Cidade que inova: Nos últimos anos, Salvador registrou 202 patentes de invenção

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29.03.2021, 19:00:00
Adaptação e aprimoramento do modelo da Nasa pelo Senai Cimatec permitiu a produção do respirador em larga escala no Brasil (Foto: Divulgação)

Cidade que inova: Nos últimos anos, Salvador registrou 202 patentes de invenção

A capital é ainda a maior do Norte/Nordeste em número de startups e ocupa a 8ª posição entre as cidades de todo país; conheça alguns exemplos dessa inovação

Não duvide se chegar na sua casa uma manga comprada no supermercado em uma embalagem feita a base de coco e mandioca. Nem deixe de acreditar na possibilidade de acabar com super bactéria na base da luz de LED. Salvador é mais inovadora do que se imagina.  E é mesmo, a gente inventa é coisa. De 2018 até 2020, a capital baiana somou 202 registros de patentes de invenção, crescimento de 31%. Na Bahia,  foram 370 registros. Destes, quase metade são de Salvador (45,4%). Os números são do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). 

Da vacina contra alergia até a primeira “robôa” travesti da América Latina, especialistas em tecnologia dos principais centros de referência em pesquisa que estão localizados aqui, destacaram 10 exemplos dessa inovação toda, made in Salvador (confira abaixo). Na lista tem também um respirador pulmonar que aprimorou um modelo da Nasa e de tão bom que ficou, foi o primeiro no mundo e único homologado no Brasil pela agência espacial americana. A chamada pública para licenciar a tecnologia atraiu 331 empresas do planeta e 30 do país. Do total, 28 foram selecionadas – nove delas dos EUA e duas no Brasil, a Cimatec e a Russer. Mas adivinha quem venceu a disputa?  

A criatividade de pensar soluções é uma característica muito nossa. É o que afirma o gerente de Serviços Tecnológicos e Empreendedorismo do Senai Cimatec, Flávio Marinho.

“Quando você tem uma população tão diversa como nós temos, conseguimos enxergá-la de múltiplas perspectivas. É conectar essa capacidade criativa com a de converter isso em valor e torná-lo um produto que vai para o mercado”.

Além da criatividade, coloque na fórmula, o pioneirismo, como destaca o coordenador do Núcleo de Inovação Tecnológica da Universidade Federal da Bahia (NIT/Ufba), André Ghirardi.  Diversas áreas da instituição produzem produtos e processos patenteáveis. Agora, as áreas com maior número de pedidos de patentes são as de ciências da saúde, engenharia, química e farmácia. Até o final de 2020, a Ufba tinha 122 pedidos ativos. 

“Ao conceder a patente, o INPI reconhece que houve atividade criativa, que a criação é nova, e que tem potencial para interessar a empreendedores”, pontua. Para Ghirardi, incentivar a inovação significa estimular a pesquisa e a atividade empreendedora. Para abrir essa janela, é necessário financiamento.

“A atividade depende de pessoal capacitado e recursos, ou seja, de investimento público em educação e alívio da carga tributária do pequeno”.   

Panorama 
Centros de formação, pesquisa, desenvolvimento e inovação, que trazem reconhecimento nacional e internacional são mais alguns fatores que jogam a favor do ecossistema de inovação da cidade. É o que  ressalta a secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado (Secti-BA), Adélia Pinheiro.  

Em 2021, os investimentos em ciência  e tecnologia ultrapassaram R$ 165 milhões. “Salvador é um símbolo forte desse quadro da Bahia. O esforço é democratizar o acesso ao empreendedorismo inovador. Já existem ações, porém, é fundamental dar uma especial atenção a tudo que envolve esse ecossistema”.

Solo fértil para desenvolver as ideias, a capital tem. Desde o ano passado, foi criada uma lei que institui a Política Municipal de Inovação de Salvador (Lei 9.534/2020). De acordo com o secretário de Inovação e Tecnologia (Semit), Samuel Araújo, o objetivo é consolidar essa capacidade tecnológica e inovadora.

“Depois do Hub Salvador, estamos buscando recursos para a construção do primeiro polo criativo público-privado de Salvador e o primeiro polo de produção de economia criativa do país.  Logo, teremos um grande núcleo, exportando conhecimento para o Brasil e para o mundo”, adianta. 

