Camaçari 262 anos: para viver, trabalhar e veranear

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28.09.2020, 17:06:00
Atualizado: 28.09.2020, 17:07:10
(Foto: José Carlos Almeida/divulgação)
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Camaçari 262 anos: para viver, trabalhar e veranear

Confira o especial de aniversário da cidade

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Morar perto da praia sempre foi o sonho do contador Samuel Almeida. Há 22 anos, ele adquiriu um terreno na região de Jauá, Costa de Camaçari, para veranear, mas até o início da pandemia do novo coronavírus, só tinha passado poucos dias na casa que construiu. A temporada de isolamento social mudou essa realidade e o local de descanso virou morada.

“Há quase seis meses estou aqui. Fui a Salvador poucas vezes para atender algum cliente ou resolver algo rápido, pois prefiro fazer todo o trajeto de bate-volta e depois descansar no meu paraíso particular do que ficar 24 horas por dia naquela dinâmica de cidade grande”_ Samuel Almeida, morador de Jauá 

Apesar de enxergar Jauá e as praias da região como parte de um grande paraíso natural, Samuel assume que a área tem se tornado cada vez mais populosa ao longo dos anos, diferente do ambiente pacato de antes. “As pessoas têm percebido a diferença da qualidade de vida que essa região oferece. Tenho amigos que vieram passar um final de semana e não saíram mais”, conta.

“Agora, com esse sistema de teletrabalho, já penso em me mudar definitivamente. Uma visita rápida ao Centro de Camaçari, Lauro (de Freitas) ou Salvador resolve qualquer problema. Nada se compara a não ter que viver com engarrafamento, estresse e ainda ter a natureza tão perto”. 

Conhecida nacionalmente pelo seu potencial industrial, Camaçari, que hoje completa 462 anos, conta também com amplos recursos naturais, principalmente no seu litoral, composto pelas localidades de Busca Vida, Abrantes, Jauá, Arembepe, Barra do Jacuípe, Guarajuba e Itacimirim. Antes foco de turismo sazonal, a Costa de Camaçari cresceu de forma acelerada a partir da década de 1990 e se estabeleceu como um dos destinos mais desejados da Linha Verde.

Recentemente, a região tem vivido um incremento no número de moradores fixos em busca de um ritmo mais tranquilo. Mas Camaçari ainda tem desafios a vencer para que se consolide como polo residencial. 

Boom da pandemia
Na opinião da empresária Tatiane Alcantara, que mora em Arembepe há 10 anos, um dos problemas ainda é a ausência de alguns serviços. Fato que a obriga a ir em Salvador ou Lauro de Freitas, embora admita que a pequena estrutura na região das praias é suficiente para os moradores resolverem questões do dia a dia sem se afastar de casa.

“Hoje é possível encontrar todo tipo de comércio aqui na região. Arembepe, entre todas as praias, é mais bem estruturada para se morar. Tanto que no período da pandemia tivemos um crescimento populacional com pessoas que vieram se refugiar por aqui e não chegamos a sentir um impacto negativo”_Tatiane Alcantara, empresária

Desde o início da pandemia de Covid-19, o poder público de Camaçari estima que a população das sete praias que integram a orla do município chegou a 90 mil pessoas, porém, desse número, apenas 50% são moradores fixos. “Precisamos de um investimento maior no setor de serviços e, também, solucionar a falta de conexão entre a Costa e o Centro com opções de transporte”, sugere Tatiane. 

Em direção ao futuro 
Afetados duplamente por duas fortes crises – o vazamento de óleo no litoral nordestino em 2019, e a pandemia da Covid-19, em 2020 -, a população nativa que vive do turismo e investidores anseiam pelo retorno do fluxo de viagens trazendo renda para a região. Proprietário de um restaurante em Itacimirim, Dionísio Santana aponta que iniciativas como a Feira Pôr do Sol, lançada no último Verão, elevaram as expectativas da população local, mas que a chegada da pandemia desafiou o setor de turismo a se reinventar.

“O isolamento social nos obrigou a nos reinventar pelo sistema de delivery. Nossa expectativa agora é que, após a vacina, o turismo volte a aquecer e os poderes público e privado se unam para pensar em estratégias que nos ajudem a recuperar esse tempo perdido”_ Dionísio Santana, empresário

Tatiane Alcantara, que atua com uma marca própria na distribuição dos derivados de cacau, mantém expectativas por um projeto que leve a Costa de Camaçari ao protagonismo do Litoral Norte. “Nosso desejo é que o turista que vem do aeroporto não apenas passe por aqui em direção à Praia do Forte e Costa do Sauipe, mas que entre e fique em nossas praias”.  

