Cinco anos após incêndio, casarão onde viveu Castro Alves se tornou morada do descaso

salvador
26.08.2018, 05:22:00
Atualizado: 30.08.2018, 09:50:46

Cinco anos após incêndio, casarão onde viveu Castro Alves se tornou morada do descaso

Solar Boa Vista foi atingido por chamas em janeiro de 2013 e continua fechado

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Foi como se Castro Alves tivesse previsto o futuro. No século XIX, ele escrevia o poema A Boa Vista, sobre o casarão batizado de Solar Boa Vista e onde passou parte de sua vida. Falava de um jardim inculto, roseiras mortas, estátua caída, musgo trepando muros e ervas inundando a terra. Era, para ele, uma relíquia do passado e um parque arruinado. 

O problema é que, provavelmente, nem em suas piores previsões, o poeta Castro Alves teria conseguido imaginar a situação atual do Solar Boa Vista, localizado no Engenho Velho de Brotas. Depois de ter sido praticamente destruído por um incêndio em janeiro de 2013, o casarão que também já abrigou o Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira, a prefeitura de Salvador e a Secretaria Municipal da Educação (que funcionava lá, na ocasião das chamas), o casarão, que atualmente tem o governo do estado como proprietário, vive rodeado de fantasmas: do abandono e da insegurança. 

“Está tudo destruído, depredado. A única coisa que está prestando ali é para ser casa dos moradores de rua. É uma coisa vergonhosa”, desabafa o presidente da Associação Renovação do Engenho Velho de Brotas, o corretor de imóveis Jailton Ribeiro, 56 anos.

Morador do bairro desde que nasceu, ele é um dos vizinhos que não consegue acreditar no estado do Solar. 

De dentro do solar, Jailton é um dos moradores que denuncia a situação atual do prédio (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1938, o Solar Boa Vista não tem mais teto, assoalho e escadas. Não tem mais dignidade. Em seu lugar, entraram pichações, trepadeiras e restos de madeira que ameaçam desabar. Ao redor do prédio, tapumes tentam impedir a entrada de invasores. Mas, segundo moradores, não é bem o que acontece. 

“Entra gente aí para usar drogas, homem para fazer coisa com mulher. E não tem horário: às vezes, eles vêm de manhã mesmo”, revela uma jovem de 18 anos que trabalha em frente ao local. Com medo de represálias de algumas pessoas que frequentam o solar e o parque hoje, ela prefere não se identificar. Na tarde de quinta-feira (23) e na manhã de sexta-feira (24), quando o CORREIO esteve no local, uma pessoa dormia no casarão. 

Mesmo com tapumes, moradores de rua dormem no que restou do casarão (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Moradora do Engenho Velho de Brotas desde criança, tem visto o solar definhar gradualmente. Antes, diz ela, era comum que famílias trouxessem os filhos para brincar ali. Hoje, a maioria evita. À noite, no escuro, quem porventura estiver ali pode passar por sufoco. 

“Aqui está barril, minha filha. Os policiais já chegam atirando. Eu só fico aqui até 18h. Depois, vou ficar aqui fazendo o quê? Ficar aqui para tomar tiro? Se dependesse de mim, fechava isso aqui à noite, só deixava durante o dia”, diz a jovem. 

Dentro do casarão, as ruínas do incêndio se misturam ao lixo (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Do auge à queda
Quem viu o Solar sendo ocupado, como o funcionário de lava-jato Paulo Isidório, 58, prefere lembrar do passado. Ele começa a listar os eventos culturais que já viu acontecer no parque. No último São João, houve até uma festa que movimentou a comunidade. Pareceu ter trazido mais vida ao local. Depois, mais nada. 

“Era tudo uma beleza. Hoje, falta muita coisa mesmo. Podiam fazer um restaurante, colocar uma biblioteca, até mesmo um shopping. Qualquer coisa”, pede, sugerindo possíveis ocupantes para o casarão. 

Paulo sempre teve um lava-jato improvisado nos arredores do parque onde fica o solar. Por anos, cuidou dos carros de muitos servidores da Secretaria Municipal de Educação, o último órgão a ser sediado no local. Hoje, o lava-jato de Paulo é improvisado bem na frente do portão que dá acesso ao parque – que está sempre fechado. 

Até mesmo os tapumes foram vandalizados (Foto: Marina Silva/CORREIO)

O jovem Rafael da Silva, 25, que improvisou um lava-jato em frente ao solar, também não esquece dos momentos que brincou no parque, ainda criança. Era comum jogar bola com os amigos na área em frente ao casarão. 

Agora, ele diz que são os próprios moradores que precisam cuidar da limpeza da área.

“O mato em volta da casa estava tão grande que algumas pessoas tiveram que podar. A situação está precária mesmo, moça”, revela Rafael. 

Apesar de bem menos movimentado, alguns moradores usam a área do parque como atalho. Preferem passar pela área do Solar Boa Vista do que pelo entorno, que tornaria o caminho mais distante. Só que isso só costuma acontecer durante o dia. À noite, o medo de assaltos impera. 