E por falar em hub, muitas inovações nascem em projetos de pesquisa, se criam na academia e crescem nas startups. Dados da Associação Brasileira de Startups (Abstartups) colocam Salvador como a capital do Norte/ Nordeste com maior número de negócios nessa categoria. Destas, 206 são soteropolitanas e a cidade é a 8ª entre as  brasileiras. 

É bem capaz que nos próximos aniversários, Salvador tenha novas startups e empreendimentos mais maduros agregando valor ao ecossistema, como acrescenta o líder de comunidade do Hub Salvador, Enzo Alves.  “O importante é colaborar, fazer conexões e enriquecer a experiência da comunidade de inovação local”. 

*O Aniversário de Salvador é uma realização do jornal Correio com o patrocínio da Wilson Sons, Jotagê e CF Refrigeração e o apoio da Sotero, Salvador Shopping, Salvador Norte Shopping, JVF e AJL.

CONHEÇA 10 EXEMPLOS DE PROJETOS INOVADORES DE SALVADOR

1. Nova vacina para alergia
Um grupo de pesquisadores, liderado pela professora do Instituto de Ciências da Saúde da Ufba, Neuza Alcântara Neves, decidiu desenvolver uma nova forma de combater as doenças alérgicas sem efeitos colaterais. “Estas moléculas são mais seguras e podem levar a um tratamento mais rápido do que as vacinas de extrato bruto e sem manifestações colaterais que são comuns na vacina tradicional. Enquanto as vacinas com extrato bruto são aplicadas por pessoal médico, a nossa poderá ser ministrada em casa”, esclarece.

Vacina para alergia é a primeira a combater ácaro de poeira, a blomia topicalis 
(Foto: Divulgação)

 A professora acrescenta ainda, que o grupo foi o primeiro do Brasil a produzir moléculas hipoalergizadas para tratar asma, rinite e outras doenças alérgicas e o pioneiro no mundo contra a blomia topicalis, um ácaro da poeira, importante fonte de causadora de infecções.

“Precisamos realizar as análises pré-clínicas e iniciar os estudos clínicos. Na área de imunoterapia, somos os primeiros a ter resultados com potencial de termos uma vacina para alergia contra ácaros, com capacidade de ser comercializada”, reforça a pesquisadora.

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2. Respirador Vida
O aprimoramento da tecnologia da Nasa em território soteropolitano permitiu o  desenvolvimento de um ventilador pulmonar de baixo custo e rápida produção em larga escala. O gerente executivo de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação do Senai Cimatec, Daniel Motta, pontua que o maior diferencial foi montar em plena pandemia, um respirador que não utiliza itens da cadeia tradicional dos ventiladores mais completos, que pudesse garantir a sua industrialização no Brasil. 

O respirador Vida foi o primeiro no mundo e único no Brasil a ser homologado pela Nasa
(Foto: Divulgação)

O Vida proporcionou também que os equipamentos mais completos ficassem a disposição dos pacientes em estado gravíssimo. Ele é o único do segmento a suspender o funcionamento durante um procedimento de reanimação, sem perder os parâmetros ajustados antes.

“O produto está disponível no mercado  e é um exemplo de cooperação entre instituições renomadas, que se juntaram para ajudar a população mundial em um dos períodos mais difíceis da nossa história recente”. O projeto Vida conta com o apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (EMBRAPII).

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3. Pele sintética
Ainda quando estava na faculdade de Medicina da UniFtc, Daniel Boczar, sentia dificuldade em encontrar um material para praticar técnicas de sutura, até desenvolver a SutureSkin, um modelo de pele que simula camadas de epiderme, derme, gordura e músculo, projetado para treinos. 

Boczar entrou para a lista da Forbes, após desenvolver a pele sintética quando ainda estava na faculdade de medicina
(Foto: Divulgação)

“Eu praticava em camisas porque os simuladores são importados e muito caros. Queria criar minha própria pele artificial”. Durante o processo, nem o sofá de casa escapou. “Por incrível que pareça, foi o meu primeiro protótipo. Com o tempo fui aperfeiçoando a fórmula até chegar na versão atual. Hoje, a principal patente da SutureSkin é de tensão ajustável, ou seja, um sistema onde a pele artificial dobra e com a tensão essa trilha se abre”, conta Boczar, que entrou no ano passado para a lista Under 30 da Revista Forbes, que reúne nomes de jovens bem sucedidos de até 30 anos.