Números 

  • 7 localidades formam a Costa de Camaçari: Busca Vida, Abrantes, Jauá, Arembepe, Barra do Jacuípe, Guarajuba e Itacimirim 
  • 30 praias ao todo compõem a extensão do litoral 
  • 90 mil visitantes, em média, escolhem a região como destino durante a alta estação 
  • 26o.C é a média da temperatura das águas do mar de Camaçari 
  • 10 km de distância entre a Costa e o aeroporto de Salvador 

Não para, só cresce 
Ao longo dos seus 262 anos, Camaçari foi palco de grandes transformações. Uma das mais emblemáticas foi a implantação do Polo Petroquímico, na década de 1970, que alçou o município ao patamar de cidade industrial. A região viveu um boom populacional com a chegada de trabalhadores de diversas partes do país em busca de oportunidades na indústria e formaram famílias.  

Camaçari (Foto: José Carlos Almeida/divulgação)

A partir daí nasceram as primeiras gerações de camaçarienses “pós-Polo”, como a assistente de atendimento Juliana Pinto, 42 anos, que recorda O período em que era possível dar a volta em toda Camaçari de bicicleta.

“Meu pai trouxe a família numa época em que tudo começava a se desenvolver em um passo mais rápido, e minha identidade com a cidade se formou pelo fato de crescermos juntas. Vi tudo mudar e hoje não cogito sair daqui”_Juliana Pinto, moradora de Camaçari 

Para Juliana, um dos principais atrativos é que, apesar do clima de metrópole, a cidade preserva um ritmo de interior que pode ser notado nos costumes dos seus moradores.

“É engraçado quando pensamos que são mais de 300 mil habitantes. Hoje, quando vou ao Centro, em cada esquina que viro, encontro amigos de infância, as pessoas se cumprimentam, a vida não tem a mesma velocidade de Salvador ou Lauro de Freitas, por exemplo”, comenta. 

Saúde facilitada 
Apesar do desenvolvimento em meio ao seu clima acolhedor e traços interioranos, como toda grande cidade, Camaçari tem obstáculos a serem vencidos ao longo dos próximos capítulos da sua história. A condição para isso, porém, passa pela união dos setores público e privado, como vem sendo o caso da saúde do município, que recebe desde 2017 reforço do Hapvida através do sistema complementar. Responsável pelo SEMED, um dos maiores hospitais do interior da Bahia, o grupo oferece atendimento em uma ampla lista de especialidades, facilitando o acesso do cidadão à saúde. 

De acordo com Anderson Nascimento, superintendente nacional da Rede Própria do Sistema Hapvida, a relação entre o grupo e Camaçari fez surgir uma identidade com a região.

“Enquanto parte do sistema de saúde complementar, nós reconhecemos a missão de ajudar, de fato, o SUS para garantir que o cidadão tenha o direito básico de acesso à saúde. E o município tem sido um ponto focal de investimentos para o nosso grupo, pois entendemos a importância dele não só para a Bahia, como para todo o Brasil”_Anderson Nascimento, superintendente nacional da Rede Própria do Sistema Hapvida

Crescimento pela educação 
Para a assistente de atendimento Juliana Pinto, as novas gerações de camaçarienses são formadas por grupos que partilham uma identidade com a cidade e têm o desejo de prosperar junto com ela, por isso deseja que investimentos na área da educação diversifiquem as opções de formação e ajudem no desenvolvendo dos futuros profissionais que vão trabalhar por seu crescimento.

“As pessoas querem se qualificar e devolver isso para a cidade. Não há nada que traduza o progresso como uma população que cresce junto com o seu lugar”_Juliana Pinto, assistente de atendimento

Um exemplo é o estudante Marcone Ferraz, que se prepara para disputar uma vaga no curso de Engenharia Mecânica. Ele cresceu em Camaçari e que trabalhar no Polo Industrial, mas deseja também que a cidade ofereça mais qualificações profissionais.

