Ciro Gomes: ‘O Brasil corre o risco de ser uma ex-nação’

bahia
20.06.2020, 11:00:00
(Foto: Arisson Marinho/Arquivo CORREIO)

Ciro Gomes: ‘O Brasil corre o risco de ser uma ex-nação’

Ex-ministro lança livro e propõe projeto que, em 30 anos, ofereça aos brasileiros padrão similar ao espanhol

Uma contribuição pessoal a uma reflexão inadiável sobre o Brasil, as raízes de seus  problemas e as pistas para sua solução. É desta forma que o  ex-ministro Ciro Gomes (PDT) define o seu novo livro "Projeto Nacional: O dever da esperança" (Editora: LeYa Brasil/274 páginas/Preço: R$ 49,90). Em entrevista exclusiva ao CORREIO, Ciro diz que o livro oferece um roteiro de trabalho para "devolver ao Brasil a esperança, a possibilidade de o país voltar a acreditar na política como uma forma de chegar a um futuro melhor".

O senhor acaba de lançar o livro Projeto Nacional: o Dever da Esperança. Como define a nova obra?

O livro é uma contribuição pessoal a uma reflexão inadiável sobre o Brasil, as raízes de seus graves problemas e as pistas para sua solução. É um mergulho no diagnóstico sobre o que aconteceu e o que está acontecendo contemporaneamente com o Brasil, um país que em tempos atrás   era o que  mais crescia no mundo e que recentemente teve a pior década da história, entre 2010 e 2020. Falamos sobre o fim da ditadura, a superinflação do período Sarney, o neoliberalismo tosco de Collor, a direita neoliberal de Fernando Henrique Cardoso, o nacional-desenvolvimentismo de Itamar Franco, o Lula com o populismo consumista, o governo Dilma. E todas essas forças se desmoralizaram. Ou seja, há um sintoma aí de que o problema do Brasil não é Francisco, Manoel ou Maria. É um problema estratégico. O livro  oferece não só um diagnóstico das principais questões que atrapalharam o nosso desenvolvimento com democracia, liberdade e justiça, como também apresenta  ideias capazes de direcionar o Brasil rumo a um futuro desejável.

O senhor propõe no livro um novo projeto nacional de desenvolvimento. O que vem a ser isso?

Vamos por parte. O livro explicita coisas muito complexas e, mais do que isso, desafios políticos extraordinariamente arriscados. Projeto supõe o que? Plano, metas, objetivos, orçamento, quem vai fazer. Tudo o que o Brasil não tem hoje. Ninguém é capaz de dizer para onde estamos indo  em nada do que é sério – como educação, saúde, infraestrutura, renda per capita, maturidade científica e tecnológica. No livro, proponho que o Brasil deveria impor a si uma tarefa muito realista, porém audaciosa: dá a sociedade brasileira um padrão de desenvolvimento humano equivalente ao espanhol num prazo de 30 anos. 

A ideia básica é que o Brasil precisa de um projeto. O Brasil precisa voltar à crença de que a nossa tarefa precisa ser planejada. Este planejamento não precisa ser um dirigismo estatista ao modo soviético, evidentemente que não. O Brasil corre o risco de ser, pela primeira vez na história, uma ex-nação.  Projeto como metodologia, como processo de construir um país que a gente sonha a partir da realidade que temos, comprometido com o desenvolvimento e com a percepção de onde estamos no mundo e sobre a miséria. Não é mais possível a gente fazer de conta que miséria será resolvida com políticas sociais compensatórias, por mais generosas que elas sejam.

E onde entra o papel do estado?

O estado entra como catalizador deste projeto. O estado, pela sua liderança democraticamente constituída, deve liderar esse processo. Não há outro ente que tenha legitimidade para fazer isso. É o estado que tem que coordenar este projeto, identificar as potencialidades do país, as oportunidades, assessorar o empreendedor brasileiro às práticas tecnológicas de vanguarda, de ponta.

E a questão nacional?

Hoje o neoliberalismo impôs, quase como uma fatalidade, que a economia é um fenômeno global. Eu sustento no livro que isto é uma mentira  e demonstro. Por que? Porque as condições objetivas de produzir, de trabalhar, de ter emprego, de pagar salários, de pagar impostos, não são globais. O mundo há dez anos pratica taxa de juros negativas. Em Salvador, se desconta uma duplicata hoje, em pleno desastre, a 1,5% ao mês.  O Brasil não tem o capital que deu origem ao Facebook, ao Google, a Microsoft, a Apple,  porque aqui no Brasil o mercado de capitais não existe. A escala da economia globalizada é mega, e o Brasil tem a sua característica de microempresa. E tem uma coisa, que talvez seja o mais grave, o mais dramático, que é o nível de maturidade tecnológica do país. O Brasil está ficando absolutamente marginalizado quando a gente observa o que está acontecendo no mundo em matéria de vanguardismo produtivo. 

Os investimentos nessa área são mínimos...