“Tudo é um breu, então prefiro andar mais. Era tudo tão bonito e agora está desse jeito”, lamenta a diarista Solange Jesus, 50. Ela fica indignada quando é questionada se traria os filhos para o parque. Mãe de uma jovem de 24 e de um adolescente de 18, ela garante que não deixa que eles andem por ali. “Nenhum deles vem, pela insegurança mesmo. É uma pena, porque uma área enorme dessa poderia ter um uso diferente”. 

A maioria dos pais deixou de levar crianças para o local; hoje, só usam a área do parque como atalho de passagem (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Mãe de Luiza, de 11 anos, a dona de casa Leila Cristina, 53, também só usa o local como ponto de passagem. Nem passa pela sua cabeça levar a menina para brincar no local. “Eu parei de estudar cedo, mas sei que muita gente importante passou por essa casa. Castro Alves morou aí, né? Pois é, muita gente importante”, diz, lamentando. 

Segurança
Em nota enviada ao CORREIO, a Polícia Militar informou que, após receber denúncias de moradores sobre ocorrências de tráfico de drogas e roubos a pedestres na área, a 26ª Companhia Independente de Polícia Militar (CIPM/Brotas) intensificou o policiamento no Solar Boa Vista. 

“Além das rondas com viaturas, os policiais militares começaram a realizar abordagens itinerantes em horários estratégicos e, como resultado dessas ações, só neste mês de agosto a 26ª CIPM prendeu em flagrante dois homens que estavam traficando drogas no local”, dizem. 

Ainda segundo a PM, a comunidade local tem aprovado ações ostensivas da PM, que continuarão por tempo indeterminado. A PM ainda informa, na nota, que quem tiver alguma denúncia sobre a atuação de policiais podem telefonar para a Ouvidoria, através do número 0800 284 0011.

Impacto da destruição 
O incêndio que destruiu o Solar Boa Vista aconteceu na noite do dia 3 de janeiro de 2013. Na época, autoridades divulgaram que cerca de 30% da estrutura do prédio foi destruída pelo fogo. As chamas foram combatidas durante toda a noite, mas duraram até a manhã do dia seguinte. 

Dois meses depois do incêndio, a perícia apontou que um curto-circuito teria provocado o início das chamas que atingiram o prédio, que é construído com alvenaria de pedras e tijolos argamassados.

Chamas começaram na noite de 3 de janeiro de 2013 (Foto: Arisson Marinho/Arquivo CORREIO)

Como havia materiais de fácil combustão – a exemplo da própria madeira usada na construção e materiais de escritório - nas proximidades, o fogo se espalhou rápido. O final só não foi mais desastroso porque o fogo foi, de certa forma, contida pela grande espessura das paredes. 

Para o arquiteto e historiador Francisco Senna, porém, apesar do estado atual, ainda é possível restaurar o casarão – desde que haja investimento, pondera.

“A restauração é um processo caro, que requer especialistas num trato disso e um material muito específico”, afirma Senna. 

Ele defende que o Solar ganhe um novo ‘uso’. Ficar sem uso é pior do que não ter uso nenhum. “Se você não usa, o desuso é o maior fator de arruinamento (de um prédio histórico). Mas o uso deve ser adequado. Não sei que estudo fizeram lá, mas é um edifício com vocação grande para as áreas cultural e educacional. É um grande parque para uma comunidade carente de atividades desse tipo, mas o que eu sinto é que as coisas vêm com tanta lentidão e as obras não se iniciam que cada vez mais vai se tornando dispendioso”. 

Solar vai abrigar centro estadual de laudos
Embora tenha sido tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o Solar Boa Vista ainda pertence ao governo do estado. Em nota enviada ao CORREIO, o Iphan ressaltou que o tombamento não retira a posse do imóvel nem impede que o proprietário ou administrador atuem para conservação, uso e preservação dele. 

“Em outras palavras, significa dizer que, a partir do tombamento, e como consequência dele, o Iphan passa a ter responsabilidade no acompanhamento da preservação do bem. Contudo, a responsabilidade pela conservação e demais ações de gestão e manutenção continua sendo dos proprietários”, afirmam. 

Ainda de acordo com o Iphan, ficou definido que o governo do estado e a prefeitura (que administrava o imóvel na época do incêndio, por cessão estadual) deveriam desenvolver um projeto para o casarão e enviar ao Iphan. Até agora, esse projeto não foi enviado.

Já a Secretaria da Saúde do Estado (Sesab) afirmou que o Parque Solar Boa Vista é composto por cinco prédios – dois que já estão ocupados por órgãos públicos e que não serão alvo de intervenções físicas neste momento. Já os outros três prédios, incluindo o Solar Boa Vista, vão passar por obras físicas e de requalificação, com o objetivo de sediar ações assistenciais na modalidade ambulatorial. 

De acordo com a Sesab, consultas prévias ao Iphan sobre o casarão já foram feitas e, em até 90 dias, deve ser entregue o projeto executivo com o detalhamento da implantação da Central Estadual de Laudos que compõe o escopo da Parceria Público-Privada (PPP) de Imagem. 