“Hoje, apesar das opções que temos aqui, a maioria das pessoas prefere ir para Salvador estudar. Acredito que, no futuro, quando tivermos uma maior integração entre as oportunidades da indústria e a formação na própria cidade, ao invés de sair daqui, Camaçari atraia pessoas não só em busca de emprego, mas também para se formar, criando ainda mais oportunidades”, aponta. 

De pequenas e grandes empresas 
Desde que começou a trabalhar em uma empresa de petroquímicos, há 15 anos, o técnico Daniel Figueiredo viu o Polo de Camaçari passar por altos e baixos, com a saída e chegada de indústrias, mas no início da pandemia temeu como nunca os impactos que a situação teria sobre o parque.
“Foi um pouco assustador, mas, com o tempo, vimos a produção seguir firme e até aumentar em alguns momentos. Percebi, inclusive, que muitas indústrias daqui devem até sair melhores do que entraram”, afirma. 

Dos 262 anos que Camaçari completa hoje, os últimos 42 contaram com a presença do Polo Industrial, considerado o maior complexo industrial integrado da América Latina. De acordo com o superintendente geral do Comitê de Fomento Industrial de Camaçari, Mauro Guimarães Pereira, a expectativa para o ambiente de negócios é de aquecimento após a pandemia, com uma temporada de aporte de novos investimentos na cidade. 

Incentivos corretos 
Mas para que esse novo momento seja duradouro, o executivo acredita que o poder público precisa estar atento para proporcionar os incentivos corretos que o momento vai demandar.

“Hoje, acompanhando o interior de São Paulo e Minas Gerais, vemos regiões com políticas agressivas de atração de investimentos. As estratégias de alguns municípios está 30 a 50 anos à frente da nossa realidade”_ Mauro Guimarães Pereira, superintendente geral do Comitê de Fomento Industrial de Camaçari

Uma das principais frentes de investimento, segundo Mauro, é a infraestrutura logística da região Nordeste. “Temos que estar preparados para atrair negócios do exterior e seduzir empresas que hoje estão investindo no Sudeste e poderiam estar aqui”, completa.  

Força econômica 
Até o início da pandemia, o faturamento anual de Polo girava em torno de US$ 15 bilhões, com vendas para o mercado externo correspondentes a cerca de 30% do total das exportações baianas e uma contribuição em ICMS para o Estado de R$ 1 bilhão/ano. A renda proveniente dos negócios do complexo industrial equivale a 90% da arrecadação tributária dos municípios de Camaçari e Dias D’Ávila e por cerca de 22% do PIB da Indústria de Transformação do Estado da Bahia. 

Polo Industrial de Camaçari (Foto: divulgação) 

De acordo com o superintendente do Cofic, as empresas que integram o complexo industrial vêm unindo esforços para escapar do difícil quadro da atualidade com a melhor resposta possível, atuando com as ferramentas corretas para criar novas oportunidades de investimento, gerar empregos e ampliar mercados no Brasil e no exterior. Uma outra forma de potencializar o futuro da produção do Polo Industrial de Camaçari, segundo Mauro Pereira, é trazendo mecanismos para incentivar o pequeno empreendedor a prosperar. 

O executivo explica que os entraves burocráticos pesam sobre o menor empresário. “Quando se pensa no desenvolvimento do Polo, o discurso acaba recaindo para a atração de grandes empresas, mas defendo que criemos um ambiente para que aquele técnico de uma empresa que tem expertise e uma boa ideia possa conseguir os incentivos corretos para iniciar sua própria indústria e assim gerar mais renda e oportunidades dentro do próprio município”, explica.  

O Polo em números: 

  • Início de atividades: 29.06.1978 
  • Empresas em operação: 90 
  • Principais segmentos: químico-petroquímico, química fina (fármacos), celulose, têxtil, metalurgia do cobre, fertilizantes, automotivo, energia eólica, bebidas, serviços
  • Investimento global: superior a US$ 16 bilhões 
  • Empregos: 15 mil diretos e 30 mil indiretos 
  • Faturamento: US$ 15 bilhões/ano 
  • Exportações: mais de 30% do total exportado pelo Estado da Bahia 
  • Impostos: R$ 1 bilhão/ano em ICMS (BA)
  • Mais de 90% da receita tributária de Camaçari e Dias D´Ávila 
  • Participação no PIB da Indústria de Transformação/Bahia: 22% 


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