“A empresa tem só cinco anos no mercado e vende, atualmente, para várias instituições de ensino e universidades, inclusive, o Medgrupo, a empresa brasileira referência de cursos médicos no país”, acrescenta.

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4. Time octacampeão de futebol de robôs  
Esse título, seleção nenhuma tem, mas Salvador, sim.  O time BahiaRT é o primeiro octacampeão brasileiro no desafio de Futebol de Robôs Simulação 3D. E o nome do artilheiro é robô Bill, que representa o BahiaRT em outra competição, o RoboCup@Home.

Bill foi o primeiro robô do Brasil a disputar o RoboCup@Home
(Divulgação)

Bill foi o primeiro robô de serviços do Brasil a disputar esta competição. Parece só esporte? Mas não é. “O robô Bill inspirou diversas universidades do Brasil a construírem robôs de serviços para competirem na categoria. Além de formar talentos, os resultados da pesquisa estão sendo transferidos para um time de drones e aplicados em inspeção de oleodutos e transporte de cargas em plataforamas da indústria de óleo gás”, pontua o professor da Uneb que está à frente das competições, Marco Simões.

Ele é o primeiro pesquisador brasileiro a integrar o Comitê Executivo Internacional da RoboCup Federation, que organiza a “Copa do Mundo” dos Robôs. “Em Salvador, foi criado o primeiro curso superior de Processamento de Dados do Brasil. O nosso potencial é natural”.

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5. Terapia de luzes contra bactéria resistente
Esse foi o método que o pesquisador Fernando Sampaio desenvolveu em seu doutorado em Biotecnologia em Saúde pelo Instituto de Ciências da Saúde (ICS) da Ufba para conter a ação do enterococcus faecalis. O microorganismo causa lesões dentárias, principalmente em canais e uma série de infecções - entre elas, a urinária, intra-abdominal e na corrente sanguínea - que podem levar o paciente a óbito, já que também está associada à casos de infecção hospitalar.

Terapia de luzes é indolor, sem contra indicações e de baixo custo
(Foto: Divulgação)

“É uma bactéria com potencial para gerar quadros graves, que está presente no dia-dia das pessoas. Trouxemos uma tecnologia com luz laser e LED pioneira para se implementada clinicamente que se mostrou eficaz, seletiva, indolor, sem contra indicações, de baixo custo e que não gera  cepas mais resistentes”.

A terapia aplicada em tratamentos odontológicos levou três anos para ser desenvolvida e alcança um percentual de inibição bacteriano de 99,999998%. O trabalho se expandiu e estão sendo criados aparelhos protótipos de LED  para uso clínico.

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6. Cirurgia 360º
Pela primeira vez, uma cirurgia renal foi gravada ao vivo em 360º graus. A técnica que proporciona ao expectador observar com precisão tudo o que está ocorrendo na sala cirúrgica, foi apresentada no final do ano passado, pelo médico urologista e coordenador da Endourologia e Litíase Urinária do Hospital Universitário Professor Edgard Santos (Hupes/Ufba-Ebserh), Fábio Sepúlveda.

Técnica de transmissão de cirurgia utiliza tecnologia 3D
(Foto: Divulgação)

“Foram dois anos de pesquisa, muitas tentativas frustadas, mas conseguimos o aperfeiçoamento da tecnologia  para  a transmissão em 3D. Recebi o convite para realizar uma cirurgia renal, ao vivo, no Congresso Paulista de Urologia, o maior evento da especialidade no Brasil. Neste dia ganhamos uma janela para o mundo. Nunca uma cirurgia completa havia sido transmitida com fins educativos num ambiente imersivo de realidade virtual e aumentada”, pontua.

O VR – Residente Virtual, foi desenvolvido junto com Adrianno Santana, da empresa baiana XC Filmes, especializada em produção de vídeos. “Esperamos disponibilizar mais conteúdos ao longo do ano de 2021, em diversas áreas cirúrgicas”. 

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7. Filtro de ar que neutraliza a contaminação no ambiente
A pandemia levou a startup Salvar a criar um filtro de ar-condicionado que pudesse evitar a proliferação do coro-
navírus pelo equipamento. “Queríamos aplicar a tecnologia da máscara nos aparelhos de refrigeração e criar, assim, uma máscara para o ar-condicionado. Somos 99,9999% eficazes contra a covid-19, como também 80% no combate a fungos e bactérias”, afirma o ceo da Salvar,  Loyola Neto.