A aposta brasileira em ciência e tecnologia é trágica. Quer ver um número que eu trago no livro? O Brasil é 13º país do mundo em produção científica. O critério aí são os trabalhos publicados em revistas acreditadas. E somos o 76º em registro de patentes. Ou seja, a inteligência existe, nossa ciência está sendo desenvolvida, mas a transformação dessa ciência em utilidade prática para equipar o nosso empreendedor morre porque não temos mais política industrial de comércio exterior, não temos uma política nacional de financiamento.

E o nosso desenvolvimento?

Outra tragédia. O Brasil bota dois milhões de bebês nas maternidades todos os anos. E esses malucos botaram na Constituição um congelamento, por 20 anos, do gasto real em tudo, menos com os juros e a rolagem de dívida. Ora, como é que pode nascer dois milhões de brasileiros e eu não expandir por 20 anos a atenção materno-infantil?  A partir do momento que Fernando Henrique impôs e o lulupetismo legitimou esse tripé macroeconômico - câmbio flutuante, superávit primário e meta de inflação – o desenvolvimento no Brasil virou subproduto. A gente tem que repor isso e discutir todas essas questões que impedem o Brasil de ter um novo pacto. Se desenvolver é o objetivo, administrar os riscos e oportunidades dessa decisão é essencial para que o país possa atingir a renda per capita da Espanha em 30 anos, o que é absolutamente possível se o país crescer 5% ano acumulado.

Essa polarização política não atrapalha o país e emperra o crescimento?

Mais do que atrapalhar, vai matar o Brasil como nação se a gente não interromper isso. 

O que é pior: um governo corrupto ou um governo que despreza uma pandemia?

A incompetência, o negacionismo, a falta de comprometimento com a vida do povo, é trancendentalmente mais grave que a corrupção. Porém, a corrupção destrói a confiança do povo no sistema, mata a democracia. Generalizar a sensação de que toda a política pública é guiada por um corrupto, especialmente na cabeça dos jovens, mata a linguagem da democracia, que é a política. Eu reflito sobre isso também no livro. Você não pode contemporizar com a corrupção por essa razão. Porque em si ela faz muito mal pelo dinheiro que desaparece. Pior: mata a confiança das pessoas no sistema. Se a política vira no imaginário popular o pardieiro de pilantras, você tem aí um cenário perfeito para o conservadorismo. 

O governo brasileiro fala de uma queda de até 5% no PIB do país este ano por conta da pandemia. Qual a sua projeção?

Minhas simulações hoje indicam que o país cai pelo menos 6%, mas, dependendo de certas maluquices que estão fazendo por aí,  pode cair até 11%. Para você ter uma ideia, a tragédia mais grave que a história econômica do Brasil já viveu, foi durante o governo Dilma, quando o PIB caiu 3,3%, num ano, e 3,2% no outro. Estamos agora falando de 10%, isto significa três vezes mais num ano só.

E qual é a consequência prática na vida das pessoas desse tombo no crescimento do país?

 
Os primeiros sinais já estão aí. Entre janeiro e fim de março, 5 milhões de postos de trabalho foram destruídos no Brasil. No mês de abril, 860 mil vagas carteiras foram eliminadas - a maior destruição de empregos formais da história do Brasil. Tudo indica que o balanço de maio virá com mais 1,2 milhão de empregos com carteira assinada perdidos e assim sucessivamente. Em abril, o indicador da indústria foi de uma queda de 18,8% no faturamento

O dinheiro dos bancos que deveria ajudar as empresas neste momento tem demorado de chegar. Por que?

Isto é o mais grave. O Banco Central de Bolsonaro e Guedes liberou R$ 1,2 trilhão para irrigar o sistema financeiro sem nenhuma condicionalidade normativa. Na crença passiva, criminosa, de que botando esta montanha de dinheiro na rede privada, ela ia expandir o crédito e reduzir a taxa de juros pela super-oferta de crédito. Mentira. Como não houve norma, este dinheiro empossou nos bancos. O Brasil é um país sangrado. Essa gente [sistema financeiro] está ganhando dinheiro com a tragédia. Se isto for se acumulando nos próximos meses a gente vai para aquele cenário de queda de 11% no PIB.

E como sair desse atoleiro?

Neste momento, os democratas têm que fazer um esforço de mostrar à população que é preciso fazer o impeachment de Bolsonaro. As condições jurídicas estão dadas. Bolsonaro comete sistematicamente crimes de responsabilidade. Ele atenta quando tenta regular o funcionamento das instituições, quando vai para a porta de um quartel do Exército confraternizar com gente que está pedindo o fechamento do Congresso, do Supremo, pedindo um novo AI-5, intervenção militar. Ele comete crime de responsabilidade quando atenta contra a autonomia federativa, desmoralizando as condutas sanitárias, o isolamento social, sequestrando respiradores. Outro crime de responsabilidade é a tentativa de aparelhamento das instituições da República e a obstrução da Justiça.

