César Romero: Miragens flutuantes

césar romero
09.04.2017, 00:01:00

César Romero: Miragens flutuantes


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Em exibição no MAM - Museu de Arte Moderna da Bahia, no Solar do Unhão, a exposição de pintura Retratos do Mundo Flutuante, do artista plástico Chico Mazzoni, até o dia 7 de maio. 

Chico Mazzoni é um artista inquieto. Desde que consolidou a fase da tinta acrílica em relevo, Chico tem se entregado à possibilidade desenhadora que o material lhe oferece, com o traço que sai da bisnaga para a tela, dominando inteiramente o seu jogo de soluções plásticas e confirmando a sua inicial predileção pelo desenho, entre as técnicas experimentadas. Entretanto, após explorar à exaustão a figura como motivo, sua arte está cada vez mais tendendo à abstração.

Disposto a enfrentar novas problemáticas, Chico confronta com coragem os aparentes empecilhos que poderiam derivar da sua formação de arquiteto. O seu projeto das Cidades Invisíveis, de 2010, responde a esse confronto. Nele, as invisíveis cidades desenhadas trocam meios urbanísticos por pictóricos para transmitir uma ideia de cidade. Esse exercício de representação inesperada do ente urbano induz o artista/arquiteto a uma mudança da escala dos motivos e dos seus repertórios de linguagem que desencadearão, em sua trajetória, um processo inevitável. É no elaborar dessa série que se inicia, necessariamente, seu flerte com a abstração, uma velha aspiração desde que teve contato, na adolescência, com um texto do artista japonês Katsushika Hokusai (1760-1849): “Aos 90, penetrarei no mistério das coisas; aos 100, terei decididamente chegado a um grau de maravilhamento – e quando eu tiver 110  anos, para mim, seja um ponto ou uma linha, tudo será vivo”. 

Na mostra seguinte, Tramas Sinceras, de 2014, comemorando 30 anos de carreira, Chico não se limita a reinterpretar seus habituais temas, motivos e técnicas, sugerindo uma tessitura nova, onde os fios se enodam seja em soluções ainda figurativas, ou já decididamente abstratas, numa continuidade lógica, embora nem sempre consciente, da velha aspiração despertada pelo artista japonês, autodenominado louco, Hokusai.

Nesses Retratos do Mundo Flutuante, Chico pende mais que nunca para a abstração, embora a figura eventualmente se insinue em suas paisagens imaginárias, que sugerem miragens, aberturas para outras dimensões que ameaçam revelar o indizível. A mostra é inspirada na gravura japonesa Ukiyo-e, realizada no período Edo, com matrizes em madeira, entre os séculos XVIII e XIX que chega ao Ocidente como papel de embrulho da porcelana oriental, objeto de desejo da aristocracia europeia. O impacto da estranheza dessas novas imagens longínquas, sobre os artistas da Europa, tanto quanto a arte primitiva africana, que também chega lá na mesma época, vai engendrar o embrião do que mais tarde chamaríamos de Arte Moderna. Um dos mestres do Ukiyo-e é exatamente o citado Katsushika Hokusai, exímio ilustrador de trabalhos literários, que se vale da técnica para tornar popular a paisagem enquanto tema.

A Grande Onda de Kanagawa, que abre o catálogo da mostra, numa homenagem a Hokusai, será, possivelmente, a sua gravura mais conhecida.

Retratos do Mundo Flutuante é a tradução literal de Ukiyo-e. O artista busca inspiração mais no conceito que na forma desse tipo de gravura que reconhece e considera o caráter fútil e ilusório da existência mundana, dentro do preceito budista. Viver para cada momento, deixar-se transportar pelo rio da vida como uma cabaça à deriva seriam o verdadeiro significado do Ukiyo-e. Partindo disso percebe-se, com clareza, as novas chaves de decodificação pictórica de Chico, com tratamentos sutis de traço e cor, onde podem-se vislumbrar as paisagens afetivas, oníricas, fantasiosas e lúdicas do seu imaginário.

Nessa mostra, encontramos desde paisagens facilmente reconhecíveis, como  Estrada do Coco, até cenas inesperadas, domésticas, como cristais, poéticas, como pingos de chuva, chegando à abstração absoluta, porém inusitada, Grito (foto), como era a meta do artista.

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