‘Cada um deve ter seu tempo’, diz psicóloga sobre a pressão em voltar à vida normal 

saúde
12.08.2020, 10:22:15
Atualizado: 12.08.2020, 10:27:55

‘Cada um deve ter seu tempo’, diz psicóloga sobre a pressão em voltar à vida normal 

Caroline Severo foi a convidada da live  Saúde & Bem-Estar; reveja live

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Quando e como devemos voltar à vida normal - mesmo sem que ainda haja uma vacina para a covid-19? Essa foi uma reflexão que a psicóloga Caroline Severo, coordenadora da Resistência Terapêutica da clínica Holiste, trouxe na live Saúde & Bem-Estar no Instagram do CORREIO apresentada pelo jornalista Jorge Gauthier nesta terça-feira (11).

Para a psicóloga, o desespero de muitas pessoas para voltar à “vida normal”, pode ser explicado por Sigmund Freud, fundador da psicanálise, em seu texto “O mal-estar na civilização”. Como citou Caroline, há 3 formas de sensações: em relação à natureza, ao corpo e com o outro. “A pandemia nos desafiou nessas 3 esferas”, diz. Ela percebe essa euforia como uma tentativa de recuperar o que foi perdido durante o período de distanciamento social. “É uma ruptura muito forte para a nossa cultura. Esta seria uma compensação por ter estado muito reprimido”, analisa.

Por outro lado, há também pessoas que estão apavorados com a volta à normalidade a exemplo de uma leitora do CORREIO, que relatou a pressão de ter que voltar ao normal diante desse retorno por conta das incertezas do momento.

Caroline acredita que parte de pessoas que sabem que a situação não está resolvida. Esse entendimento, de acordo com ela, passa por questões pessoais. Caroline considera essas atitudes naturais, mas, se a saída começar a ser algo limitante, que se torne inviável mesmo quando necessário, aconselha a procura de um profissional terapêutico.

E no que se refere à frustração de ver pessoas retomando a vida e não poder fazer o mesmo por questões pessoais (como em caso de grupo de risco, por exemplo),a psicóloga considera uma situação complexa. Acredita que as pessoas têm que desenvolver recursos para passar pela quarentena. “Mesmo estando em casa podemos estar em movimento”, diz. Ela dá o exemplo da clínica Holiste, onde é coordenadora: “teve um aumento significativo de consultas de telemedicina”. Ela orienta que sejam mantidas coisas que a gente fazia antes da pandemia. Afirma que a forma como é encarado esse tempo em casa é importante no processo.


Durante a live, Jorge Gauthier questionou  a intensificação do julgamento na internet nesse período e se isso tem relação com efeitos psicológicos. O jornalista trouxe o exemplo de Anitta: a cantora está sendo muito criticada nas redes sociais por estar se divertindo e fazendo shows na Itália (onde os shows já foram autorizados) enquanto pessoas morrem no Brasil. 

Caroline explica que  a virtualização das relações durante o distanciamento foi intensificada e que passamos a ficar mais atentos às redes sociais. Acredita que elas ajudam em alguns aspectos, mas facilitam esse tipo de situação, por isso temos que tomar muito cuidado. Aponta que hoje existem especialistas em tudo e que é comum querer se informar. Mas observa que a nossa sociedade atual está muito dividida por política, ideais e que isso reflete nas relações. Ela observa que esses ataques podem ser uma forma de esconder suas próprias questões. 

É hora de sacudir a poeira de debaixo do tapete

Caroline observa que, por conta do ritmo agitado de vida, muita coisa ficou por debaixo do tapete anteriormente, como certas escolhas e questões familiares. “Ficar em casa quer dizer ter que confrontar essas questões”. E compreende como lógico, durante um mal-estar, buscar uma defesa. Mas, como a psicóloga citou: segundo Jacques Lacan, “a angústia é o único afeto que não engana”. Em algum momento, então a poeira de debaixo do tapete iria surgir de qualquer forma.

Por conta disso, os índices de divórcios subiram bastante durante a pandemia, assim como sintomas obsessivos, síndromes do pânico e outros diagnósticos. Apesar disso, a especialista menciona que tem gente que, a partir da pandemia, resolveu questões da vida. 

Medicar o sofrimento

Com o aumento dessas questões psíquicas, a medicalização exagerada ou desnecessária é uma grande preocupação. Mesmo realçada agora, “essa questão vem muito antes da pandemia”, segundo Caroline. Ela fala que há um aumento significativo de diagnósticos. Concorda que algumas pessoas realmente precisam dos remédios, mas o uso tem que ser feito com orientação médica. E alerta que, sem esse acompanhamento, as drogas podem acabar anestesiando sintomas normais que devem ser sentidos e a pessoa pode ficar condicionada ao uso. Desta forma, de acordo com a psicóloga “não vai lidar com uma questão do ser”. 

De acordo com Caroline, quanto mais o uso de medicamentos e de outras formas de escape é feito, mais a pessoa fica a mercê. Ela adverte que “uma hora as saídas [da realidade] não vão mais dar certo e os sentimentos podem voltar piores”. Entende que nesse período isso pode se acentuar muito e no período pós-pandemia também tende a  aumentar, principalmente por conta das perdas. Para lidar com essas questões, indica a terapia.

Os dois extremos: crianças e idosos

Para eles, segundo Caroline, é um momento muito delicado. Diz que as crianças de 0 a 6 anos estão em uma fase importantíssima do desenvolvimento. Fala que a situação tem que ser muito conversada para que elas possam entender o momento. Explicita ponto positivo: tem uma perda social, mas a relação familiar pode ser redescoberta, como a criança pode aparecer nessas relações. Pode ser que no futuro algumas apresentem sintomas e dificuldades, por isso tem que estar observando e próximo delas. 

Os idosos estão sofrendo muito também, pois serão os últimos a retornar de forma ativa à sociedade. A psicóloga orienta que formas alternativas para lidar com o sofrimento e a angústia devem ser criadas para não entrarem em um quadro psíquico forte.

“Muitas vezes nos movemos em função de coisas futuras, mas sem previsões, precisamos acompanhar o que está acontecendo”, diz Caroline. Ela recomenda ver o que, dentro da realidade, pode ser feito para aguentarmos mais meses pela frente. A partir desses interesses, se organizar para criar mecanismos para amenizar crises e lidar com este mal que está posto. 

A psicóloga, porém, lembra que temos possibilidade de vacina. Diz que temos que analisar que passamos por outras crises, como a da AIDS e a Segunda Guerra e há sempre impactos fortes depois de períodos de muita tensão. Traz o questionamento “que medo é esse?”. Responde que é algo real, mas algo também do sujeito. Diz que as formas de lidar são singulares, mas possíveis.]

Reveja a live:
Parte 1:

Parte 2


*com supervisão do chefe de reportagem Jorge Gauthier

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