O homem produz principalmente nos testículos. A mulher, na glândula supra-renal e ovário”, explica Fábio Trujilho, vice-presidente do departamento de obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

O ápice desta produção acontece na adolescência e vai diminuindo com o passar dos anos. “A partir dos 30 anos, a produção de testosterona no corpo de um homem tende a diminuir em cerca de 1% por ano. Mas, pode ter gente que, já aos 30 e poucos, precise do tratamento. Vai depender dos sintomas e dos exames”, afirma o médico Gabriel Almeida.

Bam-bam-bam

Gabriel Almeida, que tem 38 anos, fez residência em Cirurgia Geral e “atua nas áreas de emagrecimento e qualidade de vida”, como descreve em seu perfil no Instagram, onde tem mais de 130 mil seguidores. Médico de famosos como Leo Santana e da apresentadora Lívia Andrade (SBT), ele é uma das principais referências sobre o assunto em Salvador.

Em seu consultório, no último andar de um edifício empresarial ao lado do Salvador Shopping, ele conta que atende cerca de 80 pacientes por semana, com a consulta custando R$ 700. A dançarina e apresentadora Scheila Carvalho, 45, é uma delas.

“Estou com Dr. Gabriel há mais de dez anos. Falo que ele é minha fonte da juventude, que me ajuda a segurar o Tchan até hoje! Todos que me perguntam o segredo, eu falo: alimentação saudável, exercícios físicos e reposição hormonal com Dr. Gabriel”, conta Sheila.

O trabalho dele com os hormônios começou com uma situação vivida pelo próprio, há 12 anos. “Eu era obeso, estava com a testosterona próxima do limite inferior da normalidade, mas nenhum médico queria repor porque eu não estava abaixo do número considerado como deficiência. Comecei a fazer cursos, pós-graduações, para entender o que estava acontecendo comigo e fui meu primeiro paciente, eu mesmo fiz minha reposição”, lembra Gabriel, que afirma ser “muito mais ativo hoje do que aos 18 anos”.

Normalidade

O problema apontado por alguns médicos para a faixa de normalidade da testosterona no exame de sangue é a amplitude: 800, número quatro vezes maior que o mínimo, de 200 ng/dl no sangue, engloba homens de 20 até 70 anos.

“Por exemplo, um cara de 30 anos que está com 350 ng/dl poderia ser encarado como normal, porque está entre 200 e 800. Mas, ele está com o nível de um homem de 60 anos”, pontua o médico Christian Aguiar, 45, que fez residência em Radiologia, mas atua com “Medicina Funcional e Prática Ortomolecular” de acordo com seu perfil no Instagram - com 35 mil seguidores.

“Outro tabu é que não haveria níveis ótimos, apenas deficiências ou normalidade, quando a gente sabe que existem, sim, níveis ótimos. É o caso de homens com testosterona a partir de 75% da faixa de normalidade, que têm risco cardiovascular reduzido”, diz o Dr. Christian, que se formou em 2002. A consulta varia de R$ 450 a R$ 600.

Já entre as mulheres, não há consenso sobre números de referência. “Os kits que fazem essa dosagem na mulher precisam ser melhor validados. Na mulher, isso ainda é controverso”, explica Fábio Trujilho.

Benefícios

“O hormônio em si não é utilizado para fins estéticos. Os efeitos são secundários, mas acabam sendo notados”, Gabriel Almeida faz questão de frisar. Entre os benefícios listados pelo médico para homens e mulheres estão a facilidade para ganhar músculos e perder gordura, aumento na disposição, na libido e na memória, redução da retenção de líquidos e melhora na ereção ou lubrificação vaginal.

“Eu sentia muita indisposição e dores nas pernas. Sempre gostei de usar salto, mas, na época, eu só botava sandália rasteira. No médico, descobri que estava com deficiência”, conta Sueli Marocci, 47, designer de interiores, que há cinco anos começou tratamento com gestrinona e testosterona.

Hoje, ela diz que é outra mulher. “A disposição é a principal melhora. Todo mundo nota essa melhora no vigor, me pergunta o que estou fazendo. Também noto que tenho menos gordura do que já tive. E na parte sexual, então, a diferença é absurda”, afirma Sueli.

O cirurgião-dentista Rafael Freitas, 34, se sentia deprimido e sem disposição. Há seis meses, estava com a testosterona em 300 ng/dl. Hoje, ela flutua entre 600 e 800 ng/dl.

“De lá para cá, já perdi 20 quilos. Mudou completamente minha qualidade de vida, libido, disposição, humor... Só tive benefícios, tudo funcional. Estética é consequência”, enumera Rafael, que calcula ter gasto R$ 1.500 com as quatro primeiras doses, injetáveis.

Hoje, fica só no gel e não se arrepende de ter procurado um médico. “Creio que o acompanhamento médico foi fundamental para evitar efeitos colaterais e até problemas futuros. 90% dos homens que conheço já tomaram testosterona sem orientação médica, por causa de malhação. Contar com o acompanhamento médico foi a melhor coisa que me aconteceu, inclusive para evitar problemas”, afirma Rafael.

