Como se volta a um lugar que não existe

kátia borges
01.12.2019, 05:00:00

Como se volta a um lugar que não existe

Perder pai e mãe é como recomeçar a vida em um país estrangeiro. Meus pais morreram na mesma data, no primeiro dia de dezembro, com uma diferença de treze anos. É como se tivessem combinado um encontro, eles que se desencontraram tanto. Cresci plateia desses desencontros, passaporte carimbado no bolso.

Em todos os documentos de adulto, a mesma foto sem jeito, a mesma expressão de espanto. Códigos que mesclam números e algarismos romanos. Nome de batismo, composto, escrito por inteiro. Assinatura inventada com letra de médico, quase um rabisco impresso. Ah, esses palimpsestos aleatórios.

Perder pai e mãe é como a arte de avançar em alfândegas. Prevê que se possua em ordem todos os documentos. Como se estivéssemos, até ali, estado sempre prontos para a fuga. Consiste em disfarçar o medo, erguer o queixo, ensaiar um riso. Novo rosto, se isso for preciso. Exercício de dessemelhança.

Leva décadas, esse exercício. Aprender o desapego. Escrutinar o rosto em busca dos traços que denunciam o que herdamos, por genética ou erro. No desassossego, atravessar fronteiras rumo a um continente possível, erguendo um lar onde só resta exílio. Perder pai e mãe é navegar sem âncora e sem bússola.

Sagitário com escorpião em vênus. Capricórnio com Lua em Touro. Inteiro, concreto, o mundo segue e, no entanto, somos apenas fragmentos que se despegaram de um imenso monolito de gelo rumo ao oceano. Ritos da água que avança, e que ganha novas formas, enquanto contorna os obstáculos.

Viver em um país estrangeiro requer o aprendizado de um novo idioma. Na distância, a infância ganha outro sentido, emergem palavras do interdito, lembranças de um outro universo. Não há caminho de volta. E, a cada ano, enquanto o tempo segue seu percurso, sinto que ainda me despeço.


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