“O projeto está sendo elaborado dentro do que preconiza os instrumentos legais de proteção ao patrimônio material utilizados pelo Iphan. As duas outras edificações abrigarão a Central de Dispensação e Infusão de Medicamentos Especiais, bem como a Central de Tratamento de Feridas. As obras estão em fase final de conclusão, cabendo a instalação de equipamentos e mobiliário”, pontuam. 

A Sesab também informou que vai requalificar o entorno dos prédios, a partir de diretrizes determinadas pelo Iphan. 

Solar faz parte da história da Bahia (Foto: Arquivo CORREIO)

Casarão tem aquitetura rural no meio de Salvador, diz pesquisador 
Os primeiros registros do Solar Boa Vista datam de 1799. Na época, a propriedade era atribuída ao traficante de escravos Manoel José Machado e foi construído com mirante e pátio interno. Para o arquiteto e historiador Francisco Senna, é um dos prédios mais importantes da arquitetura desse período histórico. 

“Ele tem uma arquitetura rural dentro de Salvador, porque naquela época, era um local ermo. Tem um mirante, uma torre e uma capela do século XVIII”, afirma Senna.

Em 1858, o casarão foi comprado por Antônio José Alves, pai do poeta Castro Alves, que passou parte da vida ali. 

Já em 1869, o casarão foi comprado pelo governo e adaptado para que se tornasse um hospital, que inaugurado em 1873 com o nome de São João de Deus – era o primeiro hospital para pessoas com doenças mentais em Salvador. 

Em 1935, o hospital foi rebatizado de Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira, em homenagem ao médico baiano é considerado o fundador da disciplina psiquiátrica no Brasil. Algumas décadas mais tarde, em 1982, foi o momento em que o prédio se tornou a sede da prefeitura de Salvador, que ficou ali até 1985. Logo em seguida, a Secretaria Municipal da Educação ocupou o espaço em 2003. A secretaria funcionou ali até o incêndio de 2013. 

“Era um solar magnífico, de grandes proporções, situado em um terreno que é a única área de lazer do bairro de Brotas, que é um bairro linear. Ali, foi construído um parque para a população e um teatro, mas a área está vivendo o abandono e o descaso. Isso vem agravando cada vez mais e dificultando a restauração, porque, quanto mais abandonado, mais arruinado ele fica”, lamenta.

Poema "A Bôa Vista", de Castro Alves (cerca de 1867)

Longe o feudal castello levanta a antiga torre,
Que os raios do poente brilhante sol escorre!
Eil-o soberbo e calmo o abutre de granito
Mergulhando o pescoço no seio do infinito,
E lá de cima olhando com seus clarões vermelhos
Os tectos, que a seus pés perecem de joelhos!. . .

Não! minha velha torre! Oh! atalaia antiga,
Tu olhas esperando alguma face amiga,
E perguntas talvez ao vento, que em ti chora:
“Porque não volta rnais o meu senhor d’outr’ora?
Porque não vem sentar-se no banco do terreiro
Ouvir das creancinhas o riso feiticeiro,
E pensando no lar na sciencia, nos pobres
Abrigar n’esta sombra seus pensamentos nobres?

Onde estão as creanças —- grupo alegre e risonho
-- Que escondiam-se atraz do cypreste tristonho. ..
Ou que inforcaram rindo um Pulchinello.
Emquanto a doce Mãe, que toda amor, disvello
Ralha com um rir divino o grupo folgazão,
Que Vem correndo alegre beijar-lhe a branca mão?

E’ nisto que tu scismas, ó torre abandonada,
Vendo deserto o parque e solitaria a estrada.
No entanto eu — estrangeiro, que tu já não conheces -
No limiar de joelhos só tenho pranto e preces.

Oh! deixem-me chorar!. . . Meu lar. . . meu doce ninho!
Abre a vetusta grade ao filho teu mesquinho!
Passado — mar irnmenso!. . . innunda-me em fragancia!
Eu não quero laureis, quero as rosas da infancia.

Ai! minha triste fronte, a onde as multidões
Lançaram misturadas glorias e maldições. . .
Acalenta em teu seio, ó solidão sagrada!
Deixo est’alrna chorar em teu hombro encostada !

Meu lar está deserto. . . Um velho cão de guarda
Veio saltando á custo rogar-me a testa parda
Lamber-me após os dedos, porém, á sós comigo
Rusgando com o direito, que teem um velho amigo...

Como tudo mudou-se! . . . O jardim ’stá inculto
As roseiras morreram do vento ao rijo insulto. . .

Oh! jardim solitario! Reliquia do passado!
Minha’alma, como tu, é um parque arruinado!

Entremos!. . . Quantos echos na vasta escadaria,
Nos longos corredores respondem-me é porfia!. . .

Oh! casa de meus paes!. . . A’ urn craneo já vazio,
Que o hospede largando deixou calado e frio,
Compara-te o estrangeiro — caminhando indiscreto
Nestes salões immensos, que abriga o vasto tecto.
Mas eu no teu vazio — vejo uma multidão
Fala-me o seu silencio — ouço-te a solidão.
Povoam-se estas salas.. .”

 

 

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