Métodos e preços

Para reposição de testosterona, pílulas não são recomendáveis. “Existe um risco de sobrecarga e dano hepático com a ingestão via oral, então prefiro prescrever um gel para uso tópico com o hormônio bioidêntico, que é a mesma molécula que já existe na natureza há milhões de anos”, sugere Hugo Maia, que já foi professor do Departamento de Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e diretor de pesquisas do Ceparh (Centro de Pesquisa e Assistência em Reprodução Humana). 

Uma consulta com ele custa de R$ 400 a R$ 500 em sua clínica na Graça. O Itaigara Memorial, onde ele também trabalha, aceita 30 planos de saúde. O gel, manipulável fica em torno de R$ 100 por mês, a depender da dosagem.

Outras maneiras de administrar a testosterona são por injeção e por chip. A injeção, de acordo com Gabriel Almeida, tem metabolização mais rápida e custa cerca de R$ 300. Já o chip é o método preferido do ginecologista e endocrinologista Elsimar Coutinho, ex-professor da Ufba, criador do Ceparh e pós-graduado em endocrinologia pela universidade de Sorbonne (França) e pelo Instituto Rockfeller (EUA).

“Ele permite a liberação de quantidades pequenas durante um ano e também facilita a modulação da quantidade”, conta o Dr, Elsimar. Cada implante custa a partir de R$ 200.

Efeitos colaterais

Os benefícios apontados pelos usuários se misturam aos efeitos colaterais provocados. Em mulheres, uma modificação na voz pode ser notada. “Eu uso o implante há menos de um ano e ninguém percebeu diferença nenhuma em minha voz. A única pessoa foi minha otorrino” conta a farmacêutica Adriana Domingues, 48, que começou a usar testosterona há oito meses para balancear um outro tratamento.

Um fator apontado entre os homens foi um possível agressividade. “A gente tem que ter um controle senão você fica ‘brabo’”, conta o empresário Jau Ribeiro, 51, que usa testosterona há sete anos.

“Testosterona em excesso pode levar a calvície, aparecimento de espinhas e pêlos pelo corpo. Em homens, pode causar crescimento de seios e até levar à infertilidade e a problemas no coração. Já na mulher pode engrossar a voz, ter efeito masculinizador e promover o crescimento do clitóris”, pontua Fábio Trujilho.

Há risco de câncer?

Para a oncologista Maíra Corrêa Tavares, que trabalha na clínica AMO e é pesquisadora no centro de Câncer da Universidade de Miami-Silvestre, nos Estados Unidos, o uso da testosterona pode, sim, levar ao câncer. “O uso de testosterona como anabolizante não é indicado, com alguns estudos mostrando associação com câncer de fígado. Na mulher, a exposição à reposição hormonal durante um longo período pode aumentar os riscos de desenvolver câncer de mama”, afirma a médica.

O endocrinologista Elsimar Coutinho discorda. “Isso é uma besteira, coisa de ignorante. Se hormônio desse câncer, quem ia ter era os jovens, que estão nadando em hormônios. Mas, normalmente, acontece com pessoas em idades avançadas. Tenho centenas de pacientes que fazem reposição comigo há 20, 30 anos. Nunca tive um caso de câncer que pudesse vincular à reposição”, diz o médico.

“Há muito tempo, na década de 1970, alguns trabalhos acadêmicos fizeram essa correlação de reposição hormonal com câncer de próstata. Mas era algo super malfeito, com amostragem pequena. Na década de 1980, isso caiu. Mas, algumas pessoas ainda pensam nessa associação de maneira equivocada”, opina o urologista Lucas Batista, professor de Urologia na Ufba, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Urologia - Bahia, e coordenador de Urologia do Hospital Cardiopulmonar.

Em seu mais recente comunicado sobre o assunto, divulgado em janeiro deste ano, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) se posiciona contra a modulação hormonal. “A reposição de qualquer hormônio deve ser feita baseada na deficiência, com acompanhamento médico especializado, observando-se riscos e benefícios do uso”, diz o comunicado, que aponta para efeitos colaterais sérios. 

Segundo Fabio Trujilho, que faz parte da SBEM, os efeitos são queda de cabelo, acne, aumento das mamas em homens, diminuição das mamas em mulheres. O alerta aponta, ainda, que “não há indicação da dosagem de testosterona na mulher, visto que não existem pontos de corte definidos para níveis baixos de testosterona no sexo feminino. A dosagem de testosterona na mulher só se presta para o diagnóstico de excesso de testosterona”.

A Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) faz coro. Segundo a entidade, “a reposição de testosterona não tem ação significativa contra tumores, pode ter efeito deletério sobre o paciente em tratamento oncológico e, em alguns casos, tem mesmo a capacidade de acelerar a progressão do câncer e de aumentar o risco de morte”. 

O comunicado cita, ainda, uma resolução do Conselho Federal de Medicina (1999/2012), que estipula que a reposição de deficiências de hormônios e de outros elementos essenciais “se fará somente em caso de deficiência específica comprovada e com benefícios cientificamente comprovados”.

Para o ginecologista Hugo Maia, o lobby da indústria farmacêutica influencia na restrição. “Algumas decisões não são fundamentadas em dados científicos. É importante lembrar que as opiniões das sociedades médicas dependem muito da maneira como elas são mantidas. É importante ter em vista conflitos de interesses”, pondera o médico.


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