Cerimônia do chá

kátia borges
05.06.2022, 06:30:00

Cerimônia do chá

Enquanto a água esquenta na chaleira de porcelana, espio da varanda o tempo nublado sobre o mar do começo de junho. Os japoneses fizeram da arte de preparar o chá um jogo secular chamado tocha, que consistia numa degustação às cegas, e numa delicada cerimônia. O ritual de consumir o matcha tem uma beleza toda própria.

Antes de dar os três goles essenciais na bebida, come-se o anko, doce feito com feijão japonês azuki, que serve para arejar o paladar. Deixa sempre uma reserva de pó verde no fundo da xícara. Faz barulho com a boca. Usa seda para coar, vareta de bambu, espátula. E há sempre um outro a quem se serve, num protocolo de encontro.

Eu me encontro comigo, distraída, ao esperar que a água esquente. Será hoje, penso com força. Resposta breve, mensagem longa, cairá no colo. Se não cair, pego no ar. Feito alguém que apanha páginas soltas do miolo de um livro que, levadas pelo vento, compõem capítulos fora do percurso. O frio baiano erguerá as folhas.

Me iludo que sei o que virá. Mas a esperança escapole, voa, escorre, camufla o corpo de cobra-cipó e de chá de matcha puro entre as plantas. Finalmente nos deixo em paz, e o silêncio que escolho nos acolhe. É como se isolar voluntariamente nas estranhas de um inverno solar. Ausência numa festa à qual não se vai por vontade.

Ouve essa música raivosa que sacode os móveis? Ela vem de lá. Eu a escuto ao longe como se fosse uma voz suave. Queria me confessar, mas desisto, e é isso, é assim que o mais bonito se revela entre as pessoas. Simplicidade, contemplação, respeito e equilíbrio. Eis os quatro pilares firmes que sustentam o caldeirão.

Enquanto tudo se demora, a chuva e a semana, a chaleira apita, trem que descarrila e estanca. É a hora. Qual era mesmo o seu nome antes de abrir os olhos pela primeira vez? Virá que eu vi, na manhã nublada de junho. “As ameaças e as guerras, havemos de atravessá-las, rompê-las ao meio, cortando-as como uma quilha corta as ondas”.

Bebo meu chá verde enquanto leio Maiakovski, sem qualquer cerimônia.

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