Conheça as 'armas' que o mosquito da dengue usa para não ser capturado

salvador
09.12.2018, 05:10:00
Atualizado: 09.12.2018, 08:23:18
(Mosquito da dengue se adapta bem ao ambiente (Foto: Marina Silva/Arquivo CORREIO))

Conheça as 'armas' que o mosquito da dengue usa para não ser capturado

Em 2019, 10 mil armadilhas letais vão ser espalhadas pela cidade

Ele é um velho conhecido dos baianos. Com as pernas listradas de branco, o Aedes aegypti já virou figurinha carimbada no Verão. A cada ano, novas estratégias são criadas pela enfrentá-lo e, até então, o bichinho resistiu. Agora, a ofensiva será mais forte: já no início de 2019, 10 mil armadilhas letais serão distribuídas pela cidade, e até drones devem ser usados na tentativa de frear a proliferação do inseto. 

Que o mosquito que ficou conhecido pela dengue – mas transmite outras arboviroses, como Chikungunya, zika e febre amarela – se adapta bem, quase todo mundo sabe. O que não estava claro é o quanto essa capacidade de adaptação fez com que o Aedes aegypti se desenvolvesse nos últimos anos. 

Para começar, por anos, os estudos indicavam que seu raio de voo era de 50 metros. Só que pesquisas mais recentes já mostram a ampliação dessa distância, como aponta o biólogo Eduardo Oyama, do Instituto de Tecnologia da Saúde (ITS) do Senai Cimatec. Voando por uma área maior, o mosquito aumenta a dispersão dos ovos. 

Para completar, os ovos do Aedes aegypti são resistentes por quase um ano, sem contato com a água. Ou seja: se forem depositados em um pneu, por exemplo, não tiver água no local, mas, em algum momento ao longo de um ano, os ovos entrarem em contato com água, novos mosquitos irão nascer. 

“Existe um primo do Aedes aegypti, o Aedes albopictus, que provavelmente foi introduzido no Brasil com a vinda de pneus do Japão. Esses pneus foram transportados e, chegando aqui, ficaram em locais não protegidos e os ovos eclodiram”, exemplifica Oyama.

O Aedes albopictus transmite, na Ásia, as mesmas doenças que o primo transmite aqui. 

Outra mudança é o próprio local de depósito. Se, antes, a fêmea do mosquito só deixava os ovos em águas limpas, pesquisas já identificaram que há ovos também nas águas turvas, de bueiros. “E a fêmea coloca os ovos em vários criadouros, não em apenas um. Com isso, ela perpetua a espécie, porque, caso um depósito seja destruído ou a água seque, existem chances para que a prole sobreviva”, completa Oyama. 

Além disso, como aponta a professora Florisneide Barreto, do Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da Universidade Federal da Bahia (Ufba), o Aedes aegypti é resistente a condições ambientais, especialmente onde as temperaturas não são de frio extremo nem calor extremo. 

Sem contar que basta uma quantidade mínima de população infectada para o vírus circular.

“Até 1% de infestação predial já é suficiente para uma epidemia. É difícil, hoje, ter medidas que controle a infestação a menos de 1% e não é uma questão de planejamento”, diz a professora.

Parte das tecnologias tradicionais, como os inseticidas e os ‘fumacês’ não são totalmente recomendadas por ela para uso contínuo. “Na minha visão, não dá para colocar fumacê todo dia, o tempo inteiro, nas casas, porque é tóxico, é químico. E também pela questão da resistência do mosquito, porque, quanto mais se expõe (ao fumacê), mais resistente fica”, explica. 

Armadilha letal
Diante desse contexto, de um mosquito que se adapta muito bem, uma armadilha letal é uma das novas iniciativas para combater o mosquito. Desenvolvida por pesquisadores do ITS do Senai Cimatec há aproximadamente um ano, ela começará a ser utilizada já no primeiro trimestre de 2019. Ao todo, serão dez mil armadilhas espalhadas pela cidade. 