Tem clima político para um impeachment?

Hoje, Bolsonaro ainda tem um terço da população lá pro sul do país e um quarto da população do sudeste, norte e centro-oeste. Com essa base, os políticos não têm sensibilidade para fazer o impeachment. Mas se esse cenário de pandemia e de desastre econômico se agravar, a democracia vai ter que ter uma saída e é preciso amadurecer essa saída porque ele [Bolsonaro] vai tentar o golpe.

Algum risco de golpe? As Forças Armadas podem se meter em mais uma aventura política?

Não acredito. Não há condição objetiva interna e nem internacional para um golpe. É preciso separar claramente os políticos, que são ex-militares, que ficam acenando toda hora como se tivesse esse poder de comando, que é muito mais para gerar um efeito de pressão, coação e tentar amedrontar os frouxos. Os profissionais das Forças Armadas em nenhuma hipótese tentarão um golpe. Claro que Bolsonaro está apostando na quebra da hierarquia. Internamente, porém, não tem ambiente para isso porque a grande burguesia não está nessa, diferente de 64. Os governadores dos principais estados não estão nessa.

E como isso seria recebido no exterior?
Da pior maneira possível. Na hora que houvesse um negócio desse [fechar Congresso e o Supremo e censurar a imprensa] o Brasil iria passar a ser um marginal para a comunidade internacional. O argumento mais vulgar: você acha mesmo que os militares vão correr o risco de serem confrontados – porque nós não vamos aceitar – de matar compatriotas num conflito para sustentar o Bolsonaro, um boçal que não tem preparo nenhum? Se eles fizessem o golpe era para colocar um general minimamente decente, equilibrado, para tentar estabelecer alguma conexão com a vida real do país, com algum segmento da imprensa, como foi lá em 64. Observe, os quatro grandes jornais do país (Estadão, Folha, O Globo e Jornal do Brasil ) apoiaram o golpe de 64. Hoje ninguém apoiaria.

O que o senhor destacaria como positivo no atual governo? Algum ministro tem se saído bem?
Eu detesto ser radical, mas estou chegando à conclusão de quem se dispõe a servir a um governo como o de Bolsonaro não presta. Eu vinha elogiando o ministro da Infraestrutura [Tarcísio Gomes de Freitas]. Aí vi recentemente ele anunciando que vai entregar 46 aeroportos. Não tenho nada contra. O aeroporto de Fortaleza eu ajudei a fazer a concessão. Não faz mal nenhum conceder aeroportos. Acontece que neste instante, de absoluta aversão e retração ao risco, os nossos ativos estão valendo o menor valor da história. Você entregar ativos desta natureza, neste momento, ou é crime ou tem propina. Nada mais explica.

E o cenário para 2022? O que é prioridade, neste momento, para a opsição? 

Hoje você tem muita confusão pesando nas costas dos brasileiros, mas a gente que tem obrigação de dar um pouco de luz ao debate e ajudar o povo a entender. Você tem duas coisas acontecendo. Uma é de emergência. É proteger a democracia contra a intenção golpista de Bolsonaro. Para isso nós temos que celebrar o mais amplo, generalizado e generoso consenso possível - esquerda, centro, direita. Quem estiver disponível, com palavras e gestos, defendendo a democracia, nós temos que aplaudir, estimular, dialogar e realizar a tarefa: proteger a democracia, proteger a liberdade de imprensa, proteger a liberdade dos trabalhadores reivindicarem, proteger a liberdade dos estudantes de se organizarem, proteger a liberdade dos artistas falarem sem censura e proteger o calendário eleitoral.

A outra tarefa é construir o futuro. E aí estão misturando muita coisa. Às vezes por ingenuidade, às vezes por malícia. Essa história de dizer que “temos que estar todo mundo juntos, o Bolsonaro é uma tragédia, vamos juntos”. Calma aí. Vamos todos juntos para onde? Para olhar o futuro, precisamos aprofundar nossas diferenças. É preciso avaliar junto com o povo o que aconteceu para o Brasil chegar ao fundo do poço. É preciso entender o que levou a sociedade brasileira, que votou seguidamente em candidatos progressistas, a esta guinada à direita. De repente, 70% do povo virou fascista? Ora, a Dilma ganhou do Aécio em Minas. E agora vamos fazer de conta que o povo mineiro é fascista? Não dá. Eu é que tenho que pedir desculpas? 

O rancor de Lula, o descompromisso de Lula, o egocentrismo de Lula, a alienação de Lula, a corrupção de Lula, que vá dizer isso. Eu sou contra. Quem produziu isso foi o colapso econômico e o escândalo moral generalizado promovido pelo lulupetismo corrompido e sem projeto. Temos que aprofundar o conhecimento sobre o que aconteceu com o Brasil para se reaproximar do povo. Portanto, se na primeira tarefa pede-se unidade para defender a democracia, a segunda pede um debate que nós aclaremos ou aprofundemos nossas diferenças de forma fraterna.


 

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