Comunidade se une para limpar praias de Morro de São Paulo

bahia
23.10.2019, 05:00:00

Comunidade se une para limpar praias de Morro de São Paulo

O mutirão foi fundamental para que um dos principais destinos turísticos da Bahia tivessem suas principais praias liberadas para banho

Dos carregadores de malas que ajudam os turistas a subir o íngreme aclive no desembarque até os donos de restaurantes e pousadas: todos meteram a mão no óleo. Com o verão batendo à porta, a chegada, nesta terça-feira (22), em Morro de São Paulo do petróleo in natura que já atinge mais de 200 áreas dos 2.500 km da costa do Nordeste fez a comunidade local se unir para remover as manchas pretas no mar. Além das principais praias de Morro, as praias de Garapuá, Tassimirim e Cueira, as duas últimas na Ilha de Boipeba, também foram atingidas. 

O mutirão foi fundamental para que, antes do final da tarde, um dos principais destinos turísticos da Bahia tivessem suas principais praias liberadas para banho. Barqueiros, comerciantes, funcionários públicos, ambulantes, empresários, além de prepostos da Marinha e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), trabalharam juntos para retirar cerca de 1,5 tonelada do material. “Foi bonito de ver todo mundo trabalhando junto. Desde 7h da manhã estamos nessa função. Estamos cansados, sujos, mas felizes”, disse João Correio dos Santos, 56 anos, que faz transporte marítimo entre Valença, Morro, Boipeba e Garapuá.  

Voluntários se uniram para retirar os resíduos das praias de Morro de São Paulo (Foto: Elton Andrade/Divulgação Prefeitura de Cairu)

No final do dia, apenas a quinta praia de Morro, conhecida como Praia do Encanto, tinha óleo para ser removido. Neste ponto, próximo à foz do Rio Panã, há uma área de manguezais. Os relatos da comunidade dão conta de que o óleo grudou no mangue e ainda precisa ser retirado. “A parte turística, que tem mais visibilidade, o óleo não chegou com tanta intensidade. Conseguimos limpar rapidamente. Mas, na área do mangue ele chegou mais denso, tá dando mais trabalho”, falou Íngrid Batista, 37 anos, empresária do ramo de hotelaria, com a roupa tão suja quanto o barqueiro João. “Estamos juntos nessa luta contra o óleo”, completou.   

Interdição
Todas as praias atingidas pertencem ao município de Cairu. Era madrugada, por volta de 2h30 de terça, quando os primeiros sinais de óleo foram avistados. A segunda e terceira praias chegaram a ser interditadas pela prefeitura. Nesse momento, as pousadas chegaram a receber ligações com turistas cancelando reservas. “Muita gente ligando buscando informações, mas teve hospede que cancelou, sim. Imagine a nossa preocupação”, contou o empresário Antônio Carlos Berti, sócio de quatro pousadas em Morro.

Apesar das ameaças de cancelamento de reservas, quem também não parava de chegar no paraíso eram os os turistas. Quem desembarcava e pisava os pés na Ilha de Tinharé já estava sabendo do problema e se mostrava preocupado. Na fila para embarcar no catamarã que, em duas horas, leva visitantes de Salvador para Morro de São Paulo, já havia turistas alardeados com a possibilidade de não poder se banhar durante os dias de folga. 

A comerciante paulista Lane Draback, que estava acompanhada com quatro amigas, buscava informações sobre a interdição de duas das praias do balneário. "Imagine você chegar em um lugar como Morro de São Paulo, esperar o ano todo por essas férias, e quando chega aqui não pode entrar na água e não pode fazer um passeio sequer. É triste, viu", lamentou Lane.

Com a limpeza das praias, a coisa começou a normalizar no início da tarde. A interdição da segunda e terceira praias ocorreu no início da manhã e foi suspensa entre 12h30 e 13h. O Passeio Volta à Ilha, também proibido por algumas horas, voltou a funcionar normalmente. Apesar das liberações, o município-arquipélago aguarda a avaliação dos órgãos estaduais responsáveis para repassar a recomendação de banho de mar no local. 

Durante a remoção, peneiras foram utilizadas para separar o resíduo do mar e da areia (Foto: Elton Andrade/Divulgação Prefeitura de Cairu)

As Secretarias Municipais de Desenvolvimento Sustentável e Especial do Morro afirmaram ter esperado de prontidão os primeiros sinais da chegada do material. 