Dessas dez mil, cinco mil serão destinadas à pesquisa, de fato, para validar o novo equipamento. Um teste em laboratório já foi feito, mas, agora, chegou a fase de campo. Essa etapa vai durar um ano e deve acontecer nos bairros de São Caetano, Valéria, Fazenda Grande do Retiro I e Bom Juá. Já o bairro de Plataforma será o controle, onde as armadilhas não serão utilizadas – lá, serão mantidas as estratégias tradicionais de combate ao inseto. 

Idealizador da armadilha, o biólogo Eduardo Oyama explica que ela será alvo de testes a partir de 2019 (Foto: Marina Silva/CORREIO)

As duas áreas foram escolhidas por terem similaridade em aspectos que vão desde a infraestrutura e as condições socioeconômicas da população até os indicadores entomológicos, de acordo com o idealizador da armadilha, o biólogo Eduardo Oyama. “A gente vai fazer uma visita quinzenal para ver como está o índice de infestação, com ajuda dos agentes de endemias da prefeitura no Subúrbio Ferroviário”, explicou.

Chamada de ovitrampa Loc, o equipamento, na verdade, é uma versão melhorada da chamada ‘mosquitoeira’, que ficou famosa nos últimos anos por atrair mosquitos e fazem com que eles morressem afogados. A ovitrampa baiana coleta os ovos do mosquito e, em contato com a água, as larvas acabam morrendo por falta de oxigênio. 

“A mosquitoeira é aberta em cima, mas a gente colocou um funil inclinado (na ovitrampa Loc), então a larva morre afogada. A tampa preta impede que a armadilha vire foco”, disse, citando um dos pontos negativos da mosquitoeira.

No caso dela, se cair uma folha, por exemplo, a garrafa pode entupir e acabar virando um foco de larvas do mosquito. 

A possibilidade de virar foco do mosquito, ao acumular água, é um dos problemas da ovitrampa aberta tradicional, utilizada hoje em Salvador e em outras cidades. 

A estimativa é de que 1,2 mil residências recebam as novas armadilhas. Cada casa terá três equipamentos, cujo custo unitário é estimado em R$ 5. Antes que as novas armadilhas sejam instaladas, porém, serão utilizadas as armadilhas que capturam insetos adultos – a chamada BG-Sentinel, um equipamento importado elétrico. 

Ao todo, estão sendo produzidas 10 mil armadilhas (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Elas serão colocadas nas duas áreas de estudo: tanto na de controle quanto na intervenção, para saber qual é a infestação. Após o período de um ano usando as ovitrampas Loc, a BG-Sentinel será utilizada novamente para analisar o índice depois de um ano. 

“A BG-Sentinel é usada dentro de casa e, segundo um estudo feito pelo ISC (Instituto de Saúde Coletiva), libera um cheiro próximo ao nosso suor e atrai muito vetor infectado para a residência. Além de ser cara, pode ser um risco”, pondera Oyama. 

No estudo, conduzido em 2010 por pesquisadores da Ufba, percebeu-se que o equipamento atraía muriçocas, Aedes albopictus (que transmite as mesmas doenças que o Aedes agypti) e Lutzomyia longipalpis (o mosquito que transmite a leishmaniose), além do próprio Aedes aegypti. A BG sentinela ainda tem a desvantagem de ser mais cara: custa mais do que R$ 500 reais.

As armadilhas Loc estão sendo produzidas desde o início do semestre e devem ser concluídas até o fim deste ano. O projeto tem o aporte de R$ 600 mil da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb), além do apoio da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e da prefeitura, que mobilizará os agentes de endemias das regiões envolvidas. 

Pela cidade
Em troca, as outras cinco mil armadilhas serão doadas à prefeitura, que deve colocá-las em pontos considerados estratégicos pela cidade. Esses locais serão definidos depois que o teste da outra metade começar, de acordo com a coordenadora do programa de controle do Aedes no município, Isolina Miguez. 