Filtro de ar-condicionado criado pela startup Salvar, já está sendo negociado com empresas de ônibus 
(Foto: Bruno Costa/ Divulgação)

O novo produto já passou por fase de testes  e a patente do filtro como um Equipamento de Proteção Coletiva (EPC) no combate à covid foi depositada em dezembro. A startup já está negociando contratos com empresas de ônibus do Rio Grande Sul (RS) e Minas Gerais (MG) para a instalação do filtro em toda frota.

“Estamos falando de escolas, hospitais, estabelecimentos, transportes públicos que carecem de soluções para esses grandes transmissores. Só de olharmos para o grande mal que os aparelhos causam com os aerossóis do vírus em ambientes fechados, pensar que o filtro pode ajudar, já é uma escala imensa a ser atingida”.

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8. Dianóstico em segundos
A pesquisa surgiu com a intenção de se explorar técnicas de Inteligência Artificial (IA) para colaborar no combate à pandemia da covid-19. Foi aí que o suporte do supercomputador AIRIS, sediado no Cimatec, entrou no projeto para colaborar no diagnóstico da covid-19 por exames de imagem e também fornecer uma previsão de curto prazo da evolução da pandemia.

Supercomputador leva 60 segundos para processar um diagnóstico de covid
(Foto: Divulgação)

“O supercomputador leva poucos segundos para processar um diagnóstico de uma imagem de raio-x, e, aproximadamente, 60 segundos para processar um conjunto completo de um exame de tomografia computadorizada”, ressalta o pesquisador líder de Inteligência Artificial no Senai Cimatec, Erick Sperandio.

As informações tem acessos mapeados de diversos locais da Bahia, do Brasil e  do mundo também. “O projeto contribui bastante,  principalmente, em um cenário em que há enorme pressão sobre o sistema de saúde, com diagnósticos mais céleres e tomadas de decisões mais assertivas por parte dos gestores”. Os dados estão disponíveis em covid19.fieb.org.br/dashboard.

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9. Embalagem sem plástico e à base de mandioca e coco  
Uma demanda do mercado consumidor por produtos mais práticos e saudáveis, associado ainda, as preocupações cada vez maiores em relação à geração de resíduos plásticos. É justamente aí que começa a jornada do projeto que criou uma embalagem totalmente biodegradável e com potencial de ganhar uma produção em escala para embalar mangas processadas (sem casca e sem caroço) - lembrando aqui, que a Bahia é um grande exportador da fruta.

Embalagem a base de coco e mandioca aguarda parcerias com empresas para começar a produção em escala
(Foto: Divulgação)

E essa embalagem é feita de quê? Mandioca e coco. Quem esclarece o processo é a professora do Centro Universitário Senai Cimatec, Bruna Machado, que lidera o projeto, desenvolvido em parceria com a Ufba e a Embrapa:

“As embalagens foram feitas a partir do amido da mandioca e reforçada por nanocristais de celulose obtido por resíduos de fibra de coco, mais de ácido cítrico, glicerol e corante natural de urucum”. O fechamento de novas parcerias com o ramo privado vão permitir a ampliação da escala. “Esse é próximo passo do nosso projeto”, acrescenta Bruna.

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10. ‘Robôa’ travesti contra DSTs
Digam olá para Amanda Selfie, a primeira robôa travesti da América Latina, criada a partir de tecnologia de inteligência artificial para levar informações sobre a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, como o HIV. Amanda integra o projeto PrEPara Salvador, que reúne um conjunto de ações de cuidados à saúde, coordenado pela professora do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA, Inês Dourado, e pelo professor do Departamento de Ciências da Vida da UNEB, Laio Magno.

Amanda Selfie traz informação sobre DSTs e também marca consulta com especialista via Messeger do Facebook
(Imagem: Divulgação)

A iniciativa contou ainda o apoio de outras universidades, como a USP e UFMG.  Para se aproximar do público, Amanda usa uma linguagem inspirada no pajubá (instrumento linguístico-cultural que agrega vocabulário africano e da comunidade trans).

“Por meio do messager do Facebook (www.facebook.com/amandaselfie.bot/), ela informa sobre efeitos colaterais de interações da profilaxia pré-exposição (PrEP) com hormônios, álcool e outras drogas, tipos de testagem para HIV e profilaxia pós-exposição, além de  agendar  consultas com profissionais de saúde”, afirma Laio Magno.
 




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