Todo o óleo removido foi armazenado em uma área cedida pela Fazenda Caieira, próxima à terceira praia de Morro. Mais material deve ser retirado nesta quarta-feira (23). “Estamos colocando o óleo em uma grande caixa d’agua. Já tem 1,5 tonelada esperado a Petrobrás vir buscar, mas tem mais material para retirar da Quinta Praia. Temos que torcer também para não chegar mais óleo durante a noite”, avaliou Antônio Berti. “Fiz a minha parte hoje e se precisar vou fazer amanhã. A gente precisa do turista, a gente vive disso”, avisou o condutor de bagagem Aloísio Ferreira, 44 anos, mostrando os chinelos ainda sujos de óleo.  

Cerca de 1,5 tonelada do material foi retirada das praias de Morro de São Paulo (Foto: Elton Andrade/Divulgação Prefeitura de Cairu)

A Prefeitura de Cairu, que conta com o apoio de voluntários devidamente equipados, assim como da empresa responsável pela limpeza pública da região, informou que manterá o monitoramento de todas as praias do município-arquipélago, incluindo Garapuá e Boipeba, para manter a costa livre de óleo.

Desde que as manchas de óleo, do que já é o maior desastre ambiental de todo o Nordeste do Brasil, atingiram a Bahia, a Prefeitura de Cairu, por meio da equipe técnica da Secretaria de Desenvolvimento Sustentável, iniciou o monitoramento das praias do arquipélago e a adotou as estratégias do plano de emergência ambiental, garantiu o órgão. 

Para somar esforços, a cidade recebeu representantes do Bahia Pesca, do Projeto Manatee e equipes da Marinha do Brasil, da Petrobrás e do Ibama e do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema).

Guarapuá
Ao lado de Morro de São Paulo, a praia de Garapuá, em Cairu, também foi atingida pelo óleo. De acordo com o superintendente do Ibama na Bahia, Rodrigo Alves, apenas uma pequena quantidade de resíduo atingiu a região.

Mesmo com pouco óleo, os moradores de Garapuá limparam de prontidão a praia e, pela tarde, o local já estava limpo, informou a dona da pousada Garapuá Beira-mar, Patrícia Coutinho. Segundo ela, os resíduos ficaram presos nos arrecifes e no manguezal, o que fez com que eles não chegassem à areia. A moradora da região apontou que o Mangue da Chapada foi afetado.

“Agora, estamos apenas observando se vai ter mais óleo, o pessoal está sempre se movimentando. Fui nas praias mais cedo e não visualizei o resíduo. Para dentro da enseada de Garapuá não teve óleo”, contou. Segundo Patrícia, o óleo chegou ao local por volta das 5h desta terça-feira. Para ela, a preocupação é a toxicidade do petróleo cru.

O Ibama montou uma base na região para monitorar o Litoral Sul desde antes da chegada do óleo e a Marinha mantém dois navios no local há mais de uma semana. Segundo Alves, mesmo em pouca quantidade, a chegada dos resíduos acende um alerta. “A preocupação é muito grande porque é uma área riquíssima do ponto de vista ambiental, do ponto de vista turístico e para as comunidades pesqueiras da região”, afirmou.

A plataforma de Manati, da Petrobras, já acionou o plano de emergência individual para poder atuar na situação das manchad de óleo no local.

Confira a lista atualizada das praias baianas atingidas pela mancha de óleo

Preocupa
A chegada do óleo na região preocupa pelo estado de preservação que as áreas possuíam. Segundo o diretor do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia, Francisco Kelmo, a localidade pode ser considerada um santuário, mas o óleo “vai acabar com tudo”.

Lá, existem muitos corais grandes e mangues, informou Kelmo. Por isso, a preocupação aumenta, já que os corais têm papel fundamental na biodiversidade local. “Eles são os principais formadores do recife. O recife é um habitat que serve de abrigo e alimento para várias espécies. Sem ele, espécies morreriam por ficar sem teto e sem comida”, explicou.

Kelmo ainda apontou que os manguezais têm um tempo de recuperação de 10 anos, enquanto os corais demoram cerca de 20 anos para se restaurarem pois possuem em crescimento lento. “Quando passar o evento e se conseguir analisar as áreas vamos ver como estes locais vão se recuperar. Se vai ser de forma natural ou vai precisar de uma mãozinha”, afirmou.


*Com supervisão da chefe de reportagem Perla Ribeiro.

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