Para ela, a nova tecnologia será positiva para a cidade. “A gente vai usar como estratégia naqueles lugares que sempre ficam com altos índices de infestação. Agora mesmo, deu alto no Caminho das Árvores e em Fazenda Coutos, mas vamos precisar analisar os LIRAas mais recentes para definir”, afirma, referindo-se ao Levantamento Rápido de Índices para Aedes aegypti.

Por enquanto, a Secretaria Municipal de Saúde usa cinco mil ovitrampas tradicionais, recebidas do Ministério da Saúde no ano passado. Elas já foram usadas em bairros como Pernambués, Cabula e no Subúrbio Ferroviário para detectar a quantidade de ovos – o LIRAa, por exemplo, identifica a quantidade de larvas. 

“As ovitrampas comuns não servem para matar os mosquitos, mas para a gente fazer o direcionamento das ações, para saber se estão surtindo efeito. Essa armadilha a gente coloca numa semana e tira na outra. Não pode colocar diretamente ao sol, mas na sombra, para facilitar a introdução do mosquito. Essa de agora, o mosquito morre de fato”. 

Nesse caso, o biólogo Eduardo Oyama explica que a ovitrampa tradicional tira ovos do meio, reduzindo a população futura, mas há um problema de pessoal em alguns municípios que o aderem. “O agente não pode errar. A partir do momento que o agente não retorna no prazo de uma semana ou 15 dias, ela está lá com água e ovos dentro, a armadilha eclode e vira um foco”, diz. 

Cronograma
A SMS já deu início às ações para combater o mosquito Aedes aegypti. Entre 13 a 20 de dezembro, a equipe do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) colocará ovitrampas no bairro do Lobato, enquanto de 17 a 21 serão realizadas ações nos bairros Guarani, Engomadeira, Tancredo Neves, Vale dos Lagos, Lobato, São João do Cabrito, Fazenda Coutos, Coutos e Vista Alegre com revisitas de imóveis focados, ações educativas e inspeções. Além disso, as visitas dos agentes de endemias ocorrem diariamente. 

Plataforma online promove até sobrevoo com drones para visualizar focos em imóveis fechados
Para facilitar a vida dos agentes de endemias, uma das alternativas é o uso de drones para sobrevoar imóveis fechados. Essa é uma das propostas da plataforma Mosquito Zero, que começou como um aplicativo para indicar e fotografar locais de foco do mosquito e já tem até um robô virtual que orienta a população. 

De acordo com o CEO do Mosquito Zero, Alex Sandro Correia, o robô virtual foi lançado na semana passada, a partir de um edital da prefeitura para cidades inteligentes. O robô fica no Facebook do Mosquito Zero e conversa sobre o mosquito, informando também onde é possível se vacinar contra a febre amarela. 

O robô virtual tem sido apresentado, em totens, a alunos de escolas municipais (Foto: Reprodução)

O drone, por outro lado, vai servir para visualizar imóveis abandonados, fechados ou que os moradores não autorizam a entrada dos agentes de endemia da prefeitura.

“Sou ex-agente de endemias e vivenciei muitas situações no campo que são estratégias para os gestores. Eu vivenciei essa dificuldade (dos imóveis fechados)”, explica Correia. 

O equipamento tem autorização do Ministério da Defesa e da Agência Nacional da Aviação Civil (Anac) para sobrevoar qualquer área com o objetivo de identificar focos do mosquito Aedes aegypti. 

A plataforma conta com um drone, mas cada cidade que contratar o programa pode ter seu próprio equipamento. “Validamos a utilização do drone como elemento da plataforma, mas, oficialmente, não usamos ainda. Dependo de fechar contrato com as prefeituras”, explica. 

O Mosquito Zero está sendo avaliado pela prefeitura de Salvador, bem como pelas do Rio de Janeiro, Niterói e São Gonçalo (todas no Rio de Janeiro) e pelo governo do estado de São Paulo. O valor é calculado pelo número de habitantes – o mais caro, para cidades menores, fica de R$ 0,90 por habitante por ano. 

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