Consulado Argentino faz campanha para encontrar familiares de desaparecidos na Ditadura

bahia
20.05.2021, 20:56:00
Atualizado: 20.05.2021, 20:56:14
Mais de 30 mil argentinos desapareceram ou foram mortos durante a Ditadura Militar (Foto: Juan Ignacio Roncoroni/EFE)

Consulado Argentino faz campanha para encontrar familiares de desaparecidos na Ditadura

Campanha pretende encontrar pelo menos 350 pessoas; na Bahia, houve uma apresentação voluntária e caso é analisado

Dia 24 de Março de 1976. Essa foi a data de início da sangrenta Ditadura Militar Argentina, que durou 7 anos. Um processo muito semelhante ao que o Brasil enfrentou entre 1964 e 1985 ou que diversos outros países da América Latina enfrentaram durante a Guerra Fria: governos antidemocráticos, que deixaram um rastro de sangue gigantesco, vários compatriotas mortos ou desaparecidos e famílias destroçadas. Literalmente, em vários casos.

Cerca de 30 mil argentinos foram assassinados ou desapareceram por conta repressão militar entre 1976 e 1983. Diversas crianças nascidas nesse período foram sequestradas e entregues a outras famílias. Há, inclusive, casos de crianças sequestradas que foram criadas pelos próprios assassinos dos pais, sem que tivessem a menor ideia do que aconteceu com sua família biológica - ou até sem saber que as tem. Pensando neste cenário, existe o projeto "Ajude-nos a lhe encontrar", que tem ações em todo o mundo, incluindo a Bahia, para encontrar filhos e netos dos desaparecidos pela repressão.

A iniciativa é do Ministério de Relações Exteriores e Comércio Internacional da Argentina em conjunto com a Comissão Naiconal pelo Direito à Identidade (CoNaDi) e Avós da Praça de Março. Cônsul Geral da Argentina na Bahia, Pablo Virasoro afirma que a campanha tem como objetivo visibilizar uma antiga política de Estado do país cisplatino e tem objetivo de localizar pelo menos 350 pessoas, adultos com idades entre 47 e 38 anos.

"Essas pessoas podem ter nascido na Argentina e tiveram a identidade trocada pelas pessoas que estavam com suas identidades, com o intuito de apagar todo o rastro da pessoa desaparecida", afirma o cônsul.

Mais de 140 embaixadas e consulados apoiam a campanha ao redor do mundo, atuando principalmente onde há colônias argentinas presentes. De acordo com Virasoro, os países da América do Sul, México e Europa são os locais onde as 130 pessoas já localizadas estavam vivendo. 

"Aqui na Bahia temos uma comunidade argentina historicamente presente desde a época da ditadura. A maioria se concentrou no Sul, mas tivemos muitos argentinos se instalando aqui nesta época", afirma.

Como funciona
Todo processo é bastante sigiloso para que a privacidade da pessoa seja respeitada. As pessoas que têm dúvida sobre sua origem podem se encaminhar ao consulado de forma espontânea para análise de documentos que são enviados à CoNaDi para avaliação. Depois disso, a Comissão pede que sejam coletadas amostras de sangue que são cruzadas com um banco de dados genéticos na Argentina.

(Foto: Divulgação)

Na Bahia, uma pessoa já foi ao consulado para fazer essa identificação. O processo está correndo. Virasoro aponta que somente a Justiça e a CoNaDi possuem acesso e poder de pedir a análise comparativa do banco genético.

"A comparação é bastante precisa. Uma vez que se consegue a amostra é facilmente comparável com as informações do banco de pessoas desaparecidas. A pessoa recupera sua verdadeira identidade, o resultado só é publicado se ela quiser", explicou o cônsul.

A identificação de familiares das vítimas da ditadura é importante por um motivo fundamental: preservação da memória. O cônsul entende que dar o direito de que pessoas conheçam sua própria história e familiares é uma maneira de conscientizar a sociedade e mostrar ao mundo tudo que a humanidade é capaz de fazer.

"Somos um país que matou suas próprias famílias, uma nação que num momento, por questões ideológicas e políticas, caiu numa desgraça dessas. É uma forma de se blindar para que a humanidade toda e presentear nossas futuras gerações com uma lição que nunca deve ser esquecida. Sempre devemos ter bem presente na memória e lembranças o que aconteceu porque a história é o que nos ensina para construir um futuro melhor", avaliou. 

Os interessados devem ir até o Consulado Argentino, localizado na Av. Centenário, 2411, para fazer a abertura do processo. E como nunca é bom deixar de lembrar: Ditadura, nunca mais!

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