Cabelo na régua

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08.02.2020, 05:00:00

Cabelo na régua

Percebam o andar ridículo, de galo trôpego, do policial militar após espancar o franzino cabeludo de Paripe. Sem o poder lhe conferido pela farda, resta um projeto de gente movido pelo ódio. Ele bateu no adolescente porque foi ensinado a bater, porque gosta de bater, porque permitem que bata e porque bater é a única reação possível diante de um preto bonito de cabeleira exuberante.

Ali vemos um homem sem rumo. Seu destino apropriado seria a cela, mas daqui a um tempo o PM andará por novas ruas escuras de Salvador, com as asas abertas de frango bombado, escolhendo outra vítima a ser surrada - ou coisa pior. E o motivo não importa: pode ser pelo cabelo, por uma corrente de ouro ou porque, simplesmente, o preto lhe atravessou o caminho.

O racista deseja sempre aniquilar a individualidade do preto, mesmo que não esteja consciente disso. Como não é livre por dentro, a liberdade exterior do outro é uma ofensa.

Dread locks, cabeleira black power, longos cachos ou até mesmo um corte curto de cor chamativa lhe causam terror. Se estiver em posição de autoridade, agirá com a covardia dos carrascos autorizados.

O segurança da rodoviária que faz troça das lindas gêmeas, no final de janeiro, e o policial militar que espanca o jovem de Paripe estão irmanados pelo mesmo tipo de escravidão mental.

Seja qual for o lugar ocupado na hierarquia social, o opressor exerce o controle dos corpos pretos por meio da violência (verbal ou física) porque para ele é inconcebível a variedade da vida.

A mãe não pensa mudar o penteado das gêmeas Linda 1 e Linda 2. Não há motivo. Elas são maravilhosas e não se grita “misericórdia” diante da beleza. O jovem de Paripe já disse que pensa em cortar o cabelo. Também disse que gosta do jeito que está agora. Ele é um homem livre. O PM, o segurança e todo e qualquer racista nunca serão.

*Flávio VM Costa é escritor e jornalista. Seu mais recente livro, “Você morre quando esquecem seu nome”, pode ser adquirido nas livrarias LDM (Cine Glauber Rocha e Paseo Itaigara) e no site da Bissau Livros.

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